A HISTÓRIA DA BIBA
Uma vida marcada pela rejeição, abandono e escolhas difíceis
Biba tinha 28 anos e era mãe de quatro filhos. Vivia em Mocuba, na província da Zambézia uma das províncias de Moçambique, e trabalhava como prostituta para sustentar a família e garantir as necessidades básicas dos filhos.
Para quem a encontrava diariamente, Biba era simplesmente uma mulher que saía à procura de clientes.
Alguns olhavam para ela e julgavam as suas escolhas.
Outros comentavam sobre a sua maneira de vestir, o seu comportamento e a vida que levava.
Poucos, porém, conheciam a história que existia por trás daquela mulher.
Poucos sabiam que, muito antes de Biba começar a vender o próprio corpo, ela já carregava feridas que começaram na infância.
E é exactamente aí que precisamos começar: não na mulher que Biba se tornou, mas na criança que um dia foi.
Capitulo 1
Antes de Biba nascer
Cada um tem seu passado, sua história mais sombria que não gostaria que ninguém descobrisse não é verdade?
A história de Biba começou antes mesmo do seu nascimento.
A sua mãe era uma Jovem alegre e cheia de sonhos. Conheceu um rapaz que na altura se apaixonou por ela e iniciaram uma relação. Por causa da inexperiência dela acabou engravidando. O pai da criança por diferentes motivos não assumiu a gravidez.
Para mãe da Biba, a gravidez representou uma mudança inesperada na vida.
Os estudos foram interrompidos.
Planos foram adiados.
Sonhos precisaram ser deixados para trás.
A rejeição do homem que deveria assumir a responsabilidade pela criança aumentou ainda mais o peso daquela situação.
Em determinado momento, a mãe de Biba chegou a tentar interromper a gravidez sem sucessos. Talvez você esteja perguntando neste momento porque não conseguiu? Mas não é o que importa agora. Biba nasceu forte e cheia de vida.
A mãe da Biba também sofreu rejeição por causa de ser mãe solteira. E isso certamente contribuiu para que não amasse a filha como devia.
E, desde os primeiros dias de vida, Biba carregou uma história que não tinha escolhido.
Ela não tinha culpa de ter nascido.
Não tinha escolhido as circunstâncias da sua concepção.
Não tinha escolhido a ausência do pai.
Não tinha escolhido as dificuldades que a sua chegada provocou na vida da mãe.
Mas cresceu sentindo os efeitos de tudo isso.
Uma criança não consegue compreender os problemas dos adultos. Ela apenas sente quando é amada, quando é rejeitada e quando existe algo de diferente na forma como é tratada. E foi justamente nessa fase que começaram a formar-se as primeiras feridas de Biba.
Capitulo 2
Uma infância sem o amor que precisava
A mãe de Biba não conseguiu oferecer-lhe todo o carinho de que uma criança necessita.
Não necessariamente porque não sentisse nada pela filha, mas porque carregava as próprias dores, frustrações e sonhos interrompidos.
Biba cresceu percebendo que havia algo diferente na maneira como era tratada.
Em vez de sentir que era uma filha desejada e protegida, muitas vezes sentia-se como alguém que lembrava à mãe uma fase dolorosa da sua vida.
A criança não entendia completamente o que estava acontecendo.
Mas sentia.
E as crianças podem não compreender as palavras dos adultos, mas conseguem perceber quando são rejeitadas, quando não são desejadas ou quando recebem menos amor do que precisam.
Foi assim que Biba começou a construir a sua visão sobre si mesma e sobre o mundo.
Cresceu com uma pergunta silenciosa dentro do coração:
“Será que alguém realmente me ama?”
Essa pergunta, aparentemente simples, acompanharia Biba durante muitos anos. E quando uma criança cresce procurando amor dentro de casa e não o encontra da maneira que precisa, é natural que, mais tarde, procure esse amor noutros lugares. Foi o que começou a acontecer quando Biba entrou na adolescência e, depois, na vida adulta.
Capitulo 3
A ausência do pai
Biba também cresceu sem experimentar verdadeiramente o amor e a presença paterna.
O homem que participou da sua concepção não assumiu a responsabilidade de estar presente na sua vida.
A ausência daquele pai deixou um espaço que nunca foi completamente preenchido.
Biba cresceu.
Tornou-se adolescente.
Depois, tornou-se mulher.
Mas algumas feridas da infância permaneceram.
Ela procurava, nas relações que construía, aquilo que talvez tivesse procurado durante toda a vida: aceitação, carinho, segurança e alguém que permanecesse ao seu lado.
O problema é que procurar nos relacionamentos aquilo que faltou na infância pode tornar cada abandono ainda mais doloroso. Para Biba, os relacionamentos que vieram depois não trouxeram imediatamente a segurança que procurava. Pelo contrário, trouxeram novas feridas.
Capitulo 4
Os relacionamentos
Quando começou a relacionar-se com homens, Biba acreditava que poderia finalmente encontrar alguém que a valorizasse.
Queria construir uma família.
Queria sentir-se amada.
Queria ter alguém ao seu lado.
Mas as relações que viveu foram marcadas por dificuldades.
Segundo a sua própria história, foi traída e violentada.
Os homens que passaram pela sua vida nem sempre permaneceram ao seu lado.
Alguns aproximavam-se, estabeleciam uma relação com ela e depois desapareciam.
Biba foi acumulando decepções.
Cada abandono parecia confirmar aquilo que, desde criança, talvez já tivesse começado a acreditar:
que não era suficientemente importante para alguém ficar.
Mas havia uma diferença importante entre Biba adulta e a menina que um dia tinha sido: agora ela já não estava apenas a lidar com a própria dor. Havia novas responsabilidades. Havia filhos. Havia fome, despesas e necessidades que não podiam esperar. E foi nesse momento que a história de Biba começou a mudar de direção.
Capitulo 5
Os filhos
Biba tornou-se mãe de quatro filhos.
Cada criança tinha um pai diferente.
Para alguns, essa realidade poderia ser motivo de condenação.
Para Biba, porém, cada gravidez estava ligada a uma tentativa de construir algum tipo de vínculo, família e segurança.
Ela procurava encontrar alguém que pudesse permanecer.
Mas as relações terminavam.
Os homens partiam.
E os filhos ficavam.
Biba continuava.
Com quatro crianças para alimentar, vestir e proteger, as responsabilidades aumentavam.
A vida tornou-se cada vez mais difícil.
Agora, Biba já não podia pensar apenas na própria sobrevivência. Cada decisão que tomava tinha consequências para outras quatro vidas. E quando uma mãe não encontra oportunidades suficientes para sustentar os seus filhos, as escolhas que antes pareciam impossíveis podem começar a parecer as únicas disponíveis.
Capitulo 6
Quando a sobrevivência falou mais alto
Com poucas oportunidades e muitas responsabilidades, Biba encontrou uma maneira de conseguir dinheiro.
Começou a prostituir-se.
No início, talvez aquilo pudesse parecer apenas uma solução para enfrentar uma necessidade.
Com o passar do tempo, porém, aquela atividade tornou-se parte da sua rotina.
Biba deixou de esconder o que fazia.
Já não queria viver preocupada com a opinião dos outros.
Segundo as suas próprias palavras, cansou-se de tentar corresponder às expectativas da sociedade.
Ela dizia que havia tentado construir uma vida considerada “normal”, mas que, nas relações que teve, acabou sendo ferida, traída e abandonada.
Então decidiu assumir a identidade que havia construído para si.
A partir daquele momento, Biba passou a ser vista principalmente pela profissão que exercia. Mas, por trás dessa imagem, continuava existindo a mesma mulher que carregava as feridas da infância, as marcas dos relacionamentos e a responsabilidade de criar quatro filhos. E foi assim que nasceu a rotina que passou a dominar os seus dias.
Capitulo 7
A rotina de Biba
Todos os dias, Biba saía à procura de clientes.
Perto da sua residência havia um restaurante e bar frequentado por homens solteiros e casados.
Por volta do meio-dia, ela costumava ir até lá.
Sentava-se, observava o movimento e aproximava-se dos homens que poderiam tornar-se seus clientes.
Nos dias de maior movimento, conseguia atender muitos homens.
Nos dias mais fracos, podia conseguir apenas dois ou cinco clientes.
Mas havia dias em que não conseguia nenhum.
E esses eram os dias mais difíceis.
Porque, mesmo quando não havia clientes, as necessidades dos seus filhos continuavam existindo.
Era preciso comprar comida.
Era preciso pagar despesas. Contas de luz, de água, alojamento, material escolar para as crianças, vestuário e todas as necessidades para a sobrevivência.
Era preciso preparar o matabicho, almoço e jantar para seus filhos.
A maternidade não parava simplesmente porque naquele dia ela não tinha conseguido dinheiro.
Foi num desses dias, justamente quando o movimento estava fraco e as necessidades eram muitas, que Biba encontrou alguém que mudaria o rumo daquela tarde. Ela pensou que seria apenas mais um cliente. Não sabia que aquela conversa acabaria por fazê-la voltar às partes mais dolorosas da própria história.
Capitulo 8
O encontro que a fez falar
Certo dia, Biba estava num desses momentos difíceis.
O movimento estava fraco.
Ela estava cansada, preocupada e precisava de dinheiro.
Foi então que percebeu a presença de um homem que já a conhecia de vista.
