quarta-feira, 21 de outubro de 2026

QUANDO NÃO TEMOS TODAS AS RESPOSTAS



Quando o coração não sabe o que acreditar 

Por Liandra Langa 


 CAPÍTULO 7


QUANDO NÃO TEMOS TODAS AS RESPOSTAS


Havia perguntas para as quais Matilde não encontrava respostas.


Como pagariam as despesas da casa se Marcos perdesse o emprego? Como garantiriam tudo de que os filhos precisavam? E como enfrentaria ela aquela fase, estando grávida de oito meses e emocionalmente tão sensível?


Durante os dias seguintes, essas perguntas acompanhavam-na por toda a parte.


Enquanto preparava o pequeno-almoço, pensava nas contas. Quando brincava com o filho, preocupava-se com o futuro. À noite, quando se deitava ao lado de Marcos, tentava imaginar como seria a vida da família se o pior acontecesse.


Certa manhã, encontrou o marido sentado à mesa, com o olhar fixo numa folha de papel.


— Voltaste a receber notícias do trabalho? — perguntou.


Marcos pousou a folha e respirou fundo.


— Sim. A situação está mais complicada do que eu esperava. Ainda não me confirmaram nada definitivamente, mas estão a reduzir algumas despesas e há trabalhadores que poderão ser dispensados.


Matilde sentiu o coração apertar.


— E se fores um deles?


— Não sei, Matilde. Estou a tentar preparar-me para qualquer possibilidade.


Ela ficou em silêncio. Queria dizer alguma coisa que demonstrasse força, mas, por dentro, sentia-se assustada.


— Tenho medo, Marcos. Não sei como vamos conseguir.


Ele aproximou-se dela.


— Eu também tenho medo. Talvez não demonstre da mesma maneira, mas também penso nos nossos filhos, nas despesas e em tudo o que precisamos de garantir.


Matilde olhou para o marido com surpresa. Durante muito tempo, tinha imaginado que precisava de ser ela a manter-se emocionalmente preparada para qualquer dificuldade. Não tinha percebido que Marcos também carregava preocupações que nem sempre sabia expressar.


— Porque não me disseste isso antes? — perguntou.


— Acho que estava habituado a resolver os problemas sozinho. Cresci a acreditar que precisava de encontrar uma solução antes de falar das dificuldades. Mas estou a perceber que, ao fazer isso, acabo por te deixar de fora de uma parte importante da minha vida.


Matilde segurou-lhe a mão.


— Não preciso que tenhas todas as respostas, Marcos. Preciso que sejamos sinceros um com o outro. Não quero descobrir as coisas apenas quando já não houver alternativa.


— Tens razão. Vamos enfrentar isto juntos.


Naquele dia, os dois decidiram analisar as despesas da família. Fizeram uma lista das necessidades essenciais, identificaram alguns gastos que poderiam reduzir e conversaram sobre as possibilidades de Marcos procurar outro emprego, caso a situação se agravasse.


A realidade não mudou imediatamente. As contas continuavam a existir, o bebé estava prestes a nascer e o futuro permanecia incerto.


Mas, pelo menos, já não estavam a enfrentar aquela preocupação separadamente.


A NOITE DAS PERGUNTAS


Apesar da conversa, Matilde continuou a sentir-se inquieta.


Nessa noite, depois de Marcos adormecer, ela levantou-se cuidadosamente e foi até à sala. Sentou-se no sofá, abriu a Bíblia e começou a ler.


Queria encontrar uma palavra que afastasse todo o medo. Desejava uma promessa que lhe garantisse que Marcos não perderia o emprego, que as despesas seriam pagas e que nada de mau aconteceria à sua família.


Mas, enquanto lia, compreendeu que a fé não era uma garantia de que todas as circunstâncias aconteceriam exactamente como desejava.


A fé também era aprender a permanecer firme quando ainda não conhecia o resultado.


Abriu no livro de Provérbios e leu:


“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.” — Provérbios 3:5.


Matilde releu aquelas palavras.


Não se tratava de deixar de pensar, abandonar o planeamento ou esperar que tudo se resolvesse sem esforço. Tratava-se de reconhecer que a sua compreensão era limitada e que, mesmo sem controlar o futuro, podia procurar a orientação de Deus para dar o próximo passo.


Pela primeira vez naquela fase, deixou de pedir apenas que o problema desaparecesse.


Começou a pedir sabedoria para enfrentá-lo.


— Senhor — orou baixinho —, eu não sei o que vai acontecer. Não sei se o Marcos vai perder o emprego, não sei como serão os próximos meses e não sei se terei forças para enfrentar tudo. Mas não quero que o medo me impeça de viver o presente. Ajuda-me a fazer o que está ao meu alcance e a confiar em Ti naquilo que não consigo controlar.


Enquanto orava, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.


Não eram lágrimas de quem tinha encontrado todas as respostas. Eram lágrimas de alguém que começava a admitir que não precisava de fingir que era forte o tempo todo.


QUANDO A FRAQUEZA SE TORNA UM LUGAR DE APRENDIZAGEM


No dia seguinte, Matilde decidiu conversar com a mãe. Pegou no seu celular e fez uma chamada de Vídeo .


Helena ao ouvir o seu celular tocando percebeu que era sua filha e atendeu imediatamente. Ouviu atentamente enquanto a filha explicava a situação do trabalho de Marcos e o medo que sentia de não conseguirem sustentar a família.


— Minha filha — disse Helena, olhando nos seus olhos através do ecrã do seu telemóvel —, há momentos em que a vida nos coloca diante de situações que não conseguimos controlar. Nesses momentos, precisamos de fazer a nossa parte, procurar soluções e aprender a esperar.


— Mãe, às vezes sinto que, se eu não me preocupar com tudo, alguma coisa terrível vai acontecer.


Helena ficou pensativa antes de responder.


— Lembras-te de quando eras adolescente e me encontravas a chorar por causa dos problemas que eu enfrentava no casamento com o teu pai?


Matilde baixou os olhos.


— Lembro-me, mãe.


— Talvez tenhas aprendido, sem perceber, que precisavas de estar sempre alerta para evitar que a dor voltasse. Mas viver em constante alerta também é uma forma de sofrimento. Não consegues impedir todas as dificuldades por antecipares cada possibilidade.


As palavras da mãe tocaram num lugar profundo do coração de Matilde.


Durante muitos anos, ela tinha confundido preocupação com preparação. Acreditava que imaginar o pior a ajudaria a evitar o sofrimento.


Agora começava a compreender que pensar continuamente em tudo o que poderia correr mal não lhe dava controlo sobre o futuro. Apenas lhe roubava a tranquilidade do presente.


— Então, mãe, o que devo fazer quando o medo voltar?


Helena sorriu com ternura.


— Primeiro, reconhece que estás com medo. Depois, pergunta a ti mesma: “O que sei realmente? O que posso fazer agora? E o que preciso de entregar a Deus?” Não precisas de resolver amanhã todos os problemas de hoje.


Matilde sorriu e agradeceu a mãe pela sabedoria. 


Aquela conversa não eliminou a sua ansiedade, mas ofereceu-lhe uma maneira diferente de lidar com ela.


UM PASSO DE CADA VEZ


Naquela semana, Marcos começou a procurar novas oportunidades profissionais. Actualizou o seu currículo, contactou antigos colegas e enviou candidaturas.


