quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ANTES DA DÚVIDA


ENTRE A DÚVIDA E A FÉ

Quando o coração não sabe o que acreditar

Por Liandra Langa


CAPÍTULO 1

ANTES DA DÚVIDA


Há momentos na vida em que uma pequena situação desperta sentimentos que nem nós próprios conseguimos explicar.

Uma chamada telefónica. Um silêncio inesperado. Uma resposta diferente da habitual.

Para algumas pessoas, esses acontecimentos passam despercebidos. Para outras, tornam-se o início de uma batalha interior, na qual os pensamentos começam a fazer perguntas e o coração procura respostas.

Foi assim com Matilde.

Naquela noite, ela ainda não sabia que uma simples chamada telefónica a levaria a enfrentar medos antigos, a questionar a própria maneira de amar e a descobrir que nem tudo aquilo que sentimos corresponde necessariamente à realidade.

Mas, antes de chegarmos àquela noite, precisamos de conhecer a mulher que Matilde era e a família que tanto desejava proteger.


1. A mulher por trás da história


Matilde tinha trinta anos e nascera no Rio de Janeiro, Brasil. Era filha única de Helena Montana, uma mulher bem-sucedida que trabalhava numa multinacional e que, ao longo dos anos, construíra uma carreira respeitável graças à sua dedicação e determinação.

Helena era uma mulher forte, independente e admirada profissionalmente. Em casa, porém, a sua vida nem sempre tinha sido tão tranquila como parecia.

Matilde crescera rodeada pelo carinho da mãe. Como era a única filha, recebera muita atenção, proteção e oportunidades. Helena esforçava-se para que nada lhe faltasse e procurava compensar, através do amor materno, algumas das dificuldades que enfrentava no casamento.

Apesar das condições que a mãe lhe proporcionara, Matilde guardava recordações de uma infância marcada por momentos que nem sempre conseguira compreender.

Havia coisas que preferia não recordar.

Por enquanto, bastava dizer que algumas experiências vividas na infância tinham deixado marcas na maneira como Matilde olhava para os relacionamentos.

Ela crescera, estudara, amadurecera e construíra os seus próprios sonhos. Contudo, certas experiências pareciam continuar a acompanhá-la, mesmo quando acreditava que já pertenciam ao passado.

Agora vivia em Maputo, Moçambique, ao lado do marido, Marcos Gonsales, e do filho Malden de dois anos. Estava grávida de oito meses e preparava-se para receber o segundo bebé.

A sua vida não era perfeita, mas tinha aquilo que sempre desejara: uma família.

E Matilde queria muito que essa família fosse diferente daquela que conheceu durante a infância.


2. Marcos, o homem com quem escolheu construir a vida


Marcos trabalhava numa pequena empresa. Não era um homem rico, nem tinha uma posição profissional de grande destaque. Era, porém, trabalhador, honesto e dedicado às responsabilidades que assumira.

Matilde conhecera-o numa fase em que começava a imaginar o tipo de família que gostaria de construir.

Desde o início, Marcos demonstrara ser um homem reservado, mais inclinado a mostrar o que sentia através das atitudes do que através de grandes declarações.

Gostava de trabalhar, procurava cumprir os seus compromissos e preocupava-se com o bem-estar da família.

Quando começaram a namorar, Matilde sentiu que tinha encontrado alguém com quem poderia construir uma história diferente.

Marcos não lhe prometeu uma vida sem dificuldades. Falava-lhe, antes, de uma vida construída com esforço, respeito e companheirismo.

Certa vez, durante uma conversa sobre o futuro, disse-lhe:

— Não posso prometer que teremos tudo aquilo que desejamos, mas quero trabalhar para construir uma família contigo.

Matilde guardou aquelas palavras no coração.

Para ela, casamento significava muito mais do que viver debaixo do mesmo teto. Significava ter alguém com quem partilhar os sonhos, enfrentar as dificuldades e construir um futuro.

Casaram-se e, cinco anos depois, continuavam a caminhar juntos.

Pelo menos, era assim que Matilde compreendia a sua história.

Tinham enfrentado desafios, discussões e momentos de cansaço. Como qualquer casal, nem sempre concordavam em tudo.

Marcos, por vezes, chegava a casa cansado e preferia ficar em silêncio. Matilde, especialmente durante a gravidez, sentia falta de mais atenção e de conversas demoradas.

Essas diferenças provocavam alguns desentendimentos, mas, até então, ela não tinha provas concretas de que o marido lhe fosse infiel.

Amava-o e desejava confiar nele.