Ele havia observado Biba muitas vezes naquele local.
Sabia o que ela fazia.
Naquele dia, quando Biba se aproximou, o homem demonstrou interesse.
Ela imaginou que seria mais um cliente.
Perguntou onde poderiam ficar.
Como ele não tinha nenhum lugar específico, Biba decidiu levá-lo para a sua residência.
Para ela, aquilo fazia parte do trabalho.
Mas, quando chegaram ao local, aconteceu algo que Biba não esperava.
O homem perguntou quanto ela cobrava.
Biba respondeu.
Depois, percebendo que ainda não tinha conseguido nenhum cliente naquele dia, baixou o preço.
Precisava daquele dinheiro para preparar o almoço.
Foi então que o homem revelou que não tinha ido até ali para manter relações sexuais com ela.
Biba ficou surpresa.
Ele disse que queria ajudá-la.
Disse que acreditava que ela poderia ter uma vida diferente.
Falou sobre Deus, sobre dignidade e sobre a possibilidade de um novo começo.
Biba começou a chorar.
Talvez porque, naquele momento, alguém não estivesse olhando apenas para a prostituta.
Alguém estava olhando para Biba.
A mulher.
A mãe.
A filha.
A criança que um dia também precisou de amor.
E quando alguém finalmente perguntou, ainda que indiretamente, quem era aquela mulher por trás da profissão, Biba abriu uma porta que durante muitos anos tinha mantido fechada. Pela primeira vez naquela conversa, começou a contar não apenas o que fazia, mas por que havia chegado até ali.
Capitulo 9
A confissão de Biba
Depois de algum tempo em silêncio, Biba decidiu contar a sua história.
Disse que não queria fingir ser aquilo que não era.
Contou que estava cansada de tentar corresponder às expectativas da sociedade.
Contou que tinha tentado construir uma família.
Contou sobre as traições.
Falou sobre as violências que sofreu.
Falou sobre os homens que passaram pela sua vida e depois a abandonaram.
Falou dos filhos.
Falou da solidão.
E falou da maneira como aprendeu a sobreviver.
Para Biba, a prostituição já não era apenas uma profissão.
Tinha-se tornado parte da identidade que ela havia construído depois de tantas decepções.
Ela já não queria viver tentando provar alguma coisa às pessoas.
Queria apenas sobreviver.
Mas, à medida que Biba contava a sua história, ficava claro que a prostituição era apenas um dos capítulos da sua vida. Para compreender a mulher que estava diante daquele homem, era necessário voltar ainda mais para trás — para a menina que nasceu num contexto de rejeição e cresceu procurando um lugar onde pudesse sentir-se amada.
Capitulo 10
A mulher por trás da prostituta
Talvez seja aqui que a história de Biba realmente comece.
Porque antes de ser prostituta, Biba foi criança.
Antes de ser mãe de quatro filhos, foi filha.
Antes de aprender a procurar clientes, aprendeu a procurar amor.
Antes de aprender a sobreviver com o próprio corpo, aprendeu a sobreviver com as feridas da rejeição.
A mulher que hoje muitas pessoas enxergam na rua não apareceu de repente.
Foi sendo formada por experiências, perdas, abandonos, relacionamentos, escolhas e circunstâncias.
Isso não significa que todas as suas escolhas tenham sido certas.
Também não significa que o seu passado determine obrigatoriamente o seu futuro.
Significa apenas que existe uma história por trás daquela mulher.
E quando olhamos para toda essa trajetória, percebemos que a história de Biba não envolve apenas o passado. Existe uma pergunta que permanece aberta: o que acontecerá com a vida dela daqui para frente? E, principalmente, que futuro terão os filhos que caminham ao seu lado?
Capitulo 11
E os filhos de Biba?
Existe ainda uma parte dessa história que não pode ser ignorada.
Os filhos.
Eles não escolheram a vida da mãe.
Não escolheram os homens que foram seus pais.
Não escolheram as dificuldades da família.
Não escolheram nascer naquela realidade.
São crianças que precisam de proteção, educação, alimentação, amor e oportunidades.
A história de Biba não termina nela.
Existe uma nova geração crescendo dentro daquela realidade.
E talvez a pergunta mais importante seja:
Será que os filhos de Biba terão a oportunidade de construir uma história diferente?
Essa pergunta muda o sentido de toda a narrativa. Já não estamos apenas a olhar para aquilo que Biba fez no passado. Estamos diante de uma família que precisa pensar no futuro. E é justamente nesse ponto que surge a possibilidade de um novo capítulo.
Capítulo 12
Um novo capítulo
Quando aquele homem disse a Biba que Deus poderia ter preparado um novo tempo para a sua vida, ela ouviu.
Mas mudar uma vida não acontece apenas com uma frase.
Biba precisaria de apoio.
Precisaria de oportunidades.
Precisaria de segurança.
Precisaria de alguém disposto a caminhar com ela.
Precisaria, sobretudo, descobrir que o passado pode explicar muitas coisas, mas não precisa escrever sozinho o último capítulo da sua história.
Biba ainda tinha 28 anos.
Ainda havia tempo.
Tempo para aprender.
Tempo para reconstruir.
Tempo para cuidar dos filhos.
Tempo para descobrir novos caminhos.
Tempo para escrever uma história diferente.
Talvez seja justamente aqui que devamos deixar a história de Biba por enquanto: não com uma resposta definitiva, mas com uma porta aberta. Porque algumas histórias não terminam quando conhecemos o passado. É nesse momento que começa a verdadeira pergunta sobre o futuro.
Capitulo 13
Afinal, quem é Biba?
Biba é muito mais do que a profissão que exerce.
É uma mulher marcada por uma infância difícil.
É uma filha que cresceu sem conhecer plenamente o amor paterno.
É uma mulher que sofreu rejeições.
É alguém que viveu relacionamentos dolorosos.
É mãe de quatro filhos.
É alguém que encontrou na prostituição uma forma de sobrevivência.
É uma mulher que fez escolhas.
É também uma mulher que carrega consequências dessas escolhas.
Mas, acima de tudo, Biba é um ser humano.
E talvez a sua história nos ensine uma coisa:
antes de perguntarmos apenas “o que essa pessoa fez?”, precisamos também perguntar “o que aconteceu com essa pessoa?”
Conhecer a história não significa aprovar todas as escolhas.
Significa compreender que nenhuma vida pode ser resumida a uma única decisão.
Biba ainda tem uma história para escrever.
E talvez o capítulo mais importante da sua vida ainda não tenha começado.
Capitulo 14
Quando o passado não quer deixar ir
Biba decidiu que precisava mudar.
Depois daquele encontro, alguma coisa dentro dela havia despertado.
Ela sabia que não seria fácil. Sabia que o passado não desapareceria de um dia para o outro. Sabia também que precisava encontrar outra forma de sustentar os seus quatro filhos.
Por isso, começou a procurar trabalho.
Certo dia, ouviu falar de uma vaga numa pequena empresa.
Não era um trabalho dos seus sonhos.
Mas, para Biba, aquela oportunidade significava muito mais do que um salário.
Significava uma porta.
Uma possibilidade de começar novamente.
Na noite anterior à entrevista, Biba separou cuidadosamente a roupa que usaria.
Olhou para si mesma no espelho.
Durante alguns segundos, ficou em silêncio.
Talvez aquela fosse uma das primeiras vezes em muito tempo que se olhava não como a mulher que as pessoas conheciam nas ruas, mas como a mulher que desejava tornar-se.
— Eu vou conseguir — disse baixinho.
No dia seguinte, levantou-se cedo.
Arrumou os filhos e saiu.
Durante o caminho, imaginava como seria receber aquele emprego.
Pensava no primeiro salário.
Pensava na comida dos filhos.
Pensava em deixar para trás as noites difíceis.
Pensava em poder dizer:
“Eu consegui mudar.”
Quando chegou ao local da entrevista, sentou-se e esperou.
O coração batia forte.
Finalmente chamaram o seu nome.
Biba entrou.
Respondeu às perguntas.
Falou das suas capacidades.
Falou da sua disposição para trabalhar.
Falou que precisava daquela oportunidade e que estava disposta a aprender.
Por alguns minutos, tudo parecia correr bem.
Até que uma das pessoas que estava na sala fez uma pergunta que Biba não esperava:
— Você é a Biba que trabalha naquela zona?
Ela ficou imóvel.
O sorriso desapareceu lentamente do seu rosto.
Biba sabia exatamente do que aquela pessoa estava falando.
— Sim... sou eu.
O ambiente mudou.
Houve silêncio.
A pessoa olhou para os outros e depois voltou a olhar para Biba.
— Nós ouvimos algumas coisas sobre você.
Biba baixou os olhos.
— Eu sei que tenho um passado — respondeu.
— A questão é que precisamos de alguém em quem possamos confiar.
Aquelas palavras atingiram Biba profundamente.
Confiar.
Era exatamente isso que ela estava tentando reconstruir.
— Eu posso trabalhar — disse ela. — Eu realmente quero trabalhar. Estou tentando mudar a minha vida.
Mas a decisão parecia já estar tomada.
— Sentimos muito, mas decidimos não seguir com a sua candidatura.
Biba ficou alguns segundos sem saber o que dizer.
Levantou-se.
Agradeceu pela oportunidade.
Saiu.
E só conseguiu manter-se firme até atravessar a porta.