Matilde, por sua vez, ajudou a organizar o orçamento familiar e preparou algumas coisas para a chegada do bebé. Também procurou reservar momentos para descansar, conversar com o marido e brincar com o filho sem estar sempre a pensar no que poderia acontecer.


Nem todos os dias eram fáceis.


Houve manhãs em que acordou confiante e outras em que o medo voltou a apertar-lhe o peito. Houve momentos em que uma simples expressão preocupada de Marcos quase a levou a imaginar uma nova tragédia.


Mas agora ela tentava parar antes de tirar conclusões.


Quando o medo surgia, respirava fundo, identificava os factos e conversava com o marido sempre que precisava de esclarecer alguma coisa.


Estava a aprender que confiar não significava nunca sentir insegurança. Significava não entregar todas as decisões à insegurança.


Certa noite, enquanto organizavam as roupas do bebé, Marcos olhou para Matilde e perguntou:


— Ainda estás com medo?


Ela sorriu ligeiramente.


— Estou. Não vou mentir. Mas já não sinto que preciso de ter uma resposta para tudo antes de conseguir descansar.


— E o que mudou?


Matilde pensou por alguns instantes.


— Estou a aprender que não controlo o futuro. Posso preparar-me, trabalhar, conversar contigo e orar. Mas não posso obrigar a vida a acontecer exactamente como quero. Preciso de confiar em Deus e fazer a minha parte.


Marcos beijou-lhe a testa.


— Vamos continuar juntos, um dia de cada vez.


Matilde encostou a cabeça ao ombro do marido. Ainda não sabia como aquela história terminaria. O emprego de Marcos continuava em risco, e novas dificuldades poderiam surgir.


Mas começava a perceber que a sua paz não precisava de depender de conhecer antecipadamente todas as respostas.


Às vezes, Deus não nos mostra o caminho inteiro. Dá-nos sabedoria e força para dar o próximo passo.


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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


Confiar em Deus mesmo quando o futuro é incerto.


Versículo bíblico — Provérbios 3:5


“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.”


Existem fases da vida em que queremos compreender tudo antes de avançar. Procuramos garantias, tentamos antecipar problemas e imaginamos diferentes cenários para evitar sermos surpreendidos pela dor.


Contudo, nem sempre teremos todas as respostas.


Matilde estava a aprender que a fé não significa saber antecipadamente o que vai acontecer. Significa procurar a orientação de Deus, agir com responsabilidade e continuar a caminhar mesmo quando existem perguntas sem resposta.


Também precisamos de compreender que a preocupação constante não é a mesma coisa que preparação. Podemos planear, procurar soluções e conversar sobre os nossos receios sem permitir que a ansiedade domine todos os nossos dias.


Deus não nos pede que finjamos ser fortes em todas as circunstâncias. Podemos reconhecer os nossos medos, pedir ajuda e encontrar força na Sua presença.


A confiança começa quando reconhecemos os limites do nosso controlo e escolhemos agir com sabedoria naquilo que está ao nosso alcance.


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REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. Matilde acreditava que precisava de antecipar todos os problemas para evitar o sofrimento. Que consequências essa maneira de pensar trouxe para a sua vida?

2. O que mudou quando ela percebeu que Marcos também sentia medo e precisava de apoio?

3. Qual é a diferença entre preparar-se para uma dificuldade e viver constantemente preocupada com aquilo que poderá acontecer?

4. Como podemos demonstrar confiança em Deus sem deixar de tomar decisões práticas e responsáveis?

5. Quando enfrentas uma situação incerta, procuras imediatamente imaginar o pior ou tentas compreender os factos e dar um passo de cada vez? O que podes aprender com Matilde?


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PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


- Não precisas de conhecer todo o caminho para dar o próximo passo.

- Reconhecer o medo não significa falta de fé.

- A preocupação constante não impede que as dificuldades aconteçam.

- O diálogo e a união ajudam a enfrentar as incertezas.

- Confiar em Deus também significa agir com responsabilidade e procurar sabedoria.


Lembra-te: não tens de resolver hoje tudo aquilo que te preocupa em relação ao amanhã. Faz o que está ao teu alcance, procura a orientação de Deus e aprende a caminhar um dia de cada vez.


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ORAÇÃO FINAL


Senhor meu Deus, há momentos em que o futuro me assusta e as perguntas parecem maiores do que as minhas forças. Ajuda-me a confiar em Ti mesmo quando não compreendo o que está a acontecer. Dá-me sabedoria para tomar decisões, coragem para enfrentar as dificuldades e humildade para pedir ajuda quando precisar. Ensina-me a não viver prisioneira das possibilidades negativas e a valorizar as bênçãos que ainda tenho no presente. Que a minha fé não seja apenas uma palavra, mas uma força que me ajude a agir com amor, responsabilidade e esperança. Em nome de Jesus, amém.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

QUANDO A DÚVIDA VOLTA

 

CAPÍTULO 6


QUANDO A DÚVIDA VOLTA


Matilde acreditava que, depois da conversa com Marcos e da descoberta de que os seus medos estavam ligados às feridas do passado, finalmente conseguiria descansar o coração.


Durante alguns dias, sentiu-se mais tranquila. Já não observava cada movimento do marido com a mesma desconfiança, e começou a esforçar-se para não transformar pequenos acontecimentos em grandes suspeitas.


Contudo, a tranquilidade nem sempre permanece quando as feridas ainda estão em processo de cura.


Numa noite, depois de colocar o filho de dois anos a dormir, Matilde encontrou Marcos sentado na sala, com o telemóvel numa mão e alguns papéis espalhados sobre a mesa. Ele parecia preocupado.


— Está tudo bem, amor? — perguntou ela, aproximando-se.


Marcos levantou os olhos, tentou sorrir e respondeu:


— Está tudo bem. Só estou a resolver algumas coisas do trabalho.


Matilde olhou para os papéis, mas não insistiu. Foi para o quarto, embora a expressão preocupada do marido continuasse na sua mente.


Mais tarde, quando Marcos entrou no quarto, ela percebeu que ele continuava pensativo.


— Marcos, aconteceu alguma coisa que ainda não me contaste?


Ele ficou em silêncio por alguns segundos.


— Matilde, há uma situação no trabalho que me está a preocupar. A empresa não está a atravessar um bom momento, e existe a possibilidade de eu perder o emprego.


As palavras atingiram Matilde como um balde de água fria.


— Perder o emprego? — perguntou, levando a mão à barriga. — E há quanto tempo sabes disso?


— Recebi algumas informações há uns dias. Ainda não é uma decisão definitiva. Queria compreender melhor a situação antes de te preocupar, principalmente porque estás grávida e já tens passado por momentos de ansiedade.


Matilde baixou os olhos.


Uma parte dela compreendia a intenção do marido. Outra parte sentia-se magoada por não ter sido informada desde o início.


— Marcos, eu sei que querias proteger-me, mas esconder de mim uma coisa tão importante não me ajuda a sentir-me segura. Sou tua esposa. Também preciso de saber o que está a acontecer na nossa vida.


— Tens razão — respondeu ele. — Talvez eu tenha tentado carregar tudo sozinho. Fiquei com medo de não conseguir sustentar a família e de te ver sofrer.


Pela primeira vez naquela conversa, Matilde percebeu que a preocupação de Marcos não estava relacionada com outra mulher, mas com o futuro da família.


Mesmo assim, a dúvida voltou a tentar encontrar espaço na sua mente.


Será que ele está a contar-me tudo? Será que existe alguma outra coisa que ainda não sei?