No entanto, existia dentro dela uma necessidade profunda de segurança, uma vontade de ter a certeza de que nunca viveria determinadas experiências que conhecera através da história dos seus pais.

Matilde ainda não compreendia completamente de onde vinha esse medo.

E talvez nem imaginasse o quanto ele poderia influenciar as suas decisões.


3. Uma família, muitos sonhos


Naquela fase da vida, Matilde tinha motivos para sorrir.

O filho de dois anos enchia a casa de alegria. Estava naquela idade em que cada descoberta parecia uma aventura e cada pergunta exigia uma resposta.

A chegada do segundo bebé também era motivo de entusiasmo.

Matilde passava algum tempo a organizar as roupas pequenas, a preparar as fraldas e a imaginar como seria o primeiro encontro entre os irmãos.

Quando sentia o bebé movimentar-se dentro da barriga, sorria e acariciava-a.

— Já estás com pressa de conhecer o mundo? — perguntava baixinho.


O filho aproximava-se, curioso.

— Mamã, está a falar com quem? O bebé está aí?

— Sim, meu amor. O teu irmãozinho está aqui.

O menino colocava a mão sobre a barriga da mãe, como se quisesse cumprimentar o bebé.

E Matilde sentia o coração encher-se de ternura.

Por vezes, Marcos aproximava-se também e colocava as mãos sobre a barriga da esposa.


— Está a mexer muito hoje?

— Muito — respondia ela, sorrindo.

— Esse aí vai dar trabalho!

— Igual ao pai — brincava Matilde.

Os dois riam.

E, naqueles momentos, ela acreditava que estava a construir a família que sempre desejara.

Não era uma vida de luxo. Havia despesas, responsabilidades e preocupações com o futuro. Marcos precisava de trabalhar para sustentar a casa, e ambos tinham de aprender a organizar os recursos de que dispunham.


Ainda assim, Matilde sentia gratidão.

Tinha um marido trabalhador, um filho que amava e outro bebé prestes a nascer.


O que mais poderia desejar?

Talvez apenas aquilo que tantas pessoas procuram nos relacionamentos: a tranquilidade de amar sem viver constantemente com medo de perder o que construíram.

Mas a vida nem sempre nos permite controlar as circunstâncias.

E, por vezes, é precisamente quando acreditamos estar seguros que uma situação inesperada revela os conflitos que ainda existem dentro de nós.


4. A noite da chamada

Era uma noite tranquila.

O filho já estava a dormir, e Matilde encontrava-se no quarto, a preparar algumas coisas para a chegada do bebé.

Sobre a cama estavam pequenas peças de roupa cuidadosamente dobradas.

Uma camisola branca.

Uma fralda.

Um par de meias.

Matilde pegou na camisola e sorriu ao imaginar o filho a usá-la.

Marcos entrou no quarto depois de um dia de trabalho. Parecia cansado.

Conversou brevemente com a esposa e, pouco depois, dirigiu-se ao banho.

Matilde continuou a organizar as roupas.

Foi então que o telefone de Marcos tocou.

O aparelho estava sobre a mesa de cabeceira.

Ela levantou os olhos.

O marido ainda estava no banho.

O telefone tocou novamente.

Matilde não lhe tocou. Não era o seu telefone, e não tinha motivo para atender.

Alguns segundos depois, ouviu o marido desligar o chuveiro.

Marcos saiu rapidamente do banho, pegou no telefone e olhou para o ecrã.

A sua expressão mudou ligeiramente.

Em seguida, saiu do quarto para atender.

Tudo aconteceu em poucos segundos.

Mas Matilde ficou imóvel.

A pequena camisola branca continuava nas suas mãos.

Olhou para a porta por onde o marido tinha saído.

Tentou não dar importância ao acontecimento.

Talvez fosse uma chamada de trabalho.

Talvez alguém precisasse de alguma coisa.

Talvez existisse uma razão perfeitamente normal para ele ter saído do quarto.

Havia várias explicações possíveis.

Mas, antes que conseguisse organizar os pensamentos, uma pergunta surgiu na sua mente:

Por que teve tanta pressa para atender?

Matilde tentou afastar a ideia.

Voltou a arrumar as roupas.

Pegou na fralda e dobrou-a cuidadosamente.

Mas já não conseguia concentrar-se.

O marido continuava fora do quarto.

Ela não sabia quem tinha ligado, o que tinham conversado ou por que razão Marcos decidira atender noutro lugar.

Não tinha provas de que alguma coisa estivesse errada.

Tinha apenas observado uma atitude que lhe parecera diferente.

Ainda assim, o coração começou a inquietar-se.

Uma pergunta trouxe outra.

Quem será que ligou a esta hora?