Depois, caminhou sem destino.
As lágrimas começaram a cair.
Não chorava apenas porque tinha perdido um emprego.
Chorava porque tinha perdido algo muito maior:
a esperança de que alguém acreditasse que ela podia ser diferente.
Sentou-se num lugar afastado e levou as mãos ao rosto.
— Até quando? — perguntou entre lágrimas.
— Até quando vão me julgar pelo que eu fui?
Naquele momento, percebeu que mudar de vida seria muito mais difícil do que imaginava.
Ela podia decidir abandonar o passado.
Mas não podia obrigar as pessoas a esquecê-lo.
Podia pedir uma oportunidade.
Mas não podia obrigar ninguém a oferecê-la.
Podia demonstrar arrependimento.
Mas não podia exigir confiança imediata.
E essa talvez fosse uma das partes mais dolorosas do recomeço:
quando você muda, algumas pessoas continuam tratando você como a pessoa que você era.
Biba voltou para casa naquele dia com as mãos vazias.
Os filhos estavam na expectativa de ouvir novidades sobre a candidatura que a mãe fez. Daí perguntaram:
— Mamã, conseguiu o trabalho?
Ela olhou para eles.
Tentou sorrir.
Mas não conseguiu.
— Ainda não.
Entrou no quarto.
Fechou a porta.
E chorou.
Naquele momento o passado falou mais alto. Por alguns minutos, pensou em voltar para aquilo que conhecia.
Pensou que talvez fosse inútil tentar. As pessoas não a entendiam.
Pensou que talvez as pessoas tivessem razão.
Mas então ouviu os filhos brincando do lado de fora.
Levantou-se.
Olhou para eles.
E percebeu que não podia desistir.
Talvez ninguém acreditasse nela ainda.
Mas ela precisava começar acreditando em si mesma.
Daí teve a coragem de abrir a Bíblia que recebeu.
Enquanto folheava a bíblia, seus olhos encontraram estas palavras:
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”— 2 Coríntios 5:17
Biba ficou olhando para o versículo.
As coisas velhas tinham passado?
Talvez, para algumas pessoas, ainda não.
Mas para ela, aquele precisava ser o começo de uma nova caminhada.
Ela compreendeu que o recomeço não seria provado por uma entrevista.
Nem por uma única decisão.
Seria provado pelos dias seguintes.
Pelas escolhas.
Pela perseverança.
Pela maneira como trataria os filhos.
Pela maneira como enfrentaria as dificuldades.
Pela maneira como continuaria caminhando quando ninguém acreditasse nela.
Biba enxugou as lágrimas.
Naquele dia, não conseguiu o emprego.
Mas também não desistiu do recomeço.
Porque descobriu uma verdade difícil:
às vezes, as pessoas precisam de tempo para acreditar na mudança que Deus já começou a fazer dentro de nós.
E Biba decidiu dar tempo.
Não para convencer todos.
Mas para permitir que a sua nova vida falasse mais alto do que o seu antigo passado.
O emprego tinha sido recusado.
Mas o recomeço, não.
Capitulo 15
Uma nova caminhada - a cura da alma
Biba decidiu que precisava de mais do que uma mudança exterior.
Precisava de ser transformada por dentro.
Depois da entrevista, compreendeu que não bastava abandonar os lugares, os hábitos e as pessoas do passado. Havia feridas na sua alma que ainda precisavam de ser tratadas. Havia pensamentos que precisavam de ser renovados. Havia lembranças que ainda tentavam dizer-lhe quem era.
Biba queria ser uma nova criatura.
Mas percebeu que não conseguiria fazê-lo sozinha.
Certo dia enquanto fazia limpeza na sua casa, chegou uma vizinha que acompanhava a transformação da Biba em silêncio. Nunca havia lhe dirigido sequer uma palavra. Mas naquele dia convidou-a para participar numa reunião na sua igreja.
— Biba se você quiser podemos ir a igreja hoje — disse ela. — Talvez encontre ali a força de que precisa. Tenho acompanhado tudo e vejo que você precisa de ajuda para conseguir avançar. Sozinha você não vai conseguir.
Biba hesitou.
Durante muito tempo, sentira-se distante de Deus.
Achava que não era digna de entrar numa igreja.
Pensava que as pessoas a julgariam da mesma forma que todas as outras.
— Não sei se aquele é o meu lugar — respondeu.
A vizinha sorriu.
— A igreja não é um lugar para pessoas perfeitas. É um lugar para pessoas que precisam de Deus.
Aquelas palavras ficaram no coração de Biba, mas não afastaram imediatamente o medo. Pelo contrário, fizeram-na pensar em tudo o que carregava. E se Deus realmente a visse como ela era? E se, ao entrar naquela igreja, todas as suas culpas se tornassem ainda mais evidentes? Parte dela desejava acreditar que ainda podia recomeçar; outra parte dizia-lhe que já tinha ido longe demais para ser recebida.
Naquela noite, Biba ficou acordada durante algum tempo, olhando para o teto. Pensou na sua vida, nas escolhas que fizera e nas consequências que ainda enfrentava. Perguntou-se se uma pessoa como ela poderia realmente aproximar-se de Deus sem ser rejeitada. Não tinha respostas. Apenas uma inquietação profunda e uma pequena esperança, quase tímida, que começava a nascer dentro dela.
No domingo seguinte, depois de arrumar os filhos, vestiu uma roupa simples e saiu.
Caminhou até à igreja com o coração apertado.
A cada passo, pensava em voltar. Sentia as mãos frias e o estômago contraído. Imaginava que todos reparariam nela, que perceberiam imediatamente que não pertencia àquele lugar. Por alguns instantes, chegou a pensar que talvez fosse melhor continuar sozinha, sem correr o risco de ser novamente julgada.
Mas continuou.
Quando entrou, os irmãos que estavam na porta sorriram e desejaram boas vindas.
Outras cumprimentaram-na normalmente como uma irmã na casa do Senhor.
Alguns conheciam a sua vida na prostituição mas ninguém lhe perguntou sobre isso.
Ninguém a fez sentir que precisava de esconder quem era.
Biba sentou-se no último banco.
Queria passar despercebida.
Sentou-se com os ombros tensos, mantendo os olhos baixos. Ainda esperava que alguém se aproximasse para lhe fazer perguntas ou para medir a sua vida pelos seus erros. Cada sorriso que recebia deixava-a desconfiada, porque não estava habituada a ser acolhida sem que lhe exigissem nada em troca. Mesmo assim, havia algo naquele ambiente que não conseguia explicar. Não se sentia completamente segura, mas também já não se sentia tão sozinha.
Durante o louvor, ficou em silêncio.
As pessoas cantavam, levantavam as mãos e oravam.
Ela limitava-se a observar.
As palavras dos cânticos pareciam falar de entrega, perdão e confiança. Biba conhecia algumas delas, mas não conseguia cantá-las. Como poderia dizer que confiava em Deus quando ainda tremia diante do futuro? Como poderia falar de paz quando dentro dela havia tantas lembranças, medos e perguntas? Preferiu permanecer calada, sentindo-se quase uma intrusa entre pessoas que pareciam saber exatamente como se aproximar de Deus.
Mas, pouco a pouco, sentiu algo diferente dentro de si.
Não era uma emoção passageira.
Era como se uma paz começasse a tocar num lugar da sua alma que há muito tempo estava ferido.
A princípio, Biba tentou resistir àquela sensação. Disse a si mesma que talvez fosse apenas o ambiente, a música ou o cansaço. Mas, enquanto ouvia as pessoas orarem, sentiu os olhos arderem. Havia anos que não permitia que ninguém se aproximasse das partes mais dolorosas do seu coração. Naquele momento, sem que ninguém lhe tocasse, sentiu como se Deus estivesse a aproximar-se justamente dessas feridas.
Quando chegou o momento da pregação da Palavra, Biba começou a prestar atenção e ouvia atentamente a mensagem.
O pastor falou sobre a graça de Deus.
Falou sobre arrependimento.
Falou sobre recomeços.
Falou sobre pessoas que carregavam culpas antigas e acreditavam que nunca poderiam ser transformadas.
Biba sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
Parecia que aquelas palavras tinham sido preparadas para ela.
Enquanto ouvia, lutava contra a vontade de chorar. Cada frase parecia alcançar uma lembrança que ela tentava manter escondida. Pensou nas vezes em que se sentira indigna, nas portas que se fecharam e nas pessoas que a reduziram ao seu passado. Perguntou-se se seria possível que Deus conhecesse tudo aquilo e, ainda assim, não a abandonasse.
— Deus não olha apenas para aquilo que você foi — disse o pastor. — Ele também vê aquilo em que você pode tornar-se quando entrega a sua vida a Ele.
Biba baixou a cabeça.
Durante anos, acreditara que o seu passado era uma sentença.
Naquele momento, começou a compreender que, nas mãos de Deus, o passado podia tornar-se um testemunho.
Ainda não conseguia acreditar completamente. A esperança parecia grande demais para alguém que se habituara a esperar o pior. Mas, pela primeira vez, permitiu-se imaginar que talvez a sua história não terminasse nos erros que cometera. Talvez Deus não estivesse a ignorar o seu passado, mas a mostrar-lhe que ele não precisava de ser o seu destino.
No final do culto, uma irmã aproximou-se dela.
— É a sua primeira vez aqui?
Biba assentiu.
