ENTRE A DÚVIDA E A FÉ
Quando o coração não sabe o que acreditar
Liandra Langa
CAPÍTULO 10
QUANDO O SILÊNCIO PESA
O desemprego continuava a ser uma das maiores preocupações de Marcos. Desde que perdeu o trabalho, os dias tinham-se tornado mais longos, as noites mais difíceis e as responsabilidades pareciam pesar sobre os seus ombros como nunca antes.
Apesar dos pequenos serviços que começava a realizar e das oportunidades que continuava a procurar, Marcos ainda não conseguia recuperar a tranquilidade que tinha antes.
Havia contas para pagar, duas crianças para cuidar e uma família que dependia, de alguma forma, das suas decisões. Mesmo quando sorria para Matilde e brincava com os filhos, carregava dentro de si uma pergunta que não tinha coragem de fazer em voz alta:
E se eu não conseguir dar à minha família aquilo de que ela precisa?
Marcos sempre se orgulhava de ser um homem trabalhador. Para ele, cuidar da família significava estar presente, proteger, assumir responsabilidades e fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para garantir o bem-estar dos seus.
Por isso, perder o emprego não significava apenas ficar sem salário. Na sua mente, era como se tivesse perdido também uma parte da confiança que depositava em si mesmo.
Matilde começou a perceber a mudança.
Marcos já não conversava tanto como antes. Por vezes, sentava-se na sala, com o olhar distante, enquanto segurava o telemóvel sem realmente prestar atenção ao que aparecia no ecrã. Noutras ocasiões, respondia às perguntas dela com poucas palavras e dizia que estava tudo bem.
No início, Matilde tentou respeitar aquele silêncio. Imaginou que o marido precisava de tempo para organizar os pensamentos e encontrar uma solução para os problemas.
Contudo, à medida que os dias passavam, o silêncio começou a incomodá-la.
Numa noite, depois de colocar as crianças a dormir, Matilde encontrou Marcos sentado à mesa, a olhar para alguns documentos e anotações sobre as despesas da casa.
— Ainda estás a pensar nas contas? — perguntou ela, aproximando-se.
Marcos levantou os olhos por um instante.
— Estou apenas a organizar algumas coisas.
— Posso ajudar-te?
— Não te preocupes. Eu trato disso.
A resposta foi curta. Não houve agressividade, mas também não houve espaço para uma conversa.
Matilde sentou-se diante dele e respirou fundo.
Uma parte dela queria insistir. Outra recordava-lhe que, quando não compreendia o comportamento de alguém, a sua mente tinha o hábito de preencher os espaços vazios com os piores cenários.
Desta vez, porém, decidiu não permitir que o medo falasse primeiro.
Marcos, não quero pressionar-te, mas tenho sentido que estás a guardar muita coisa dentro de ti. Não precisas de resolver tudo sozinho.
Ele baixou os olhos para os papéis.
— Às vezes, nem eu sei o que dizer, Matilde.
A resposta surpreendeu-a.
— Como assim?
Marcos ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois, pousou a caneta e passou as mãos pelo rosto.
— Sempre pensei que conseguiria manter tudo sob controlo. Trabalhava, recebia o meu salário e sabia como organizar as nossas despesas. Agora, passo os dias à procura de oportunidades, aceito pequenos serviços e, mesmo assim, continuo sem saber como será o próximo mês.
Fez uma pausa, tentando controlar a emoção.
— O que mais me custa não é apenas estar sem emprego. É olhar para ti e para as crianças e sentir que devia estar a fazer mais. Tenho medo de vos decepcionar.
Matilde sentiu um aperto no peito. Pela primeira vez, conseguiu compreender um pouco melhor o que se passava dentro do marido.
O silêncio que tanto a incomodava não era necessariamente uma tentativa de afastá-la. Talvez fosse a forma imperfeita que Marcos encontrara para esconder uma dor que o fazia sentir-se insuficiente.
Ela estendeu a mão sobre a mesa e segurou a dele.
— Marcos, eu não me casei contigo apenas pelo salário que recebias. Casei-me contigo pelo homem que és, pelo teu carácter, pelo teu amor e pela família que construímos juntos.
Ele tentou sorrir, mas os olhos estavam húmidos.
— Eu sei. Mas é difícil sentir que não consigo fazer tudo o que gostaria.