Matilde reconheceu aquele caminho. Era o mesmo tribunal interior onde, tantas vezes, os seus medos se transformavam em acusações antes de existirem provas.


Respirou fundo.


— Marcos, estou com medo — confessou. — Não apenas por causa do emprego, mas porque, quando descubro que não sei alguma coisa, começo a imaginar tantas possibilidades. Às vezes, tenho dificuldade em distinguir aquilo que está realmente a acontecer daquilo que tenho medo que aconteça.


Marcos aproximou-se e segurou-lhe a mão.


— Não precisamos de resolver tudo hoje. Mas quero que saibas que podes falar comigo. Também preciso de aprender a partilhar contigo as minhas preocupações, em vez de tentar resolver tudo sozinho.


Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.


Naquela noite, os dois conversaram sobre as despesas da casa, as necessidades do filho e a chegada do bebé. Falaram sobre a possibilidade de reduzir alguns gastos e de Marcos procurar outras oportunidades de trabalho, caso a situação se agravasse.


Não tinham todas as respostas. Não sabiam se Marcos perderia o emprego, quanto tempo duraria aquela fase ou como enfrentariam as dificuldades.


Mas, pela primeira vez, Matilde compreendeu que a segurança de uma família não depende de nunca enfrentar problemas. Também depende da capacidade de os enfrentar em conjunto.


Antes de dormir, pegou na Bíblia e leu uma passagem que conhecia, mas que naquela noite parecia falar directamente ao seu coração:


“Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente.” — Tiago 1:5.


Matilde fechou os olhos e orou:


— Senhor, dá-me sabedoria para não confundir o medo com a verdade. Ajuda-me a não julgar antes de compreender. Ensina-me a falar quando estiver magoada, a ouvir quando estiver assustada e a confiar em Ti enquanto procuro fazer a minha parte. Cura em mim aquilo que ainda me faz sofrer e ajuda-me a construir uma família onde exista verdade, diálogo e amor. Amém.


Naquela noite, Matilde não acordou com todas as suas dúvidas resolvidas. A possibilidade de perderem o emprego continuava a preocupá-la, e a antiga ferida ainda precisava de tempo para sarar.


Mas uma coisa tinha mudado: ela já não queria fugir de cada medo nem permitir que todos os seus pensamentos se transformassem em certezas.


Estava a aprender a parar, observar, conversar e procurar sabedoria antes de tirar conclusões.


A dúvida tinha voltado. Mas, desta vez, Matilde estava a aprender a responder-lhe de maneira diferente.


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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


A dúvida pode voltar, mas não precisa de governar a nossa vida.


Palavra bíblica — Tiago 1:5

“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente.”


A cura interior nem sempre acontece de uma só vez. Existem momentos em que pensamos ter ultrapassado um medo, mas uma nova situação desperta sentimentos antigos.


Isso não significa necessariamente que falhámos ou que não temos fé. Pode significar que ainda estamos a aprender a responder às nossas emoções de forma mais saudável.


A fé não nos obriga a ignorar os problemas, a fingir que não sentimos medo ou a aceitar tudo sem perguntas. Ela pode ajudar-nos a procurar sabedoria, a enfrentar a realidade com coragem e a não permitir que as experiências dolorosas do passado determinem todas as nossas decisões presentes.


Matilde ainda tinha dúvidas, mas começou a perceber que podia escolher o que fazer com elas.


Não é a ausência de medo que demonstra crescimento, mas a capacidade de não deixar que o medo decida tudo por nós.


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REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. Matilde sentiu-se magoada quando descobriu que Marcos estava preocupado com a possibilidade de perder o emprego. Achas que ela tinha motivos para conversar com ele sobre a falta de comunicação? Porquê?

2. Marcos tentou proteger Matilde, mas não partilhou imediatamente a sua preocupação. Que consequências podem surgir quando, num relacionamento, alguém esconde informações importantes com a intenção de proteger o outro?

3. Quando Matilde pensou que talvez existisse outra coisa que Marcos não lhe estava a contar, o que estava a acontecer dentro dela? Como poderia distinguir os factos dos seus receios?

4. O que aprendemos com a decisão de Matilde de conversar, em vez de transformar imediatamente os seus pensamentos em acusações?

5. Se estivesses no lugar de Matilde, como enfrentarias a possibilidade de o teu companheiro perder o emprego enquanto esperas a chegada de outro filho?


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PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


- Nem todo o pensamento assustador corresponde à realidade.

- As feridas do passado podem influenciar o presente, mas não precisam de determinar o nosso futuro.

- O diálogo honesto ajuda a construir confiança.

- A fé não elimina a necessidade de agir com responsabilidade.

- Pedir sabedoria a Deus também significa ter coragem para conversar, ouvir e procurar soluções.


Lembra-te: não precisas de ter todas as respostas para dar o próximo passo. Podes confiar em Deus e, ao mesmo tempo, enfrentar a realidade com sabedoria.


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ORAÇÃO FINAL

Senhor meu Deus, quando os medos antigos voltarem a bater à porta do meu coração, ajuda-me a não agir precipitadamente. Ensina-me a distinguir os factos das minhas suposições e a procurar a verdade com amor e sabedoria. Cura as feridas que ainda influenciam as minhas decisões e ajuda-me a construir relacionamentos saudáveis, baseados no respeito, no diálogo e na confiança. Que a minha fé seja mais forte do que a ansiedade e que eu encontre em Ti a sabedoria necessária para enfrentar cada desafio. Em nome de Jesus, amém.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A FERIDA POR TRÁS DA DÚVIDA

 



ENTRE A DÚVIDA E A FÉ

Quando o coração não sabe o que acreditar

Por Liandra Langa



CAPÍTULO 5 


A FERIDA POR TRÁS DA DÚVIDA


1. Uma pergunta que vinha de longe


Depois da conversa com Marcos, Matilde sentiu-se mais tranquila. Os dois tinham conseguido falar com sinceridade, e ela estava grata por não ter permitido que a situação se transformasse numa discussão.


Contudo, algo continuava a inquietá-la.


Não era exactamente a chamada. Essa já tinha uma explicação.


Era a intensidade da sua própria reacção.


Por que razão uma situação tão simples tinha despertado tanto medo? Por que imaginava cenários tão dolorosos sem ter provas de que alguma coisa estava errada?


Certa manhã, enquanto organizava algumas roupas antigas para preparar espaço para as coisas do bebé, encontrou uma pequena caixa que trouxe consigo quando se mudou para Maputo.


Dentro dela havia fotografias, cartas antigas e alguns objectos da sua infância.


Matilde sentou-se na cama e começou a observar as fotografias.


Numa delas, aparecia ainda criança, ao lado da mãe, Helena, e do pai, Roberto. Os três sorriam diante de uma casa, num dia que parecia feliz.


Passou os dedos sobre a imagem.


Naquela fotografia, tudo parecia perfeito.


Mas Matilde sabia que uma fotografia podia guardar um momento feliz sem contar toda a história de uma família.


Ficou a olhar para a cara da mãe. Lembrou-se de como Helena procurava protegê-la, de como trabalhava arduamente para lhe proporcionar uma vida confortável e de como, mesmo nos dias difíceis, tentava manter a casa em órdem.


Helena era uma mulher forte. Pelo menos, era assim que Matilde sempre a tinha visto.


Mas havia momentos da sua infância em que a mãe parecia perder, por alguns instantes, toda aquela força.


E Matilde nunca se esqueceu deles.