— Sim.
— Seja bem-vinda. Como se chama?
— Biba.
A mulher segurou-lhe as mãos.
— Biba, saiba que Deus a ama.
Aquelas palavras pareciam simples.
Mas, para Biba, significavam muito.
Estava acostumada a ser lembrada pelos seus erros.
Naquele lugar, alguém estava a lembrar-lhe que também era amada.
Por alguns segundos, Biba não conseguiu responder. Sentiu a garganta apertar e as lágrimas descerem pelo rosto. Quis dizer que não merecia aquele amor, que havia coisas sobre si que aquela mulher não conhecia. Mas percebeu que, talvez, fosse precisamente isso que tornava aquelas palavras tão importantes. Não eram baseadas no que ela conseguira fazer ou provar. Eram oferecidas antes de qualquer explicação.
Ao sair da igreja, Biba caminhou devagar. O mundo à sua volta parecia o mesmo, mas algo dentro dela tinha mudado. Os problemas continuavam à espera em casa, as dificuldades não tinham desaparecido e o passado não fora apagado. Ainda assim, levava consigo uma pergunta que não a abandonava: e se Deus realmente pudesse fazer uma obra na sua vida?
A partir daquele dia, Biba começou a frequentar a igreja.
No início, sentava-se sempre no mesmo lugar.
Chegava calada e saía calada.
Mas continuava a voltar.
A cada reunião, aprendia algo novo.
Aprendeu que confiar em Deus não significava deixar de enfrentar problemas.
Significava não os enfrentar sozinha.
Aprendeu que a fé não era a ausência de medo.
Era continuar a caminhar mesmo quando o medo aparecia.
Aprendeu que Deus não exigia que tivesse todas as respostas.
Apenas pedia que desse o passo seguinte.
Mesmo assim, havia dias em que Biba entrava na igreja cheia de dúvidas. Às vezes, perguntava-se se estava realmente a mudar ou se apenas procurava um alívio momentâneo. Outras vezes, sentia vergonha por ainda ter pensamentos antigos e por continuar a lutar com sentimentos que julgava já dever ter vencido. Mas começava a compreender que Deus não se afastava dela por causa das suas lutas. Talvez a transformação não fosse provar que já não tinha fraquezas, mas aprender a levá-las para Deus.
Certa noite, depois de deitar os filhos, Biba sentou-se à mesa.
Sentiu uma forte necessidade de visitar as sagradas escrituras.
Abriu a Bíblia novamente, não sabia por onde começar.
As palavras pareciam difíceis de compreender.
Alguns textos pareciam distantes da sua realidade.
Mesmo assim, decidiu continuar.
Leu algumas linhas.
Depois, leu um capítulo.
No dia seguinte, voltou a ler.
Aos poucos, a Bíblia começou a tornar-se parte da sua rotina.
Biba acordava cedo, antes dos filhos, e reservava alguns minutos para ler a Palavra.
Depois, fechava os olhos e orava.
No começo, as suas orações eram curtas.
— Deus, ajuda-me.
— Dá-me força.
— Protege os meus filhos.
— Ensina-me a confiar em Ti.
Por vezes, depois de dizer aquelas palavras, ficava em silêncio, sem saber o que acrescentar. Sentia-se estranha a falar com alguém que não podia ver. Também tinha medo de estar a orar de forma errada, de não usar as palavras certas ou de não ter fé suficiente. Mas, pouco a pouco, percebeu que Deus não parecia exigir discursos perfeitos. Bastava que fosse sincera.
Com o tempo, começou a falar com Deus sobre tudo.
Falava sobre os seus medos.
Falava sobre a rejeição.
Falava sobre a culpa.
Falava sobre a vontade de desistir.
Falava sobre o desejo de ser uma boa mãe.
Falava sobre a necessidade de encontrar trabalho.
E, pela primeira vez, sentia que podia abrir completamente o coração sem ser condenada.
Nas suas orações, Biba começou a dizer coisas que nunca tivera coragem de dizer a ninguém. Confessava que ainda sentia raiva, que tinha medo de falhar novamente e que, em alguns dias, não conseguia ver esperança. Às vezes, chorava antes de terminar. Outras vezes, ficava apenas sentada, com as mãos juntas, sem encontrar palavras. Mesmo nesses momentos, sentia que o silêncio também podia ser uma oração.
A oração tornou-se o lugar onde Biba conseguia respirar.
Era como se, a cada palavra, retirasse um pouco do peso que carregava.
Começou a perceber que a sua alma precisava de ser lavada.
Não apenas das lembranças dolorosas, mas também da vergonha, da amargura, da raiva e das mentiras em que tinha acreditado acerca de si mesma.
Durante muito tempo, pensara:
“Eu não tenho valor.”
“Eu nunca vou mudar.”
“Ninguém vai acreditar em mim.”
“Deus não pode querer alguém como eu.”
Mas a Palavra começou a substituir aquelas vozes.
No início, Biba não conseguia aceitar facilmente aquilo que lia. Quando encontrava promessas de perdão, perguntava-se se poderiam realmente aplicar-se a ela. Quando lia sobre amor, lembrava-se de todas as vezes em que fora rejeitada. Quando lia sobre uma nova vida, sentia medo de criar expectativas e voltar a dececionar-se. Ainda assim, continuava a ler. Cada verdade precisava de tempo para criar raízes num coração acostumado a acreditar no contrário.
Biba aprendeu que não era definida pelos seus erros.
Aprendeu que o arrependimento podia abrir caminho para uma nova vida.
Aprendeu que Deus podia restaurar aquilo que parecia perdido.
Aprendeu que a transformação não acontecia de uma só vez.
Acontecia todos os dias.
Em cada escolha.
Em cada oração.
Em cada pensamento entregue a Deus.
Em cada tentação vencida.
Em cada atitude diferente daquelas que costumava ter.
Certa manhã, enquanto lia, encontrou estas palavras:
> Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:2)
Biba ficou em silêncio.
Compreendeu que Deus não queria apenas mudar aquilo que as pessoas viam.
Queria renovar a sua mente.
Queria limpar o seu coração.
Queria ensinar-lhe uma nova maneira de viver.
Leu o versículo várias vezes. Pensou em quantas ideias sobre si mesma tinham sido repetidas durante anos, até parecerem verdades impossíveis de questionar. Talvez a renovação da mente começasse justamente ali: aprendendo a desconfiar das vozes que sempre a condenaram e dando espaço à voz de Deus. Ainda não sabia como fazer isso todos os dias, mas desejou aprender.
A velha Biba ainda tentava aparecer.
Às vezes, quando era contrariada, sentia vontade de responder com agressividade.
Quando enfrentava dificuldades, pensava em voltar aos antigos caminhos.
Quando alguém a julgava, sentia a raiva crescer dentro dela.
Mas agora havia algo diferente.
Antes de agir, lembrava-se daquilo que estava a aprender.
Respirava.
Orava.
Buscando discernimento.
Pedia sabedoria.
Nem sempre conseguia vencer.
Mas já não desistia quando falhava.
Voltava para Deus.
Pedia perdão.
Levantava-se.
E continuava.
Depois de cada falha, Biba sentia vergonha e perguntava-se se tinha estragado tudo. Por vezes, pensava que Deus se cansaria dela, tal como tantas pessoas se tinham cansado. Mas, ao voltar à oração, descobria que ainda podia aproximar-se. Deus a escutava e as respostas fluiam em sua mente. Essa descoberta não eliminava o arrependimento, mas impedia que a culpa a afastasse novamente. Começava a entender que pedir perdão não era voltar ao ponto de partida; era continuar o caminho com mais humildade.
Na igreja, o pastor viu o esforço que a Biba fazia para se tornar efectivamente em uma nova criatura e abriu portas para ela fazer algum trabalho social. Biba começou a servir.
Ajudava a organizar as cadeiras.
Participava nas reuniões de oração.
Levava os filhos aos cultos.
Conversava com outras mulheres.
Aos poucos, deixou de se sentar sempre no último banco.
Começou a sentir que pertencia àquele lugar.
Não porque fosse perfeita.
Mas porque estava a ser transformada.
Nas reuniões de oração, Biba ainda se sentia insegura. Quando ouvia outras pessoas orarem com confiança, comparava-se e pensava que as suas próprias palavras eram pobres. Algumas vezes, limitava-se a ouvir, com os olhos fechados, tentando acompanhar as orações. Outras vezes, sentia vontade de chorar sem saber exatamente porquê. Havia dores que ainda não conseguia explicar, mas que pareciam encontrar espaço quando estava na presença de Deus.
Um dia, depois de uma reunião, uma das irmãs disse-lhe:
— Biba, vejo algo diferente em si.
Ela sorriu, sem saber o que responder.
— Ainda tenho muito para mudar.
— Todos nós temos — respondeu a irmã. — Mas Deus já começou uma obra na sua vida.
Biba guardou aquelas palavras no coração.
Naquela noite, ao chegar a casa, olhou para os filhos.
Eles estavam a brincar no chão.
A casa era simples.
As dificuldades ainda existiam.
Ainda não tinha conseguido o emprego que procurava. Mas já fazia pequenos negócios para conseguir suprir as necessidades básicas.
Continuava a enfrentar olhares desconfiados.
Ainda carregava marcas do passado.
Mas já não era a mesma mulher.
Agora, quando o medo batia à porta, orava.
