ENTRE A DÚVIDA E A FÉ
Quando o coração não sabe o que acreditar
Por Liandra Langa
CAPÍTULO 2
QUANDO A DÚVIDA COMEÇA
1. O pensamento que não queria calar-se
Matilde acordou naquela manhã com a sensação de que não tinha descansado o suficiente. Durante a noite, dormiu por algumas horas, mas a sua mente parecia ter passado todo o tempo a trabalhar.
A chamada da noite anterior continuava presente nos seus pensamentos.
Quem teria ligado para Marcos? Por que ele saiu do quarto para atender? Se não havia nada de errado, por que razão ela continuava a sentir-se inquieta?
Levantou-se, preparou o pequeno-almoço e ajudou o filho a vestir-se. Marcos, como de costume, organizou-se para ir trabalhar. Antes de sair, aproximou-se dela, beijou-lhe a testa e perguntou:
— Dormiste bem, meu amor?
Matilde hesitou por um instante.
— Mais ou menos. A barriga já pesa muito e tenho tido dificuldade para dormir.
Marcos sorriu com ternura e pousou a mão sobre a barriga dela.
— Aguenta só mais um pouco. Daqui a algumas semanas teremos mais um membro na nossa equipa.
Matilde esboçou um sorriso. Aquele era o Marcos que conhecia: carinhoso, responsável e preocupado com a família.
Ainda assim, uma pergunta insistia em permanecer dentro dela.
Se está tudo bem, por que não consigo tirar aquela chamada da cabeça?
Despediu-se do marido sem tocar novamente no assunto. Não queria parecer desconfiada, muito menos começar uma discussão sem ter motivos concretos. Porém, enquanto o observava sair, percebeu que o silêncio não estava a trazer-lhe paz. Pelo contrário, estava a dar mais espaço aos seus pensamentos.
2. Quando a imaginação começa a preencher os espaços
Durante a manhã, Matilde tentou ocupar-se com as tarefas de casa. Dobrou algumas roupas do bebé, arrumou os brinquedos do filho e verificou a lista das coisas que ainda precisava de comprar antes do nascimento.
Por alguns momentos, conseguiu esquecer-se da chamada. Mas bastava ficar sozinha para que a pergunta regressasse.
Pegou no telefone e abriu a conversa com Marcos. Leu as últimas mensagens trocadas entre eles. Eram mensagens comuns, relacionadas com as compras da casa, o filho e algumas despesas.
Não encontrou nada que justificasse a sua inquietação.
Mesmo assim, a mente começou a criar possibilidades.
E se ele estiver a esconder alguma coisa? E se aquela chamada tiver sido de alguém que eu não conheço? E se houver algo na nossa relação que ainda não percebi?
Matilde deixou o telefone de lado.
Não tinha provas. Não conhecia a pessoa que ligou. Nem sequer sabia se a chamada tinha alguma relação com a vida pessoal do seu marido.
Mas a ausência de respostas começou a incomodá-la tanto que a imaginação parecia oferecer explicações mais depressa do que a realidade.
Foi nesse momento que percebeu algo assustador: estava a começar a sentir medo de uma situação que ainda não compreendia.
E, sem perceber, o *medo* começava a transformar uma simples pergunta numa suspeita.
3. Uma conversa com a amiga
Naquela tarde, Matilde recebeu a visita de uma amiga, chamada Sara. As duas conversaram sobre a gravidez, os preparativos para a chegada do bebé e as dificuldades de conciliar a vida familiar com as responsabilidades diárias.
Sara conhecia Matilde há algum tempo e percebeu que ela estava mais calada do que o habitual.
— Matilde, estás bem? Parece que tens alguma coisa a preocupar-te.
Matilde tentou sorrir.
— Estou bem. Talvez seja apenas o cansaço da gravidez.
Sara olhou para ela com atenção.
— Pode ser. Mas conheço-te o suficiente para perceber quando estás a guardar alguma coisa.
Matilde ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, decidiu contar-lhe o que tinha acontecido.
Explicou que na noite passada Marcos recebeu uma chamada enquanto tomava banho, que saiu apressadamente para atender e que, desde então, ela não conseguia deixar de pensar naquele comportamento.
Sara ouviu sem interromper.
Quando Matilde terminou, perguntou:
— Achas que ele está a esconder alguma coisa de mim?
Sara respirou fundo antes de responder.
— Matilde, eu não sei. Tu também não sabes. O que sabemos é que ele recebeu uma chamada e foi atender. Ainda não conheces o motivo.
— Mas achei estranho. Ele nunca tinha feito aquilo daquela maneira.
— Então tens o direito de perguntar o que aconteceu. O que não podes é transformar aquilo que ainda não sabes numa certeza.
Matilde baixou os olhos.
Aquelas palavras tocaram num ponto sensível. Uma parte dela queria ouvir que estava certa, que a sua inquietação tinha uma razão. Outra parte sabia que não podia condenar o marido com base numa situação que não compreendia.
Sara continuou:
— Uma coisa é sentires medo. Outra é teres provas de que algo está errado. Não ignores os teus sentimentos, mas também não permitas que eles decidam tudo por ti.
Matilde permaneceu pensativa.
— E se eu perguntar e ele achar que não confio nele?
— Podes falar com amor, sem acusar. Dizer que uma situação te deixou inquieta não é o mesmo que chamar alguém de mentiroso. A maneira como conversamos também faz diferença. O tom de voz, a forma como encaramos um ao outro. Tente conversar com o seu marido e tire isso da sua cabeça antes que se transforme numa muralha para vocês. Gostaria de conversar sobre algo pessoal mas sinto que hoje não é bom dia para tal.