2. A mulher que sorria diante dos outros


Helena trabalhava numa empresa multinacional e era conhecida pela sua determinação. Cumpria as suas responsabilidades, cuidava da filha e procurava garantir que nada lhe faltasse.


Era também uma mulher que gostava de manter a dignidade, mesmo quando enfrentava dificuldades.


Quando recebia visitas, preparava a casa, servia as refeições e conversava com naturalidade. Não gostava de expor os problemas familiares diante de outras pessoas.


Roberto, o pai de Matilde, era um homem sociável. Sabia conversar, gostava de estar entre amigos e, muitas vezes, conseguia conquistar a simpatia de quem o conhecia.


Para quem olhava de fora, a família parecia ter uma vida estável.


Mas, dentro de casa, havia feridas que não apareciam nas fotografias.


Matilde ainda era adolescente quando começou a compreender que o casamento dos pais não erya tão tranquilo como imaginava.


Em algumas ocasiões, ouviu discussões que terminavam com longos períodos de silêncio. Noutras, percebeu a tristeza da mãe, que tentava disfarçar as lágrimas quando a filha entrava na sala.


No início, Matilde não compreendia o que estava a acontecer.


Pensava que todos os casais discutiam daquela maneira. Acreditava que, depois de cada desentendimento, os pais acabariam por resolver tudo e que a família voltaria a ser como antes.


Mas, com o passar do tempo, percebeu que algumas dores não desapareciam apenas porque ninguém voltava a falar delas.


Havia uma razão para a tristeza da mãe.


E essa razão estava ligada às repetidas infidelidades de Roberto.


3. O dia em que Matilde começou a compreender


Matilde tinha cerca de quinze anos quando viveu uma das lembranças que mais tarde voltaria à sua mente.


Naquele dia, regressou a casa mais cedo do que o habitual. Esperava encontrar a mãe a preparar o jantar, como tantas outras vezes.


Em vez disso, encontrou Helena sentada no quarto, com os olhos vermelhos e uma carta nas mãos.


Matilde parou à porta.


— Mãe, estás a chorar?


Helena tentou limpar rapidamente o rosto.


— Não é nada, filha. Vai descansar um pouco. Já vou preparar alguma coisa para comermos.


Mas Matilde aproximou-se.


— Aconteceu alguma coisa com o pai?


A mãe ficou em silêncio.


Aquele silêncio foi suficiente para que Matilde sentisse o coração apertar-se.


— Mãe, por favor, diz - me o que aconteceu.


Helena olhou para a filha. Parecia dividida entre o desejo de a proteger e a necessidade de não continuar a esconder a sua tristeza.


— Há coisas, filha, que são muito difíceis de aceitar quando  confiamos numa pessoa.


Matilde sentou-se ao lado dela.


— O pai fez alguma coisa?


Helena respirou fundo. Não queria colocar sobre a filha um peso que não lhe pertencia, mas também já não conseguia fingir que estava tudo bem.


Explicou-lhe, com cuidado, que Roberto voltara a envolver-se com outra mulher.


Matilde ficou imóvel.


Já tinha ouvido discussões entre os pais. Já tinha percebido que a mãe sofria. Mas ouvir aquilo de forma tão directa fez com que tudo parecesse diferente.


— Outra vez, mãe?


Helena baixou a cabeça.


— Sim, filha.


Matilde sentiu uma mistura de tristeza, raiva e confusão.


Olhou para a mãe e fez a pergunta que lhe surgiu naquele instante:


— Por que é que ele faz isso contigo? Tu fazes tanto por esta família.


Helena não conseguiu responder imediatamente.


Depois, segurou a mão da filha.


— Matilde, as escolhas do teu pai são responsabilidade dele. Não quero que penses que precisas de ser melhor, mais bonita ou mais perfeita para alguém te respeitar. O valor de uma pessoa não depende da fidelidade ou da infidelidade de outra.


Aquelas palavras eram importantes, mas Matilde ainda era jovem demais para compreender toda a sua profundidade.


Naquele momento, viu apenas a dor da mãe.


Viu uma mulher que trabalhava, cuidava da família e procurava manter o casamento, mas que continuava a ser ferida por alguém em quem confiava.


E, sem perceber, começou a construir uma ideia dentro de si:


Mesmo quando amas alguém e fazes tudo para proteger a relação, essa pessoa pode enganar-te.


Não disse aquelas palavras em voz alta. Talvez nem tivesse consciência de que estava a formar aquela conclusão.


Mas a experiência ficou guardada na sua memória.


4. A promessa silenciosa


Nos dias que se seguiram, Matilde observou a mãe com outros olhos.


Reparava quando Helena ficava calada durante o jantar. Percebia quando tentava sorrir, apesar de estar triste. Às vezes, encontrava-a sentada sozinha, a olhar pela janela.


A mãe continuava a trabalhar e a cuidar da casa. Não deixava que a dor a impedisse de cumprir as suas responsabilidades.


Mas Matilde começou a temer que aquilo que acontecia com os seus  pais pudesse, um dia, acontecer-lhe também.


Certa noite, enquanto se preparava para dormir, fez uma promessa silenciosa a si mesma:


Quando eu me casar, não quero viver aquilo que a minha mãe viveu.


Era um desejo compreensível. Queria construir uma família onde existissem amor, respeito e fidelidade.


O problema não estava nesse desejo.


O problema começou quando, sem perceber, Matilde passou a acreditar que precisava de estar sempre atenta para impedir que a dor se repetisse.


Se a mãe não conseguiu evitar as infidelidades do pai, talvez ela precisasse de ser mais cuidadosa. Talvez tivesse de observar tudo. Talvez nunca pudesse confiar completamente, porque confiar significava correr o risco de ser surpreendida.


Na adolescência, não compreendia que a vigilância constante não poderia garantir-lhe um casamento sem sofrimento.


Só sabia que tinha medo.


E, quando o medo nasce num período em que ainda estamos a aprender a compreender o mundo, pode influenciar a maneira como interpretamos muitas experiências futuras.


Matilde cresceu, estudou, construiu os seus próprios sonhos e, anos mais tarde, apaixonou-se por Marcos.


Amava-o verdadeiramente.


Mas uma parte dela continuava a recordar, mesmo sem o desejar, a tristeza que tinha visto no rosto da mãe.


5. Quando o passado visita o presente


Sentada na cama, muitos anos depois daquele episódio, Matilde fechou a caixa das fotografias.


Agora começava a compreender por que razão a chamada de Marcos a tinha abalado tanto.


Não significava que o marido fosse igual ao pai. Também não significava que as suas preocupações devessem ser automaticamente ignoradas.


Significava que a situação presente tinha tocado num medo antigo.


A chamada fora um acontecimento real. A possibilidade de traição, porém, era uma interpretação que ela ainda não conseguia confirmar.


A sua experiência familiar podia ajudar a explicar a intensidade da reacção, mas não provava que o mesmo estivesse a acontecer no seu casamento.


Matilde precisava de aprender a distinguir essas duas coisas.


Naquela tarde, decidiu conversar novamente com Marcos, desta vez sobre algo mais profundo.


Quando ele regressou a casa, ela contou-lhe algumas lembranças da adolescência. Falou-lhe das infidelidades do pai, das lágrimas da mãe e do medo que desenvolveu  de passar pela mesma experiência.


Marcos ouviu sem a interromper.


— Nunca me tinhas contado tudo isso — disse ele, depois de algum tempo.