Quando a tristeza chegava, lia a Palavra.
Quando a culpa tentava dominá-la, lembrava-se da graça.
Quando pensava em desistir, lembrava-se de que Deus ainda estava a trabalhar nela.
Biba compreendeu que a desintoxicação da alma não acontecia de um dia para o outro.
Era um processo.
Assim como o corpo precisava de tempo para eliminar aquilo que lhe fazia mal, a alma também precisava de tempo para se libertar das velhas dores, dos velhos pensamentos e dos velhos caminhos.
A cada dia, Deus lavava um pouco mais do seu coração.
Lavava a culpa.
Lavava a vergonha.
Lavava a amargura.
Lavava o medo.
E, no lugar dessas coisas, começava a colocar paz, esperança, fé e amor.
Biba sabia que a velha vida ainda tentaria chamá-la.
Mas agora conhecia uma verdade:
a velha criatura não precisava de controlar a nova vida que Deus estava a formar nela.
Não seria transformada apenas pela força da sua vontade.
Seria transformada pela presença de Deus, pela oração e pela Palavra.
Naquela noite, Biba ajoelhou-se ao lado da cama.
Os filhos já dormiam.
Começou a orar profundamente:
— Senhor, lava a minha alma. Tira de mim tudo aquilo que ainda pertence à velha vida. Ensina-me a confiar em Ti. Ajuda-me a viver como uma nova criatura. Não permitas que o meu passado comprometa aquilo que estás a fazer em mim.
Depois de dizer aquelas palavras, Biba permaneceu ajoelhada. Sentia vontade de pedir muitas outras coisas, mas também sentia medo de encarar tudo o que ainda precisava de ser entregue. Pensou na culpa que continuava a carregar, nas pessoas que talvez nunca acreditassem na sua mudança e nas partes de si mesma que ainda não conseguia perdoar. Por alguns instantes, perguntou-se se Deus teria paciência para esperar por ela.
Então, em vez de tentar esconder as dúvidas, falou com sinceridade:
— Senhor, eu quero confiar, mas ainda tenho medo. Quero mudar, mas às vezes não sei como. Ajuda-me a não voltar atrás quando me sentir fraca.
Depois, ficou alguns minutos em silêncio.
Nesse silêncio, não encontrou respostas para todas as perguntas. Os problemas continuavam presentes, e o futuro permanecia incerto. Mas sentiu que já não precisava de resolver tudo naquela noite. Pela primeira vez em muito tempo, conseguiu descansar sem exigir de si mesma uma força que ainda não possuía.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu paz.
Não porque todos os problemas tivessem desaparecido.
Mas porque já não precisava de os carregar sozinha.
Biba levantou-se.
Abriu a Bíblia mais uma vez.
E leu:
Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. (Salmos 51:10)
Sorriu entre lágrimas.
A sua história ainda não estava terminada.
O passado ainda existia.
Mas já não era o seu senhor.
Biba estava a aprender a confiar em Deus.
Estava a aprender a orar.
Estava a aprender a viver pela Palavra.
E, dia após dia, a sua alma era lavada.
A velha criatura ainda tentava falar.
Mas a nova vida começava a falar mais alto.
Biba não estava apenas a mudar de caminho.
Estava a ser transformada por Deus.
Capitulo 16
O Perdão
A caminhada de Biba com Deus começava a mudar muitas coisas dentro dela.
Ela já não era a mesma mulher que havia entrado naquela igreja pela primeira vez.
Estava aprendendo a orar.
Estava aprendendo a confiar.
Estava aprendendo a ler a Palavra.
Estava aprendendo que Deus podia dar-lhe uma nova vida.
Mas havia uma área do seu coração que Biba ainda não conseguia entregar completamente.
O perdão.
Ela conseguia falar sobre Deus.
Conseguia orar.
Conseguia pedir perdão pelos próprios erros.
Mas quando se lembrava das pessoas que a tinham ferido, algo dentro dela endurecia.
Havia nomes que ainda doíam.
Nomes que traziam lembranças.
Nomes que despertavam lágrimas.
Nomes que ela preferia nunca mais ouvir.
Entre eles estava o nome da sua própria mãe.
E também estavam os pais dos seus filhos.
Pessoas que, de diferentes maneiras, tinham deixado marcas profundas na sua história.
Certo domingo, durante o culto, o pastor anunciou um propósito especial.
O tema seria:
PERDÃO.
A proposta era simples, mas desafiadora.
Cada pessoa deveria escrever os nomes daqueles que mais a tinham magoado.
Depois, durante um período de oração, deveria apresentar essas pessoas a Deus e liberar perdão.
Não se tratava de dizer que o que aconteceu estava certo.
Não significava esquecer.
Também não significava necessariamente voltar a conviver com pessoas que poderiam continuar a fazer mal.
Era entregar a Deus aquilo que ainda prendia o coração.
E, para aqueles que se sentissem preparados, havia um desafio ainda maior:
procurar a pessoa pessoalmente ou fazer uma ligação para dizer:
“Eu escolho perdoar-te.”
Biba ouviu tudo em silêncio.
Quando recebeu o papel, segurou a caneta.
Olhou para a folha.
Mas não escreveu nada.
Seu coração começou a acelerar.
Como poderia escrever aqueles nomes?
Como poderia perdoar pessoas que tinham causado algumas das suas maiores dores?
Pensou na mãe.
Lembrou-se da infância.
Lembrou-se da sensação de rejeição.
Lembrou-se de todas as vezes em que desejou receber carinho e sentiu que não o tinha recebido da maneira que precisava.
Depois pensou nos pais dos seus filhos.
Vieram à memória as promessas quebradas, as decepções, os abandonos e as responsabilidades que acabaram ficando sobre os seus ombros.
Biba apertou a caneta.
Não conseguiu escrever.
Dobrou o papel e colocou-o dentro da Bíblia.
Naquele dia, decidiu não participar do propósito.
Mas o pastor percebeu que alguma coisa estava acontecendo.
No final do culto, aproximou-se dela.
— Biba, posso conversar contigo?
Ela assentiu.
Sentaram-se num lugar mais reservado.
— Eu percebi que este propósito mexeu contigo.
Biba ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu:
— Pastor, eu não consigo.
— O quê?
— Perdoar.
As lágrimas começaram a aparecer.
— O senhor não sabe o que fizeram comigo.
O pastor não a interrompeu.
Biba continuou:
— Eu passei anos tentando sobreviver. Passei anos carregando coisas que não escolhi. E agora querem que eu simplesmente perdoe?
Ela enxugou o rosto.
— Eu não consigo esquecer.
O pastor respondeu com calma:
— Biba, ninguém está a pedir que finjas que não aconteceu.
Ela levantou os olhos.
— Então o que significa perdoar?
— Significa deixar de permitir que aquilo que fizeram contigo continue a controlar o teu coração.
Biba permaneceu em silêncio.
O pastor continuou:
— Perdoar não é dizer que fizeram o certo. Não é negar a dor. Não é necessariamente voltar a confiar na pessoa. E também não significa permitir que alguém volte a ferir-te.
Fez uma pausa.
— Perdoar é entregar a Deus aquilo que já não queres continuar carregando.
Biba respirou profundamente.
Ainda não estava convencida.
Então o pastor falou de Jesus.
Falou sobre a cruz.
Falou daquele momento em que Jesus foi crucificado, mesmo sem ter cometido pecado.
E lembrou-lhe das palavras:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
— Lucas 23:34
Biba ficou em silêncio.
Pensou na cruz.
Pensou em Jesus.
Pensou no quanto havia sido ferida.
E, pela primeira vez, percebeu que o perdão não seria apenas um desafio para aquelas pessoas.
Seria um desafio para ela.
— Pense nisso — disse o pastor. — Não precisa responder agora. Ore. Converse com Deus. Deixe que Ele trate o seu coração.
Biba assentiu.
— Eu vou pensar.
Naquela noite, Biba entrou no quarto.
Fechou a porta.
Os filhos já dormiam.
A casa estava silenciosa.
Ela sentou-se na cama.
Durante alguns minutos, ficou apenas olhando para o chão.
Depois começou a chorar.
Não era um choro comum.
Era como se todas as dores que ela havia guardado durante anos tivessem encontrado uma saída.
Biba começou a falar com Deus.
— Senhor...
A voz falhou.
Ela respirou fundo.
— Eu não sei se consigo.
Começou a lembrar-se da infância.
Falou da mãe.
Falou da rejeição.
Falou dos momentos em que se sentiu sozinha.
Falou do pai que não esteve presente.
Falou dos relacionamentos.
Falou dos homens que entraram na sua vida e depois foram embora.
Falou dos pais dos seus filhos.
Falou da raiva.
Falou da tristeza.
Falou de tudo aquilo que nunca conseguira dizer sem chorar.
— Senhor, por que eu passei por tudo isso?
Biba chorava.
— Eu só queria ser amada.
Fez uma pausa.
Depois disse:
— Eu só queria ter tido uma família.
As lágrimas continuavam a cair.
Mas, no meio daquele desabafo, Biba lembrou-se das palavras do pastor.
Perdoar não significa dizer que não doeu.
Então respirou fundo.
— Senhor...
Dessa vez, sua voz saiu mais firme.
— Eu não consigo fazer isso sozinha.
Fechou os olhos.
— Mas eu quero obedecer-Te.
Silêncio.