— Então, vamos aprender a enfrentar esta fase juntos. Não te peço que tenhas todas as respostas. Só não quero que sintas que precisas de esconder a tua dor de mim.
Marcos apertou a mão dela.
— Às vezes, fico calado porque tenho medo de te preocupar ainda mais.. Sei que estás a cuidar das crianças e que também tens as tuas preocupações.
— Eu preocupo-me mais quando sinto deque estás a sofrer sozinho — respondeu se Matilde. — Não precisamos de conversar sobre tudo de uma só vez, mas precisamos de continuar a conversar.
Naquela noite, permaneceram à mesa por mais algum tempo. Falaram sobre as despesas, as pequenas oportunidades de trabalho e as responsabilidades que poderiam dividir de outra maneira. Não encontraram uma solução para todos os problemas, mas conseguiram algo importante: deixaram de enfrentar as preocupações cada um no seu canto.
Antes de se deitarem, Matilde ficou alguns minutos junto à janela, a observar as luzes distantes da cidade.
Pensou na facilidade com que o medo a levava a procurar significados escondidos nos comportamentos dos outros. Durante muito tempo, acreditara que precisava de estar sempre atenta para não ser surpreendida pela dor.
Agora, começava a compreender que nem todo o silêncio era uma ameaça. Algumas vezes, era apenas o sinal de que alguém precisava de ajuda para encontrar palavras.
Isso não significava que deveria ignorar os seus sentimentos ou deixar de fazer perguntas. Significava aprender a perguntar sem acusar, escutar sem antecipar respostas e distinguir aquilo que realmente acontecia daquilo que o medo imaginava.
Matilde sabia que ainda tinha muito para aprender. As feridas da infância não desapareceriam de um dia para o outro, e a pressão financeira continuaria a desafiar a família.
Mas, naquela noite, percebeu que a confiança também se construía assim: quando duas pessoas escolhiam falar com sinceridade, mesmo sem terem todas as respostas.
UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
A Bíblia ensina-nos, em Filipenses 4:6:
“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças.”
A preocupação pode fazer-nos acreditar que precisamos de carregar tudo sozinhos. Contudo, Deus convida-nos a apresentar-Lhe as nossas inquietações e a procurar sabedoria para enfrentar cada situação.
A fé não significa que nunca sentiremos medo, cansaço ou insegurança. Significa que podemos reconhecer as nossas limitações, pedir ajuda e continuar a dar passos responsáveis, mesmo quando ainda não vemos a solução.
Marcos precisava de compreender que o seu valor não estava limitado à sua capacidade de sustentar financeiramente a família. Matilde, por sua vez, precisava de aprender que ouvir o marido era mais útil do que tentar adivinhar o que se passava na sua mente.
Às vezes, a pessoa que amamos não precisa que resolvamos todos os seus problemas. Precisa apenas de saber que não terá de enfrentá -los sozinha.
REFLECTINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. Já interpretaste o silêncio de alguém sem procurares compreender o que essa pessoa estava a viver?
2. Por que razão algumas pessoas escondem as suas dificuldades daqueles que mais amam?
3. Como podemos demonstrar apoio sem pressionar alguém a falar antes de estar preparado?
4. Quando enfrentamos problemas, temos procurado soluções com fé e responsabilidade ou tentamos carregar tudo sozinhos?
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
O silêncio nem sempre significa afastamento. Às vezes, esconde cansaço, vergonha ou o medo de decepcionar quem amamos.
Aprender a escutar é também uma forma de amar. E pedir ajuda não diminui o nosso valor; lembra-nos de que não fomos feitos para enfrentar todas as sozinhos.
ORAÇÃO FINAL
Senhor meu Deus, dá-me sabedoria para compreender as pessoas que amo. Ensina-me a escutar antes de julgar, a perguntar antes de tirar conclusões e a oferecer apoio sem aumentar o peso de quem já está a sofrer.
Ajuda-me a entregar-Te as minhas preocupações e a enfrentar cada dificuldade com fé, responsabilidade e esperança. Que a minha casa seja um lugar de diálogo, respeito e acolhimento, onde ninguém precise de esconder a sua dor por medo de ser incompreendido.
Em nome de Jesus, amém.
Nenhum comentário:
Postar um comentário