— Não sei se alguma vez consegui compreender o quanto aquilo me afectou. Eu queria muito construir uma família diferente. Mas acho que, por vezes, tenho tanto medo de perder aquilo que construímos que começo a imaginar que posso perdê-lo a qualquer momento.


Marcos aproximou-se e segurou-lhe a mão.


— Sinto muito que tenhas passado por isso, meu amor. Mas quero que saibas que não és a tua mãe, eu não sou o teu pai e a nossa história não precisa de repetir a deles.


Matilde começou a chorar.


Não porque aquelas palavras pudessem garantir-lhe que nunca enfrentariam dificuldades, mas porque, pela primeira vez, conseguia falar sobre o seu medo sem precisar de o esconder.


— Eu sei que não devo julgar-te pelo que o meu pai fez — respondeu ela. — Mas preciso de aprender a não deixar que aquilo que vivi determine tudo o que penso sobre ti.


Marcos abraçou-a.


Não tentou resolver toda a sua dor com uma frase. Também não lhe exigiu que deixasse de sentir medo de um dia para o outro.


Ficaram abraçados durante algum tempo.


Matilde percebeu que compreender a origem de uma ferida não significa que ela desapareça imediatamente. Mas pode ser o início de uma mudança.


Naquela noite, antes de dormir, abriu a Bíblia e fez uma oração.


— Senhor, ajuda-me a não viver prisioneira daquilo que aconteceu no passado. Cura em mim o medo que ainda não sei explicar completamente. Ensina-me a reconhecer as diferenças entre a minha história e a história que estou a construir. Dá-me sabedoria para confiar com discernimento, coragem para conversar e força para enfrentar a verdade, seja ela qual for.


Depois da oração, Matilde sentiu-se mais serena.


Ainda tinha muito para aprender. Ainda precisaria de reconhecer outros pensamentos e atitudes que nasceram daquele medo.


Mas já não queria viver apenas a tentar evitar a dor.


Queria aprender a viver com fé, maturidade e liberdade interior.


Porque o passado fazia parte da sua história.


Mas não precisava de escrever sozinho o futuro do seu casamento.


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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


Palavra bíblica — Salmos,  147:3

“Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas.”


REFLEXÃO 


Matilde cresceu a observar a dor da mãe e as consequências das infidelidades do pai. Essa experiência deixou marcas na forma como passou a olhar para a confiança e para os relacionamentos.

Nem todas as pessoas que vivem experiências semelhantes desenvolvem os mesmos medos. Contudo, acontecimentos dolorosos podem influenciar a maneira como interpretamos situações futuras, sobretudo quando ainda não compreendemos plenamente o que sentimos.

Reconhecer essa influência não significa culpar os nossos pais por todas as nossas dificuldades, nem justificar atitudes que magoam outras pessoas. Significa compreender a nossa história para podermos escolher respostas mais saudáveis no presente.

Deus conhece as nossas feridas e pode acompanhar-nos no processo de cura. Esse caminho pode envolver oração, reflexão, conversas sinceras e, quando necessário, apoio de pessoas qualificadas.

Não escolheste todas as experiências que marcaram o teu passado, mas podes procurar sabedoria e apoio para que elas não determinem todas as tuas escolhas futuras.


REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. Como as experiências que Matilde viveu na adolescência podem ter influenciado a sua maneira de interpretar a chamada de Marcos?

2. Que diferença existe entre aprender com uma experiência dolorosa e viver constantemente com medo de que ela se repita?

3. Por que razão seria injusto Matilde considerar Marcos culpado pelas escolhas que o pai dela fez?

4. O que significa procurar a cura de uma ferida emocional sem fingir que o sofrimento nunca existiu?

5. Existe alguma experiência do passado que, por vezes, influencia a maneira como interpretas as situações do presente? O que poderias fazer para compreender melhor essa influência?


PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


O passado pode explicar algumas das nossas reacções, mas não precisa de determinar todas as nossas decisões.


Reconhecer uma ferida não é sinal de fraqueza. É uma oportunidade para compreender o que precisa de atenção, procurar cura e aprender a responder ao presente sem condenar antecipadamente aquilo que ainda não conhecemos.


ORAÇÃO FINAL


Pai amado, Tu conheces a minha história, as experiências que me marcaram e as dores que, por vezes, ainda influenciam as minhas decisões.

Ajuda-me a reconhecer as feridas que precisam de cuidado. Ensina-me a não transferir para outras pessoas a culpa por aquilo que alguém fez no passado.

Dá-me sabedoria para distinguir as situações, coragem para enfrentar as minhas emoções e humildade para procurar ajuda quando precisar.

Que a Tua presença me acompanhe no caminho da cura. Renova a minha mente, fortalece o meu coração e ajuda-me a construir relações baseadas na verdade, no respeito, no amor e no discernimento.

Que o meu passado seja uma parte da minha história, mas não uma prisão para o meu futuro.

Em nome de Jesus, amém.

domingo, 18 de outubro de 2026

A CONVERSA DIFÍCIL

 

ENTRE A DÚVIDA E A FÉ

Quando o coração não sabe o que acreditar

Por Liandra Langa



CAPÍTULO 4 


 A CONVERSA DIFÍCIL


1. A coragem de começar


Matilde passou boa parte daquela manhã a pensar na conversa que precisava de ter com Marcos.


Desde que decidiu falar abertamente com Marcos, começou o ensaio mental das palavras. Por vezes, imaginava que ele compreenderia a sua preocupação. Noutras ocasiões, receava que ele interpretasse as perguntas como uma acusação.


Ainda que estivesse cansada de guardar tudo dentro de si, ainda não sabia como começar.


Enquanto organizava as roupas do bebé, ouviu o telefone tocar. Era Marcos.


— Meu amor, como estás? — perguntou ele.


— Estou bem. E tu?


— Estou bem. Só queria saber como estão as minhas duas pessoas favoritas.


Matilde sorriu.


— Duas? E o nosso menino?


Marcos riu-se.


— Ele é o chefe da equipa. Tu e o bebé são as minhas duas pessoas favoritas.


A conversa terminou com algumas brincadeiras, mas Matilde continuou pensativa.


Aquele era o homem com quem construíra uma família. Não queria magoá-lo com acusações injustas, mas também não queria continuar a fingir que estava tudo bem.


Decidiu que, quando ele regressasse a casa, falaria com sinceridade.


Não procuraria palavras perfeitas. Procuraria apenas falar com respeito e ouvir com atenção.


2. Uma pergunta que demorou a sair


Ao fim do dia, Marcos chegou a casa. Depois de saudar a família, tomou banho e ajudou a preparar o jantar.


Durante a refeição, conversaram sobre o filho, as despesas da casa e os preparativos para o nascimento doutro bebé. Tudo parecia normal.


Mas Matilde sabia que não conseguiria continuar a adiar aquela conversa.


Quando terminaram de jantar, pediu-lhe que se sentasse um pouco com ela.


— Marcos, podemos conversar?


Ele olhou para ela com atenção.


— Claro, meu amor. Aconteceu alguma coisa?


Matilde respirou fundo.


— Quero falar sobre aquela chamada que recebeste enquanto tomavas banho.


Marcos pareceu tentar recordar-se.


— A chamada de que estás a falar?


— Aquela em que saíste depressa da casa de banho 🧼 para atender. Desde esse dia, tenho pensado muito nisso, você me entende 😔.


Ele ficou em silêncio, à espera que ela continuasse.


Matilde sentiu o coração acelerar.


— Não quero acusar-te de nada. Mas aquela situação deixou-me inquieta. Fiquei com perguntas e, em vez de falar contigo, comecei a imaginar várias coisas.