Então pronunciou as palavras que durante tanto tempo pareciam impossíveis:
— Senhor, ajuda-me a liberar perdão para a minha mãe.
Biba começou a chorar novamente.
— Eu perdoo a minha mãe.
Parou.
Respirou.
— Eu perdoo a minha mãe pela dor que senti.
Mais lágrimas.
— Eu perdoo pela rejeição.
A voz tremia.
— Eu perdoo pelas coisas que não recebi quando era criança.
Biba colocou a mão sobre o peito.
— Eu não quero mais carregar isso.
Por alguns instantes, ficou em silêncio.
Não aconteceu nada extraordinário ao redor dela.
Nenhuma luz apareceu.
Nenhuma voz audível falou.
Mas dentro de Biba começou a acontecer algo.
Uma paz.
Pequena no início.
Depois mais profunda.
Como se um peso que ela carregara durante anos começasse lentamente a ser retirado.
Biba continuou:
— Senhor, eu entrego a minha mãe nas Tuas mãos.
Depois pensou nos pais dos seus filhos.
Os nomes vieram um após outro.
As lembranças voltaram.
A dor também.
Mas, desta vez, Biba não fugiu delas.
Começou a liberar perdão.
— Eu perdoo.
— Eu perdoo.
— Eu perdoo.
Para cada um, repetia aquelas palavras.
Não porque tivesse esquecido.
Não porque tudo estivesse resolvido.
Mas porque não queria mais permitir que aquelas pessoas continuassem a ocupar um espaço de amargura dentro dela.
A Bíblia diz:
“Suportai-vos uns aos outros, e perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.”
— Colossenses 3:13
Naquela noite, Biba compreendeu que o perdão era um processo.
Talvez algumas feridas ainda doessem.
Talvez algumas lembranças ainda provocassem lágrimas.
Mas algo havia mudado.
Ela já não queria vingança.
Já não queria passar a vida inteira revivendo aquilo que lhe fizeram.
Queria liberdade.
Queria paz.
Queria continuar a sua caminhada com Deus.
Quando terminou de orar, Biba ficou alguns minutos em silêncio.
Depois sorriu entre lágrimas.
— Obrigada, Senhor.
Na manhã seguinte, tomou uma decisão.
Pegou o telefone.
Olhou para o contacto da mãe.
Ficou alguns segundos parada.
O coração batia forte.
Pensou em desligar.
Mas respirou fundo e fez a chamada.
A mãe atendeu.
— Alô?
Biba não conseguiu falar imediatamente.
Sua garganta apertou.
— Mãe...
Do outro lado, silêncio.
— Sou eu.
Mais alguns segundos.
Então Biba disse:
— Eu queria dizer uma coisa.
Respirou fundo.
— Eu amo-te.
Foi a primeira vez que disse aquelas palavras à mãe daquela maneira.
Sem cobrança.
Sem acusação.
Sem exigir explicações.
Apenas:
“Eu amo-te.”
As lágrimas começaram a cair.
Talvez aquela ligação não resolvesse todos os problemas entre as duas.
Talvez ainda houvesse conversas que precisariam acontecer.
Talvez algumas feridas precisassem de tempo.
Mas, naquele momento, Biba tinha dado um passo.
Ela havia escolhido não continuar prisioneira daquilo que a feriu.
Quanto aos pais dos seus filhos, Biba não fez ligações.
Ainda não estava preparada para isso.
Mas continuou a orar por eles.
Sempre que os seus nomes surgiam em seus pensamentos, dizia:
— Senhor, eu já os entreguei a Ti.
E continuava a caminhar.
Biba finalmente compreendeu uma coisa:
perdoar não é apagar o passado.
É impedir que o passado continue a governar o futuro.
Ela não precisava voltar para pessoas que a feriram.
Não precisava permitir novos abusos.
Não precisava fingir que nada aconteceu.
Mas podia escolher não viver alimentando a mágoa.
Naquela noite, antes de dormir, Biba ajoelhou-se novamente.
E agradeceu a Deus.
Ainda havia muito para aprender.
Ainda havia muito para reconstruir.
Mas uma porta havia sido aberta.
A porta do perdão.
E, ao atravessá-la, Biba percebeu que talvez existissem outras portas que Deus queria abrir.
Porque algumas vezes o maior obstáculo para um novo começo não está à nossa frente.
Está dentro de nós.
E Biba acabava de dar um passo para se libertar dele.
Capitulo 17
Espírito Santo, Transforma-me
A caminhada de Biba com Deus continuava a produzir mudanças profundas no seu interior.
No capítulo anterior, começara a compreender o caminho do perdão. Ainda havia feridas, lembranças e situações que precisavam de tempo, mas algo já não era como antes.
Biba não queria apenas conhecer Deus.
Queria permitir que Ele transformasse completamente a sua vida.
E, pouco a pouco, começou a perceber que essa transformação não acontecia apenas através dos seus próprios esforços.
Havia uma presença dentro dela.
Uma presença que a ensinava.
Que a corrigia.
Que a consolava.
Que a fortalecia.
Era o Espírito Santo.
Biba ainda estava a aprender a compreender quem Ele era, mas começava a perceber que não caminhava sozinha.
O Espírito Santo estava presente nas suas decisões, nas suas conversas, nas suas reações e até nos momentos em que ninguém via o que acontecia dentro do seu coração.
Foi nesse período que a relação com a mãe começou a mudar.
No início, a mãe achou estranho quando Biba começou a dizer que a amava.
Depois de tudo o que havia acontecido entre as duas, aquelas palavras pareciam inesperadas.
Talvez a mãe se tivesse habituado à distância.
Talvez tivesse aprendido a conviver com o silêncio.
Talvez não soubesse como reagir perante aquela nova postura da filha.
Certa vez, depois de uma conversa, a mãe perguntou:
— Biba, porque estás a dizer isso agora?
Biba ficou em silêncio durante alguns segundos.
Não queria responder com palavras ensaiadas.
Queria falar com sinceridade.
— Porque percebi que não quero continuar a viver presa ao que aconteceu entre nós.
A mãe olhou para ela.
— Mas depois de tudo?
Biba respirou fundo.
— Depois de tudo. Ainda há coisas que me doem, mãe. Ainda existem lembranças difíceis. Mas Deus está a ensinar-me a perdoar e a amar sem fingir que nada aconteceu.
A mãe não respondeu imediatamente.
Biba percebeu que talvez ela também não soubesse como lidar com aquela mudança.
Durante muito tempo, a relação entre as duas fora marcada por mágoas, incompreensões e palavras que ficaram por dizer.
Agora, Biba aproximava-se de uma maneira diferente.
Não se aproximava para cobrar.
Não se aproximava para acusar.
Não se aproximava para exigir que a mãe reconhecesse tudo o que havia feito.
Aproximava-se porque o Espírito Santo estava a trabalhar no seu coração.
No início, a mãe desconfiou.
Pensou que aquela mudança pudesse durar pouco.
Talvez Biba estivesse apenas emocionada com a igreja.
Talvez fosse uma fase.
Talvez, depois de algum tempo, voltasse a ser como antes.
Mas os dias passaram.
E Biba continuou diferente.
Quando surgia uma discussão, já não respondia da mesma maneira.
Quando se sentia magoada, procurava orar antes de falar.
Quando percebia que estava prestes a agir por impulso, parava e perguntava a si mesma:
— Espírito Santo, o que queres ensinar-me nesta situação?
A insegurança que durante tantos anos dominara Biba começou a desaparecer.
Já não precisava de provar o seu valor o tempo todo.
Já não precisava de agradar a todos.
Já não precisava de responder a cada crítica.
Já não precisava de viver com medo de ser rejeitada.
Biba começou a compreender que a sua identidade não dependia da opinião das pessoas.
Era filha de Deus.
E essa certeza começou a trazer segurança ao seu coração.
A Bíblia ensina que o domínio próprio é um dos frutos do Espírito Santo.
Biba começou a experimentá -lo na prática.
Antes, qualquer palavra podia fazê-la perder o controlo.
Uma crítica podia tirar-lhe a paz.
Uma lembrança podia fazê-la reagir com raiva.
Uma desilusão podia levá-la a tomar decisões precipitadas.
Mas agora havia algo diferente dentro dela.
Continuava a sentir emoções.
Ainda se entristecia.
Ainda se irritava.
Ainda enfrentava dias difíceis.
A diferença era que já não permitia que cada emoção decidisse por ela.
Biba estava a aprender a sentir sem ser governada pelo que sentia.
Estava a aprender a esperar antes de responder.
A pensar antes de agir.
A orar antes de decidir.
A ouvir antes de julgar.
A Bíblia diz:
> **“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.”**
> — Gálatas 5:22-23
Biba leu esse texto várias vezes.
Percebeu que o domínio próprio não significava tornar-se uma pessoa fria ou sem sentimentos.
Significava permitir que o Espírito Santo conduzisse as suas reações.
Era aprender a não ser escrava da raiva.
A não ser controlada pelo medo.
A não ser dominada pela ansiedade.
A não agir sempre de acordo com os impulsos.
Biba começou a entender que o Espírito Santo era seu amigo, seu professor e seu consolador.
Como amigo, estava sempre presente.
Como professor, ensinava-lhe o caminho certo.
Como consolador, permanecia com ela nos momentos de dor.
Quando Biba se sentia sozinha, lembrava-se de que não estava abandonada.