Por que não atendeu aqui no quarto?

Será que existe alguma coisa que não me está a contar?

Matilde sentiu vontade de ir atrás do marido e perguntar quem estava ao telefone.

Mas hesitou.

E se ele achasse que estava a desconfiar dele sem motivo?

E se a conversa fosse realmente sobre trabalho?

E se estivesse a criar um problema onde não existia nenhum?

Decidiu esperar.

Quando Marcos regressou, parecia comportar-se normalmente.

— Está tudo bem? — perguntou-lhe.

— Sim, está tudo bem — respondeu ele.


Matilde olhou para o marido.

Queria perguntar quem tinha ligado.

Queria saber por que saíra do quarto.

Queria compreender aquela pressa.

Mas acabou por ficar em silêncio.

— Está bem — respondeu apenas.

Marcos aproximou-se, deu-lhe um beijo e começou a preparar-se para dormir.

A vida parecia ter voltado à normalidade.

Mas, dentro de Matilde, alguma coisa continuava inquieta.

Deitou-se ao lado do marido, apagou a luz e tentou dormir.

Não conseguiu.

Olhou para o teto.

Escutou a respiração tranquila de Marcos e perguntou a si mesma se deveria voltar ao assunto.

Uma parte dela dizia:

Confia nele. Não tens motivos para desconfiar.

Outra parte respondia:

E se existir alguma coisa que ainda não descobriste?

Matilde virou-se para o outro lado.

Queria acreditar que estava apenas cansada e que, pela manhã, aquela inquietação teria desaparecido.

Mas a pergunta continuava ali.

Por que ele teve tanta pressa para atender?

Naquela noite, Matilde ainda não conhecia a resposta.

E talvez o mais importante não fosse apenas descobrir quem tinha ligado.

Era compreender por que razão uma simples chamada conseguira despertar tanta inquietação dentro dela.

Aquela seria a primeira de muitas perguntas.

E, ao longo da história, Matilde teria de aprender a distinguir aquilo que realmente acontecia daquilo que o medo a levava a imaginar.


Porque amar alguém não significa nunca sentir medo.


E ter fé não significa nunca ter dúvidas.


O verdadeiro desafio começa quando precisamos de decidir o que fazer com aquilo que sentimos.


Matilde ainda não sabia, mas estava prestes a iniciar uma jornada que a levaria a confrontar o passado, a rever as suas atitudes e a descobrir que Deus pode transformar a maneira como enfrentamos as nossas feridas.

A batalha tinha começado.

E, desta vez, não era uma batalha contra o marido.

Era uma batalha dentro do próprio coração.


UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


Versículo bíblico — 2 Timóteo 1:7


“Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação.”


Matilde terminou aquela noite com perguntas para as quais ainda não tinha respostas. O medo começava a influenciar os seus pensamentos, embora ela ainda não tivesse provas de que existisse algum problema no casamento.


A passagem bíblica recorda-nos a importância de não permitir que o temor governe as nossas decisões. Isso não significa ignorar aquilo que nos preocupa, mas procurar agir com amor, equilíbrio e sabedoria.


A fé não exige que finjamos estar sempre tranquilos. Podemos reconhecer as nossas inquietações e apresentá-las a Deus, pedindo orientação para responder às situações de maneira sábia.


Uma pergunta pode merecer esclarecimento sem precisar de se transformar numa acusação.


REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. O comportamento de Marcos foi suficiente para Matilde concluir que ele estava a esconder alguma coisa? Porquê?

2. Por que razão uma situação aparentemente pequena pode despertar tanta inquietação numa pessoa?

3. Matilde desejava confiar no marido, mas também sentia medo. Como poderia lidar com esse sentimento sem acusá-lo injustamente nem ignorar aquilo que a preocupava?

4. Já aconteceu sentires medo de que algo mau estivesse a acontecer, sem teres informações suficientes para chegar a uma conclusão? Como reagiste?

5. De que maneira a fé em Deus pode ajudar-nos a enfrentar as dúvidas sem permitir que o medo controle as nossas decisões?


Para guardar no coração


Nem tudo o que sentimos corresponde à realidade, mas tudo aquilo que sentimos pode ser levado a Deus em busca de sabedoria, cura e direção.


Oração

Senhor, ajuda-me a reconhecer os meus medos sem permitir que eles governem o meu coração. Ensina-me a procurar a verdade com sabedoria, a conversar com amor e a não julgar precipitadamente. Cura as feridas que ainda influenciam as minhas decisões e renova a minha mente para que eu possa viver os meus relacionamentos com maturidade, equilíbrio e fé. Em nome de Jesus, amém.


Continua

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