Marcos franziu ligeiramente a testa.


— Estás a pensar que te estou a esconder alguma coisa?


— Não sei, Marcos. É precisamente isso que me preocupa. Eu não sei. Não tenho provas de nada, mas também não consegui ficar tranquila.


Pela primeira vez, Matilde tinha conseguido colocar em palavras aquilo que vinha a carregar sozinha.

Agora precisava de ouvir.


3. A resposta de Marcos


Marcos passou a mão pelo rosto e respirou fundo.


— Matilde, aquela chamada era do meu chefe. Precisava de falar comigo sobre um assunto do trabalho. Saí do quarto porque estava com pressa de perceber o que ele queria.


Matilde permaneceu calada.


A resposta era simples. Não envolvia nenhuma mulher desconhecida, nenhum segredo amoroso ou qualquer das histórias que a sua mente tinha construído.


Marcos continuou:


— Não percebi que isso te tinha deixado tão preocupada. Se soubesse, teria explicado naquela noite.


Matilde sentiu algum alívio, mas, ao mesmo tempo, ficou envergonhada por ter passado tantos dias a imaginar o pior.


— Desculpa — disse ela. — Eu sei que não devia ter criado tantas histórias na minha cabeça.


Marcos aproximou-se um pouco.


— Não precisas de pedir desculpa por sentires alguma coisa, Matilde, meu amor. Mas gostaria de pedir que me fales quando algo te preocupa. Não quero que fiques sozinha a imaginar coisas que podemos esclarecer juntos.


Ela olhou para o marido.


— E se eu tiver medo de te perguntar?


— Então diz-me que tens medo. Podemos conversar sobre isso. Não temos de resolver tudo de uma vez.


Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.


Durante vários dias, tinha imaginado que aquela conversa poderia terminar numa discussão. Afinal, Marcos estava disposto a ouvi-la.


No entanto, uma pergunta continuava dentro dela.


Se a chamada tinha uma explicação tão simples, por que razão ela tinha ficado tão perturbada?


A resposta de Marcos esclarecia o acontecimento, mas não explicava completamente a intensidade do seu medo.


4. O que uma conversa revelou


Os dois ficaram algum tempo sentados, sem pressa de terminar a conversa.


Matilde decidiu partilhar algo que ainda não tinha conseguido explicar bem.


— Marcos, acho que tenho de te contar uma coisa. Às vezes, quando acontece algo que não compreendo, começo a pensar em tudo o que pode correr mal. Mesmo quando não tenho provas, tenho dificuldade em parar.


Marcos ouviu com atenção.


— Não sabia que estavas a passar por isso.


— Eu também não compreendia a dimensão do problema. Pensava que bastava dizer a mim mesma para não ter medo. Mas não é tão simples.


Marcos segurou-lhe a mão.


— Quero que te sintas segura comigo. Sei que não sou perfeito e que nem sempre percebo aquilo de que precisas. Mas quero que possamos falar sobre as coisas, mesmo quando são difíceis.


Matilde apertou-lhe a mão.


— Eu também quero isso. Não quero que sintas que tens de provar constantemente que não fizeste nada de errado. Mas preciso de aprender a falar sobre o que sinto sem transformar o medo numa acusação.


Marcos concordou.


Os dois perceberam que, nos últimos tempos, as conversas entre eles tinham ficado demasiado concentradas nas responsabilidades diárias. Falavam das contas, das compras, da gravidez, do filho e do trabalho. Quase nunca paravam para perguntar um ao outro como estavam emocionalmente.


Tinham aprendido a organizar uma casa, mas precisavam de continuar a aprender a cuidar da relação.


Naquela noite, decidiram reservar algum tempo para conversarem com mais frequência, sem telefones nem outras distracções. Não fizeram promessas impossíveis. Apenas concordaram em tentar escutar-se melhor e não deixar que os problemas se acumulassem no silêncio.


Matilde sentiu-se mais tranquila.


Mas sabia que precisava de compreender a origem daquela insegurança. Não queria que o mesmo medo voltasse a controlar as suas reacções sempre que surgisse uma situação inesperada.



5. Uma paz que ainda precisava de crescer



Mais tarde, já deitada, Matilde recordou a conversa.


Sentia gratidão por Marcos a ter ouvido e por ter conseguido falar sem transformar a sua inquietação numa discussão.


Mesmo assim, percebeu que a paz que sentia ainda era frágil.


Uma parte dela continuava a querer garantias de que nunca seria enganada, nunca seria abandonada e nunca teria de enfrentar uma desilusão.


Mas quem poderia garantir-lhe que a vida nunca traria sofrimento?


Matilde compreendeu que não podia controlar todas as circunstâncias nem conhecer antecipadamente tudo o que aconteceria no seu casamento. Podia, porém, aprender a comunicar melhor, observar a realidade com equilíbrio e procurar ajuda quando as suas emoções se tornassem difíceis de gerir.


Também podia entregar os seus medos a Deus, sem esperar que uma oração apagasse instantaneamente todas as suas inseguranças.


Pegou na Bíblia e leu algumas palavras sobre o amor.


Pensou na importância da paciência, da verdade e da confiança. Percebeu que amar não significava nunca sentir medo. Significava também aprender a lidar com esse medo sem ferir injustamente a pessoa amada.


Fechou os olhos e fez uma pequena oração.


— Senhor, obrigada porque consegui conversar. Ajuda-me a compreender o que ainda existe dentro de mim e ensina-me a amar sem permitir que o medo controle as minhas atitudes.


Naquela noite, Matilde adormeceu com mais tranquilidade.


A chamada tinha sido esclarecida. A conversa tinha aproximado o casal. Mas uma pergunta permanecia no fundo do seu coração:


Por que tenho tanto medo de ser enganada, mesmo quando não tenho motivos concretos para acreditar que isso está a acontecer?


A resposta não estava apenas no presente.


Estava ligada a uma história antiga, a experiências que Matilde aprendeu a observar em silêncio e a uma dor que ainda não reconhecia completamente como parte da sua própria vida.


Chegou o momento de olhar para trás.


Não para viver presa ao passado, mas para compreender como algumas experiências antigas podem continuar a influenciar as nossas escolhas, mesmo quando pensamos que já as deixámos para trás.


---


UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


Palavra bíblica — Efésios 4:15

“Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.”


REFLEXÃO 


Matilde percebeu que o silêncio estava a aumentar a sua inquietação. Quando finalmente conversou com Marcos, teve a oportunidade de esclarecer a situação e de expressar o que sentia sem o acusar injustamente.


A comunicação saudável exige coragem para falar e humildade para ouvir. Não significa que todas as conversas terão respostas agradáveis ou que todos os problemas serão resolvidos imediatamente. Significa que devemos procurar a verdade com respeito, evitando transformar suspeitas em acusações.


A fé cristã ensina-nos a valorizar a verdade e o amor. Um não deve ser usado para destruir o outro: a verdade sem amor pode ferir desnecessariamente, enquanto o amor sem sinceridade pode manter problemas escondidos.


Conversar com amor não é esconder aquilo que nos preocupa. É encontrar uma maneira respeitosa e honesta de o expressar.


REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. O que impedia Matilde de conversar abertamente com Marcos desde o início?