Quando Sara se despediu, Matilde agradeceu-lhe. Pela primeira vez desde aquela noite, começou a considerar uma possibilidade diferente: talvez não precisasse de descobrir todas as respostas sozinha, dentro da sua cabeça.
Talvez precisasse de ter uma conversa sincera.
4. O medo de perguntar
Ao fim da tarde, Marcos regressou a casa cansado. Cumprimentou a família, brincou com o filho e perguntou a Matilde se precisava de alguma coisa.
Ela queria perguntar sobre a chamada. A oportunidade estava ali.
No entanto, quando Marcos se sentou ao seu lado, as palavras ficaram presas na garganta.
E se ele ficar ofendido? E se disser que estou a exagerar? E se a resposta não for aquilo que espero?
— Aconteceu alguma coisa hoje? — perguntou Marcos, percebendo o silêncio dela.
— Não. Está tudo bem.
A resposta saiu depressa, quase automaticamente.
Marcos não insistiu. Levantou-se para ajudar o filho e continuou a sua rotina.
Matilde ficou a olhar para ele, sentindo-se dividida entre o desejo de falar e o receio de ouvir.
Naquela noite, quando se deitou, percebeu que tinha passado mais um dia a carregar uma pergunta que poderia ter sido colocada com simplicidade.
Não queria discutir. Não queria acusar. Queria apenas compreender.
Mas havia algo que precisava de reconhecer: por trás do medo de perguntar estava também o medo da resposta.
E esse medo era maior do que ela imaginava.
5. Uma oração por sabedoria
Antes de dormir, Matilde pegou na Bíblia que guardava na mesa de cabeceira. Abriu algumas páginas, mas não conseguiu concentrar-se de imediato.
Sentia-se cansada de lutar contra os próprios pensamentos.
Ajoelhou-se ao lado da cama e começou a orar.
— Senhor, Tu conheces o meu coração. Sabes o que estou a sentir, mesmo quando nem eu consigo explicar. Não quero desconfiar injustamente do meu marido, mas também não quero viver com perguntas que tenho medo de fazer. Ajuda-me a compreender os meus sentimentos. Dá-me sabedoria para saber como agir e coragem para conversar com amor. Não permitas que o medo fale mais alto do que a verdade. Amém.
Quando terminou, os problemas não tinham desaparecido. A chamada continuava sem explicação, e Matilde ainda não sabia por que aquela situação a tinha abalado tanto.
Mas alguma coisa começava a mudar.
Ela percebeu que não precisava de resolver tudo naquela noite. Precisava apenas de dar o próximo passo com maturidade.
Decidiu que conversaria com Marcos, não para o acusar, mas para lhe explicar o que sentiu e ouvir a sua versão.
Matilde ainda não compreendia todas as raízes daquela inquietação. Havia experiências antigas que talvez estivessem a influenciar a forma como interpretava o presente. Mas, por enquanto, sabia apenas que não queria deixar o medo decidir por ela.
Fechou os olhos e tentou descansar.
Na manhã seguinte, teria de encontrar coragem para iniciar uma conversa que estava a adiar.
E, embora ainda não soubesse, aquela conversa seria apenas o começo de uma jornada muito mais profunda: a jornada de aprender a distinguir a voz da verdade da voz das suas próprias feridas.
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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
Palavra bíblica — Tiago 1:5
“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e não o lança em rosto; e ser-lhe-á dada.”
Reflexão
Nem sempre sabemos interpretar correctamente aquilo que acontece à nossa volta. Por vezes, uma situação desperta medo, e esse medo leva-nos a imaginar cenários que ainda não foram confirmados.
Deus não nos convida a viver dominados pela ansiedade, nem a fechar os olhos diante da realidade. Ele convida-nos a procurar sabedoria para pensar, falar e agir com equilíbrio.
Matilde precisava de coragem para conversar, mas também precisava de humildade para reconhecer que ainda não conhecia todos os factos.
A fé não significa ignorar as perguntas. Significa aprender a enfrentá-las com sabedoria, verdade e confiança em Deus.
Antes de tirar uma conclusão, pergunta a ti mesma: O que realmente sei? O que estou apenas a imaginar? E qual é a atitude mais sábia que posso tomar agora?
REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. Por que razão a dúvida de Matilde continuou a crescer, mesmo sem ela ter provas de que Marcos estava a esconder alguma coisa?
2. Que conselho de Sara consideras mais importante? Porquê?
3. Matilde teve medo de perguntar ao marido sobre a chamada. O que pode acontecer quando guardamos os nossos receios em vez de conversarmos com sinceridade?
4. Como podemos distinguir um sentimento de medo de um facto comprovado?
5. Em situações de dúvida, de que maneira a oração e a Palavra de Deus podem ajudar-nos a agir com sabedoria, sem ignorar a realidade?
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
Não transformes uma pergunta numa sentença antes de conheceres a verdade. Reconhece o que sentes, procura compreender a origem desse sentimento e escolhe conversar com sabedoria, em vez de permitir que o medo decida por ti.
ORAÇÃO FINAL
Senhor meu Deus, dá-me sabedoria para enfrentar as situações que não compreendo. Ajuda-me a não tirar conclusões precipitadas, a não alimentar pensamentos que me roubam a paz e a não guardar em silêncio aquilo que precisa de ser conversado.
Ensina-me a falar com amor, a ouvir com humildade e a procurar a verdade com coragem. Se existem feridas antigas a influenciar as minhas decisões, ajuda-me a reconhecê-las e a encontrar em Ti o caminho da cura.
Que a minha fé não seja uma fuga da realidade, mas uma força para enfrentá-la com maturidade, discernimento e amor.
Em nome de Jesus, amém.
Continua
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