Quando não sabia o que fazer, pedia direção.
Quando se sentia fraca, buscava força em Deus.
Começou a entregar a sua vida ao Espírito Santo.
Não apenas as grandes decisões, mas também as pequenas.
Entregava-Lhe as palavras que iria dizer.
As pessoas com quem iria conversar.
Os lugares que frequentaria.
As escolhas que faria.
Os pensamentos que alimentaria.
Certa manhã, antes de sair de casa, Biba ajoelhou-se junto à cama.
— Espírito Santo, entrego-Te este dia. Influencia as minhas decisões. Ensina-me a falar. Ensina-me a ouvir. Não permitas que eu seja guiada pelo medo ou pela raiva. Quero que a minha vida reflita a Tua presença.
Depois daquela oração, Biba não se tornou perfeita.
Ainda enfrentou tentações.
Ainda teve vontade de responder mal.
Ainda houve momentos em que se sentiu insegura.
Mas agora reconhecia a voz de Deus, chamando-a a uma atitude diferente.
Certa tarde, a mãe ligou-lhe, preocupada.
— Biba, aconteceu uma coisa aqui em casa.
Antes, talvez Biba tivesse ficado nervosa ou reagido com desespero.
Mas, dessa vez, ouviu com atenção.
— Conta-me o que aconteceu, mãe.
A mãe explicou a situação.
Biba fez algumas perguntas, pensou durante alguns instantes e respondeu:
— Vamos resolver isso com calma. Não precisamos de entrar em pânico.
A mãe ficou em silêncio.
Depois perguntou:
— Tu estás diferente.
Biba sorriu.
— Deus está a transformar-me.
A partir daquele momento, a mãe começou a contar com ela.
Tudo o que acontecia em casa era comunicado a Biba.
Se havia um problema, ligava-lhe.
Se precisava de ajuda, procurava-a.
Se alguém da família estava doente, Biba era uma das primeiras pessoas a saber.
A mãe começou a perceber que a filha não estava apenas a falar sobre mudança.
Estava realmente transformada.
Biba já não era conhecida apenas pelas dificuldades que havia enfrentado.
Agora era reconhecida pela maneira como reagia perante elas.
A mãe começou a confiar nela.
E essa confiança aproximou as duas.
Não aconteceu tudo de uma vez.
Ainda existiam assuntos delicados.
Ainda havia conversas que precisavam de cuidado.
Ainda havia momentos em que discordavam.
Mas agora havia respeito.
Havia disposição para ouvir.
Havia vontade de permanecerem próximas.
Biba passou a visitar a mãe com mais frequência.
Às vezes, sentavam-se juntas para conversar.
Outras vezes, apenas partilhavam uma refeição.
Nem sempre falavam sobre o passado.
Nem sempre precisavam de explicar tudo.
A presença uma da outra começou a ser suficiente.
Certa noite, enquanto estavam sentadas na sala, a mãe perguntou:
— Biba, o que aconteceu contigo?
Biba olhou para ela.
— O que queres dizer?
— Estás mais calma. Mais segura. Parece que tens uma força diferente.
Biba sorriu.
— Eu não fiz isso sozinha.
— Então quem fez?
— O Espírito Santo.
A mãe ficou pensativa.
Biba continuou:
— Ainda tenho muito para aprender. Ainda erro. Ainda tenho dias difíceis. Mas agora não estou a tentar mudar apenas com a minha força. Entreguei a minha vida a Deus e deixei que o Espírito Santo influenciasse as minhas decisões.
A mãe baixou os olhos.
— Eu não sabia que era possível mudar tanto.
— Eu também não sabia — respondeu Biba. — Mas Deus faz coisas que nós não conseguimos fazer sozinhos.
A transformação de Biba também começou a alcançar o restante da família.
Ela tornou-se uma intercessora.
Orava pela mãe.
Orava pelos filhos.
Orava pelos irmãos.
Orava pelos pais dos seus filhos.
Orava pelos familiares que estavam distantes.
Orava por aqueles que enfrentavam problemas.
Orava até por pessoas que um dia a tinham julgado.
No início, algumas orações eram difíceis.
Havia nomes que ainda despertavam lembranças dolorosas.
Mas Biba continuava:
— Senhor, abençoa essa pessoa. Cura o coração dela. Dá-lhe sabedoria. Ajuda-a a encontrar-Te.
Às vezes, depois de orar, chorava.
Não porque quisesse voltar a viver o passado, mas porque percebia que Deus a estava a libertar da necessidade de vingança.
Já não queria que as pessoas sofressem apenas porque a tinham feito sofrer.
Queria que Deus transformasse todos os corações.
Certa madrugada, Biba acordou preocupada com um dos seus filhos.
Sentou-se na cama e começou a orar:
— Senhor, guarda o meu filho. Protege os seus passos. Dá-lhe sabedoria. Livra-o de más companhias e de decisões que possam destruí-lo.
Depois orou pelos outros filhos.
Orava pela saúde deles.
Pela vida emocional.
Pelo futuro.
Pelas escolhas.
Pelos relacionamentos.
Também orava pelos pais dos seus filhos.
— Senhor, dá-lhes sabedoria para serem bons pais. Cura as feridas deles. Ajuda-os a cumprir as responsabilidades que lhes cabem.
Biba percebeu que orar por eles não significava negar os erros que haviam cometido.
Significava entregar a Deus aquilo que ela não conseguia controlar.
Não podia mudar o coração de ninguém.
Mas podia interceder.
Podia pedir que Deus agisse.
Podia escolher não alimentar o ódio.
Aos poucos, Biba tornou-se uma mulher sábia.
Não porque soubesse todas as respostas.
Não porque nunca errasse.
Mas porque aprendera a buscar a direção de Deus antes de tomar decisões.
As pessoas começaram a notar.
Algumas perguntavam:
— Como é que a Biba se tornou aquela mulher?
Outras queriam saber:
— O que aconteceu contigo?
— Como conseguiste mudar tanto?
— O que fizeste para alcançar essa transformação?
Biba não respondia dizendo que era forte.
Não dizia que tinha conseguido sozinha.
Não atribuía a mudança à sua própria capacidade.
Respondia:
— Foi a presença do Espírito Santo.
Algumas pessoas queriam saber mais.
— Mas o que fizeste?
— Comecei a entregar a minha vida a Deus. Aprendi a ouvir a Sua voz e a permitir que o Espírito Santo influenciasse as minhas decisões.
— E isso foi suficiente para mudar tudo?
Biba pensava durante alguns segundos.
— Não aconteceu tudo de uma vez. Precisei de aprender, obedecer, pedir perdão, recomeçar e confiar. Mas a presença do Espírito Santo começou a transformar aquilo que eu não conseguia transformar sozinha.
Algumas pessoas começaram a perguntar sobre a igreja.
— Onde congregas?
— Quem te ensinou?
— O que existe naquele lugar que mudou a tua vida?
Biba aproveitava cada oportunidade para falar de Deus.
Não queria que as pessoas admirassem apenas a sua mudança.
Queria que conhecessem Aquele que a havia transformado.
— A igreja ajudou-me a ouvir a Palavra — dizia ela. — Mas foi Deus quem começou a trabalhar dentro de mim. O Espírito Santo mostrou-me quem eu era, quem podia tornar-me e quem Deus queria que eu fosse.
Biba já não precisava de esconder a sua história.
Não tinha vergonha de dizer que fora insegura.
Que muitas vezes reagira mal.
Que tomara decisões erradas.
Que carregara mágoas.
Que vivera momentos de medo e confusão.
A sua história não era perfeita.
Mas agora tinha um novo sentido.
As feridas que antes eram motivo de vergonha tornaram-se testemunho da graça de Deus.
Certa vez, uma mulher que conhecia parte do seu passado aproximou-se dela.
— Ouvi dizer que estás diferente.
Biba sorriu.
— Estou a aprender.
— Mas como conseguiste deixar tudo aquilo para trás?
Biba respondeu com sinceridade:
— Eu não deixei tudo para trás sozinha. Levei tudo a Deus. E o Espírito Santo começou a tratar o meu coração.
A mulher ficou em silêncio.
— Eu também preciso dessa transformação — disse ela.
Biba segurou-lhe a mão.
— Então começa por falar com Deus com sinceridade. Não precisas de fingir que está tudo bem. Ele conhece a tua dor. Entrega-Lhe a tua vida e permite que Ele te ensine.
Biba não se considerava superior a ninguém.
Sabia que ainda estava em processo.
Todos os dias precisava de escolher confiar.
Todos os dias precisava de vigiar os seus pensamentos.
Todos os dias precisava de permitir que o Espírito Santo conduzisse as suas atitudes.
Mas agora havia uma diferença fundamental:
Biba já não queria viver de acordo com a antiga natureza.
Queria viver de acordo com a vontade de Deus.
Quando sentia vontade de responder com agressividade, lembrava-se da mansidão.
Quando queria desistir, lembrava-se da fidelidade.
Quando a ansiedade surgia, buscava a paz.
Quando se sentia fraca, lembrava-se de que o Espírito Santo era o seu consolador.
Quando precisava de tomar uma decisão, pedia sabedoria.
E, pouco a pouco, a sua vida começou a refletir o fruto do Espírito.
O amor começou a substituir a indiferença.
A paz começou a ocupar o lugar da confusão.