2. Como a resposta de Marcos ajudou a esclarecer a situação?

3. Por que razão o esclarecimento da chamada não eliminou imediatamente todos os medos de Matilde?

4. O que o casal descobriu sobre a comunicação dentro do casamento?

5. Como podes aplicar o princípio de falar a verdade em amor nas tuas relações familiares ou pessoais?


PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


Uma conversa sincera pode esclarecer uma situação; compreender as nossas emoções pode ajudar-nos a mudar a maneira como enfrentamos situações futuras.


Não tenhas medo de comunicar aquilo que te preocupa. Procura falar com respeito, ouvir sem preconceitos e reconhecer quando os teus sentimentos precisam de ser compreendidos com mais profundidade.


ORAÇÃO FINAL


Senhor, ensina-me a comunicar com amor e sinceridade. Dá-me coragem para expressar as minhas preocupações sem ferir, e humildade para ouvir sem tirar conclusões precipitadas.

Ajuda-me a construir relações onde a verdade, o respeito e a confiança tenham lugar. Mostra-me também as áreas do meu coração que ainda precisam de cura, para que eu não permita que experiências antigas determinem todas as minhas atitudes no presente.

Que a Tua Palavra me ajude a crescer em sabedoria, equilíbrio e amor.

Em nome de Jesus, amém.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O TRIBUNAL DENTRO DA MINHA CABEÇA

 


ENTRE A DÚVIDA E A FÉ

Quando o coração não sabe o que acreditar

Por Liandra Langa


CAPÍTULO 3


O TRIBUNAL DENTRO DA MINHA CABEÇA


1. Uma acusação sem provas


Nos dias que se seguiram àquela chamada, Matilde tentou retomar a sua rotina. Cuidava do filho, organizava a casa, preparava as coisas para a chegada do bebé e procurava dar atenção ao marido.

Por fora, tudo parecia normal.

Por dentro, porém, havia um tribunal em funcionamento.

Na sua mente, as perguntas transformavam-se em acusações, e as acusações começavam a parecer verdades.

Por que saiu tão depressa para atender?

Será que já fez isso outras vezes e eu nunca reparei?

Será que sou a única pessoa que não sabe o que realmente acontece nesta relação?


Matilde não tinha respostas. Ainda assim, a sua imaginação construía cenários cada vez mais assustadores.


Por vezes, olhava para Marcos e tentava descobrir alguma coisa diferente no seu comportamento. Se ele sorria enquanto lia uma mensagem, perguntava-se com quem estaria a conversar. Se ficava calado, imaginava que talvez estivesse a esconder alguma preocupação. Se chegava cansado do trabalho, perguntava-se se havia alguma razão que não lhe estava a contar.


O que antes parecia normal começava a despertar suspeitas.


Certa tarde, enquanto Marcos brincava com o filho, Matilde ficou a observá-lo. Ele ria, fazia cócegas à criança e fingia que o pequeno o tinha derrotado numa luta de almofadas.

A cena era bonita. Era a família que ela desejava proteger.


Mesmo assim, uma pergunta atravessou-lhe a mente:

E se tudo isto não for aquilo que parece?

Matilde sentiu um aperto no peito.

Ficou incomodada consigo mesma. Como podia estar a olhar para um momento tão simples e, ainda assim, sentir medo?

Não queria viver daquela maneira. Não queria transformar o marido num suspeito permanente, nem passar os dias à procura de sinais de uma coisa que ainda não sabia se existia.

Mas também não sabia como parar os pensamentos.


2. Quando o silêncio parece uma resposta


Numa manhã, Marcos recebeu uma mensagem enquanto se preparava para sair. Olhou para o telefone, respondeu rapidamente e guardou-o no bolso.


Matilde reparou no gesto.

— Quem era? — perguntou, tentando parecer natural.

— Uma mensagem do trabalho — respondeu ele.

— Ah, está bem.


Marcos continuou a preparar-se, sem perceber que aquela resposta simples tinha provocado uma nova discussão dentro da cabeça da esposa.


Será mesmo do trabalho?


Matilde repreendeu-se imediatamente por pensar assim. Afinal, Marcos já lhe tinha explicado que a chamada anterior estava relacionada com o trabalho? Não. Na verdade, ainda não tinham conversado sobre isso.


Ela continuava a adiar a conversa que prometia ter.


Queria respostas, mas tinha medo de perguntar. Queria sentir segurança, mas interpretava os pequenos acontecimentos através da insegurança. Desejava confiar, mas começava a procurar provas de que talvez não devesse confiar.


Era como tentar sair de um quarto escuro sem acender a luz.


Mais tarde, quando Marcos se aproximou para saber qual seria o almoço hoje? Matilde respondeu de forma fria.


— Qualquer coisa.

Ele olhou para ela.

— Estás chateada comigo?

— Não.

— Tens a certeza?

— Marcos, eu disse que não!


O marido ficou em silêncio, surpreendido com a reacção.


Matilde percebeu que tinha falado de maneira injusta, mas o orgulho impediu-a de pedir desculpas imediatamente.


Marcos afastou-se para continuar as suas tarefas.


Quando ficou sozinha, ela sentiu-se pior.


A dúvida que ainda não conseguia explicar começava a afectar a forma como tratava alguém que amava.

Naquele momento, Matilde começou a compreender que o problema já não estava apenas naquela chamada. Estava também na maneira como o medo estava a influenciar as suas atitudes.


3. A conversa com a mãe


Naquela tarde, Matilde decidiu ligar à mãe, Helena.

As duas sempre tiveram uma relação próxima. Helena era uma mulher determinada, trabalhadora e habituada a enfrentar dificuldades sem demonstrar facilmente as suas fragilidades. Mesmo quando a vida se tornava pesada, procurava manter-se firme diante da filha.


Depois de conversarem sobre a gravidez e os preparativos para o nascimento do bebé, Helena percebeu que Matilde estava preocupada.


— Filha, o que se passa? A tua voz está diferente.


Matilde hesitou, mas acabou por contar à mãe sobre a chamada e sobre os pensamentos que a vinham perturbando.

Helena ouviu com atenção.


— E o teu marido explicou-te quem ligou? — Questionou.

— Ainda não lhe perguntei directamente.

— Então, como chegaste à conclusão de que pode haver alguma coisa errada?


Matilde ficou em silêncio.


— Mãe, eu não disse que tenho a certeza. Só sinto que há alguma coisa que não consigo compreender.


Helena demorou alguns segundos a responder.

— Filha, os sentimentos merecem ser ouvidos, mas também precisam de ser compreendidos. Sentires medo não significa que aquilo que temes esteja realmente a acontecer.


Matilde respirou fundo.

— Mas e se eu confiar e acabar por sofrer?


A pergunta saiu-lhe com uma intensidade que surpreendeu até a própria Matilde.


Helena percebeu que havia algo mais profundo naquela preocupação, mas não insistiu.


— Não posso prometer-te que nunca vais sofrer. Ninguém pode. Mas também não podes viver todos os dias a tentar evitar uma dor que ainda não aconteceu. Conversa com o teu marido. Procura compreender o que se passa. Não construas uma sentença antes de conheceres os factos.


Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.

— Tenho medo de descobrir alguma coisa que mude tudo.


A mãe respondeu com ternura:

— Eu compreendo, filha. Mas lembra-te de que a verdade não se torna menos importante por termos medo dela. E, seja qual for a situação, é melhor enfrentá -la com clareza do que viver prisioneira de perguntas.


Depois de desligar, Matilde permaneceu sentada durante algum tempo.

As palavras da mãe faziam sentido. Ainda assim, despertavam nela um desconforto que não conseguia explicar completamente.

Por que razão tinha tanto medo de ser enganada?


A pergunta ficou suspensa na sua mente, mas uma lembrança antiga começou a aproximar-se. Uma lembrança que Matilde aprendeu a guardar num lugar silencioso do coração.

Ainda não estava preparada para a enfrentar.


4. O peso de imaginar o pior


Naquela noite, Marcos chegou a casa e encontrou Matilde mais calada do que o habitual.


Durante o jantar, falou sobre algumas dificuldades no trabalho e comentou que a empresa estava a passar por um período de incerteza. Matilde ouviu, mas estava tão ocupada com os próprios pensamentos que quase não prestou atenção ao que ele dizia.


— Estás a ouvir-me, Matilde?

Ela despertou.

— Sim, estou.

— O que achas do que te contei?


Matilde não sabia o que responder. Pediu-lhe que repetisse, e Marcos explicou novamente.


Depois do jantar, ele tratou de algumas coisas do filho, enquanto Matilde arrumava a cozinha.

Quando ficaram sozinhos, Marcos aproximou-se dela.


— Tenho sentido que estás distante. Fiz alguma coisa que te magoou?


Matilde abriu a boca para responder, mas voltou a hesitar.


Queria dizer-lhe tudo. Queria falar sobre a chamada, sobre o medo, sobre os pensamentos que a perseguiam. Mas não queria que ele pensasse que ela já o tinha condenado.

— Estou apenas cansada — respondeu.

Marcos observou-a por alguns segundos.

— Sei que a gravidez não tem sido fácil. Mas, se houver alguma coisa que te preocupe, podes falar comigo.


Ele tocou-lhe suavemente no ombro e afastou-se.

Matilde ficou imóvel.

Aquele convite para conversar deveria tê-la tranquilizado. No entanto, ela percebeu que era a própria pessoa que estava a impedir a conversa de acontecer.


Mais tarde, deitada na cama, começou a imaginar como seria a sua vida se descobrisse uma traição.


Pensou no filho. Pensou no bebé que estava prestes a nascer. Pensou na possibilidade de ter de criar duas crianças sem o apoio do marido. Imaginou a vergonha, a dor e a desilusão.


Os olhos encheram-se de lágrimas.


Mas, de repente, fez uma pergunta a si mesma:


Estou a sofrer por alguma coisa que aconteceu ou por tudo aquilo que imagino que pode acontecer?


A pergunta não resolveu o conflito, mas interrompeu por alguns instantes a sequência de pensamentos.


Matilde reconheceu que estava a sofrer antecipadamente por uma situação que não tinha sido confirmada.


Não significava que devia ignorar as suas preocupações. Significava que precisava de separar os factos dos medos e procurar esclarecimento em vez de continuar a construir cenários sozinha.


5. O primeiro passo para sair do tribunal


Matilde levantou-se, pegou num caderno e começou a escrever.

Na primeira linha, colocou:

O que realmente sei?

Escreveu que Marcos tinha recebido uma chamada enquanto tomava banho, que acabou  saíndo do quarto para atender e que ainda não tinham conversado abertamente sobre o assunto.

Na segunda linha, escreveu:

O que estou a imaginar?

Ali, a lista era maior. Imaginava uma possível traição, uma pessoa desconhecida, segredos e uma família prestes a desmoronar.


Ao comparar as duas listas, ficou surpreendida.


Os factos eram poucos. Os cenários criados pela sua mente eram muitos.


Matilde pousou a caneta e fechou os olhos.


— Meu Deus, ajuda-me a pensar com clareza — sussurrou.


Lembrou-se de uma parte em que a Palavra de Deus fala sobre a importância de renovar a mente. Talvez a transformação de que precisava começasse precisamente ali: não em controlar tudo o que acontecia à sua volta, mas em aprender a responder de maneira diferente ao que não compreendia.


Pegou novamente no caderno e escreveu uma última frase:

Não preciso de acreditar em todos os meus pensamentos. Preciso de procurar a verdade e aprender a agir com sabedoria.

Na manhã seguinte, decidiu que falaria com Marcos.


Não queria interrogá - lo, vigiar o telefone ou procurar sinais escondidos em cada gesto. Queria ter uma conversa sincera, explicar o que sentia e ouvir a resposta dele.

Ainda tinha medo. Ainda havia perguntas sem resposta. E a origem daquela insegurança continuava parcialmente escondida, mesmo para ela própria.

Mas, pela primeira vez, Matilde começava a perceber que não precisava de deixar o medo ocupar o lugar da verdade.


O tribunal dentro da sua cabeça ainda não estava fechado.


Contudo, a mulher que ali vivia começava a questionar as suas próprias acusações.

E esse era um primeiro passo.


---


UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


Palavra bíblica — Romanos 12:2

“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento...”


REFLEXÃO 

Matilde estava a descobrir que os pensamentos influenciam os sentimentos e que os sentimentos podem influenciar as nossas atitudes. Quando alimentamos continuamente uma possibilidade assustadora, podemos começar a reagir como se ela já fosse uma realidade.


Havendo necessidade de Renovar a mente. Mas o que isso significa? 

Renovar a mente não significa fingir que os problemas não existem, nem aceitar cegamente tudo o que os outros dizem. Significa aprender a examinar os nossos pensamentos, reconhecer aquilo que não sabemos e procurar uma resposta equilibrada.


A fé em Deus pode ajudar-nos nesse processo, dando-nos sabedoria para distinguir o medo da realidade, coragem para conversar e humildade para reconhecer quando precisamos de mudar a nossa maneira de pensar.


Não precisas de obedecer a todos os pensamentos que surgem na tua mente. Podes examiná-los à luz da verdade, da sabedoria e da Palavra de Deus.


REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. Que atitudes de Matilde mostram que a dúvida estava a começar a afectar o seu relacionamento com Marcos?

2. Por que razão Matilde tinha medo de perguntar directamente ao marido sobre a chamada?

3. Qual é a diferença entre reconhecer um sentimento e tratar esse sentimento como se fosse uma prova?

4. O exercício de separar os factos das suposições poderia ajudar-te numa situação semelhante? Como?

5. O que significa, na prática, renovar a mente e permitir que Deus transforme a nossa maneira de pensar?


PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


O medo pode levantar perguntas, mas não deve escrever sozinho as respostas.


Antes de tirares conclusões, examina os factos, reconhece os teus sentimentos e procura agir com sabedoria. Deus pode ajudar-te a enfrentar aquilo que não compreendes sem que percas o equilíbrio, a dignidade ou a capacidade de amar.


ORAÇÃO FINAL


Senhor meu Deus, ajuda-me a reconhecer os pensamentos que me roubam a paz. Ensina-me a distinguir aquilo que realmente sei daquilo que apenas temo.

Renova a minha mente e dá-me sabedoria para não agir por impulso, coragem para conversar com sinceridade e humildade para reconhecer as minhas falhas.

Se existem feridas antigas a influenciar a maneira como vejo as pessoas e interpreto as situações, ajuda-me a identificá-las no tempo certo e a encontrar em Ti o caminho da cura.

Que eu não seja governada pelo medo, mas conduzida pela verdade, pelo amor e pelo discernimento que vêm de Ti.

Em nome de Jesus, amém.


Continua 

QUANDO NÃO TEMOS TODAS AS RESPOSTAS

Quando o coração não sabe o que acreditar  Por Liandra Langa    CAPÍTULO 7 QUANDO NÃO TEMOS TODAS AS RESPOSTAS Havia perguntas para as...