A paciência começou a vencer a impulsividade.
A bondade começou a aparecer nas suas atitudes.
A fidelidade começou a fortalecer os seus compromissos.
A mansidão começou a mudar a maneira como respondia.
E o domínio próprio começou a governar as suas escolhas.
Certa noite, Biba voltou para casa depois de um dia cansativo.
Havia enfrentado problemas, recebido críticas e ouvido palavras que poderiam tê-la ferido profundamente.
Mas, em vez de reagir como antes, entrou no quarto, fechou a porta e ajoelhou-se.
— Espírito Santo, preciso de Ti.
Ficou em silêncio.
Depois continuou:
— Não quero voltar a ser quem era. Não quero que a raiva decida por mim. Não quero que o medo conduza a minha vida. Ensina-me a responder de acordo com a Tua vontade.
Biba permaneceu ali durante alguns minutos.
Não ouviu uma voz audível.
Não viu nada de extraordinário.
Mas sentiu paz.
Uma paz que não dependia das circunstâncias.
Uma paz que lhe dizia que Deus estava presente.
Levantou-se e decidiu não responder naquele momento às mensagens que havia recebido.
Esperaria até estar tranquila.
No dia seguinte, respondeu com respeito e firmeza.
Não permitiu que a ferissem novamente, mas também não respondeu com ódio.
Naquele momento, percebeu que o domínio próprio não era fraqueza.
Era força sob controlo.
Era a capacidade de escolher uma resposta diferente.
Era permitir que o Espírito Santo tivesse a última palavra.
A aproximação com a mãe continuou a crescer.
Certa manhã, a mãe ligou-lhe apenas para conversar.
Não havia nenhum problema.
Não precisava de ajuda.
Queria apenas ouvir a voz da filha.
— Biba, como estás?
— Estou bem, mãe. E tu?
— Também estou.
Conversaram durante algum tempo.
Depois, a mãe disse:
— Queria dizer-te uma coisa.
— Diz.
— Ainda não entendo completamente o que aconteceu contigo. Mas percebo que estás diferente.
Biba ficou em silêncio.
— Vejo a maneira como tratas os teus filhos. Vejo como te preocupas com os teus irmãos. Vejo como oras pelas pessoas. E percebo que não estás a fingir.
As lágrimas começaram a aparecer nos olhos de Biba.
— Obrigada, mãe.
— Eu também quero aprender a aproximar-me de Deus.
Biba respirou fundo.
— Posso orar contigo.
A mãe aceitou.
Naquele dia, as duas fizeram uma oração juntas.
Não foi uma oração longa.
Não foi perfeita.
Mas foi sincera.
Biba agradeceu a Deus pela vida da mãe.
Pediu cura para as feridas do passado.
Pediu sabedoria para as duas.
Pediu que o amor fosse reconstruído entre elas.
Quando terminaram, ficaram alguns segundos em silêncio.
Depois, a mãe disse:
— Eu amo-te, Biba.
Biba fechou os olhos.
Durante muitos anos, desejara ouvir aquelas palavras.
Agora, ao ouvi-las, não sentiu necessidade de cobrar o passado.
Apenas respondeu:
— Eu também te amo, mãe.
A relação entre as duas não se tornou perfeita.
Mas tornou-se verdadeira.
Havia espaço para conversar.
Para pedir perdão.
Para recomeçar.
Para aprender a amar de uma maneira nova.
Biba compreendeu que o Espírito Santo não transformava apenas as suas palavras.
Transformava a maneira como via as pessoas.
A mãe já não era apenas a pessoa que a havia ferido.
Era também uma mulher que precisava de cura.
Os pais dos seus filhos já não eram apenas pessoas que a haviam desiludido.
Eram pessoas que também precisavam de Deus.
Os irmãos já não eram apenas parte da sua história.
Eram vidas pelas quais podia interceder.
Até aqueles que a tinham julgado passaram a ser incluídos nas suas orações.
Biba não justificava o que haviam feito.
Mas já não queria carregar o peso da condenação.
Aprendera que o Espírito Santo podia dar-lhe amor sem ingenuidade, perdão sem ausência de limites e sabedoria sem orgulho.
Certa vez, alguém perguntou:
— Biba, nunca mais ficas insegura?
Ela sorriu.
— Às vezes ainda sinto insegurança. A diferença é que agora não permito que ela governe a minha vida.
— E quando sentes medo?
— Oro.
— E quando tens vontade de desistir?
— Lembro-me de que o Espírito Santo está comigo.
— E quando não sabes o que fazer?
— Peço sabedoria.
A pessoa ficou pensativa.
— Então a transformação não significa nunca mais ter problemas?
— Não. Significa não enfrentar os problemas da mesma maneira. Deus não prometeu que eu nunca teria lutas. Prometeu que estaria comigo no meio delas.
Biba aprendera que a presença do Espírito Santo não eliminava todos os desafios.
Mas mudava a maneira como os enfrentava.
Continuava a ter responsabilidades.
Ainda precisava de cuidar dos filhos.
Ainda enfrentava dificuldades financeiras.
Ainda lidava com pessoas complicadas.
Ainda tinha dias de cansaço.
Mas agora não estava sozinha.
O Espírito Santo era seu amigo nas caminhadas difíceis.
Seu professor nas decisões.
Seu consolador nas lágrimas.
Seu guia nos momentos de dúvida.
Seu ajudador nas tentações.
Seu defensor quando era injustamente acusada.
Seu companheiro em todos os momentos.
Biba entregava a sua vida diariamente.
— Espírito Santo, transforma-me.
Essa tornou-se uma das suas orações mais frequentes.
Não pedia apenas que Deus mudasse as circunstâncias.
Pedia que mudasse o seu coração.
— Transforma a minha maneira de pensar.
Transforma a minha maneira de falar.
Transforma a minha maneira de amar.
Transforma a minha maneira de perdoar.
Transforma a minha maneira de decidir.
Transforma a minha maneira de reagir.
Transforma-me por completo.
E Deus continuava a trabalhar.
Não de forma apressada.
Não de maneira superficial.
Mas profundamente.
Biba percebeu que a verdadeira transformação não era tornar-se alguém que nunca enfrentava problemas.
Era tornar-se alguém que, mesmo enfrentando problemas, continuava a escolher Deus.
Já não era a mulher insegura que precisava da aprovação de todos.
Já não era a mulher dominada pela raiva.
Já não era a mulher presa ao passado.
Já não era a mulher que tomava decisões apenas para sobreviver.
Agora era uma mulher guiada pelo Espírito Santo.
Uma mulher que sabia pedir ajuda.
Uma mulher que sabia esperar.
Uma mulher que sabia dizer não.
Uma mulher que sabia perdoar sem negar a verdade.
Uma mulher que sabia amar sem abandonar a prudência.
Uma mulher que sabia orar por aqueles que a tinham ferido.
Uma mulher que aprendera a viver com domínio próprio.
E, acima de tudo, uma mulher que compreendera que a transformação não vinha dela.
Vinha da presença de Deus.
Naquela noite, Biba ajoelhou-se junto à cama.
A casa estava silenciosa.
Os filhos dormiam.
A mãe estava bem.
A família continuava a enfrentar desafios, mas agora havia esperança.
Biba fechou os olhos e orou:
— Espírito Santo, obrigada porque não desististe de mim. Obrigada porque me ensinaste a amar, a perdoar e a confiar. Obrigada porque foste meu amigo quando me senti sozinha, meu professor quando não sabia o que fazer e meu consolador quando chorei. Continua a transformar-me. Não permitas que eu volte a viver como antes. Guia as minhas decisões e usa a minha vida para abençoar a minha família.
Depois ficou em silêncio.
Sentiu paz.
Não porque tudo estivesse resolvido.
Mas porque sabia que Deus estava presente.
Biba aprendera que a transformação era um processo diário.
Todos os dias precisava de se entregar novamente.
Todos os dias precisava de ouvir.
Todos os dias precisava de obedecer.
Todos os dias precisava de permitir que o Espírito Santo produzisse o Seu fruto dentro dela.
E, enquanto fazia isso, a sua vida continuava a mudar.
A mãe aproximava-se.
A família encontrava nela uma intercessora.
Os filhos viam uma mulher mais segura.
Os irmãos reconheciam a sua sabedoria.
Alguns que a haviam julgado começaram a perguntar como tinha mudado.
E Biba continuava a responder:
— Foi a presença do Espírito Santo.
Porque sabia que, sem Ele, talvez ainda estivesse presa ao medo, à raiva e à insegurança.
Mas, com Ele, encontrara uma nova maneira de viver.
Uma vida de amor.
De paz.
De domínio próprio.
De sabedoria.
De perdão.
De esperança.
Biba não era perfeita.
Mas estava a ser transformada.
E essa transformação não era apenas para ela.
Era também para a sua mãe.
Para os seus filhos.
Para os seus irmãos.
Para os pais dos seus filhos.
Para a sua família.
Para aqueles que um dia a julgaram.
Para todos os que Deus colocasse no seu caminho.
Porque, quando o Espírito Santo entra verdadeiramente numa vida, não transforma apenas o interior.
Começa a alcançar tudo à sua volta.
E Biba finalmente compreendeu:
não precisava de tentar transformar-se sozinha.
Precisava apenas de se entregar ao Espírito Santo e permitir que Ele dissesse:
“Eu transformo-te.”



