ENTRE A DÚVIDA E A FÉ
Quando o coração não sabe o que acreditar
Por Liandra Langa
CAPÍTULO 5
A FERIDA POR TRÁS DA DÚVIDA
1. Uma pergunta que vinha de longe
Depois da conversa com Marcos, Matilde sentiu-se mais tranquila. Os dois tinham conseguido falar com sinceridade, e ela estava grata por não ter permitido que a situação se transformasse numa discussão.
Contudo, algo continuava a inquietá-la.
Não era exactamente a chamada. Essa já tinha uma explicação.
Era a intensidade da sua própria reacção.
Por que razão uma situação tão simples tinha despertado tanto medo? Por que imaginava cenários tão dolorosos sem ter provas de que alguma coisa estava errada?
Certa manhã, enquanto organizava algumas roupas antigas para preparar espaço para as coisas do bebé, encontrou uma pequena caixa que trouxe consigo quando se mudou para Maputo.
Dentro dela havia fotografias, cartas antigas e alguns objectos da sua infância.
Matilde sentou-se na cama e começou a observar as fotografias.
Numa delas, aparecia ainda criança, ao lado da mãe, Helena, e do pai, Roberto. Os três sorriam diante de uma casa, num dia que parecia feliz.
Passou os dedos sobre a imagem.
Naquela fotografia, tudo parecia perfeito.
Mas Matilde sabia que uma fotografia podia guardar um momento feliz sem contar toda a história de uma família.
Ficou a olhar para a cara da mãe. Lembrou-se de como Helena procurava protegê-la, de como trabalhava arduamente para lhe proporcionar uma vida confortável e de como, mesmo nos dias difíceis, tentava manter a casa em órdem.
Helena era uma mulher forte. Pelo menos, era assim que Matilde sempre a tinha visto.
Mas havia momentos da sua infância em que a mãe parecia perder, por alguns instantes, toda aquela força.
E Matilde nunca se esqueceu deles.
2. A mulher que sorria diante dos outros
Helena trabalhava numa empresa multinacional e era conhecida pela sua determinação. Cumpria as suas responsabilidades, cuidava da filha e procurava garantir que nada lhe faltasse.
Era também uma mulher que gostava de manter a dignidade, mesmo quando enfrentava dificuldades.
Quando recebia visitas, preparava a casa, servia as refeições e conversava com naturalidade. Não gostava de expor os problemas familiares diante de outras pessoas.
Roberto, o pai de Matilde, era um homem sociável. Sabia conversar, gostava de estar entre amigos e, muitas vezes, conseguia conquistar a simpatia de quem o conhecia.
Para quem olhava de fora, a família parecia ter uma vida estável.
Mas, dentro de casa, havia feridas que não apareciam nas fotografias.
Matilde ainda era adolescente quando começou a compreender que o casamento dos pais não erya tão tranquilo como imaginava.
Em algumas ocasiões, ouviu discussões que terminavam com longos períodos de silêncio. Noutras, percebeu a tristeza da mãe, que tentava disfarçar as lágrimas quando a filha entrava na sala.
No início, Matilde não compreendia o que estava a acontecer.
Pensava que todos os casais discutiam daquela maneira. Acreditava que, depois de cada desentendimento, os pais acabariam por resolver tudo e que a família voltaria a ser como antes.
Mas, com o passar do tempo, percebeu que algumas dores não desapareciam apenas porque ninguém voltava a falar delas.
Havia uma razão para a tristeza da mãe.
E essa razão estava ligada às repetidas infidelidades de Roberto.
3. O dia em que Matilde começou a compreender
Matilde tinha cerca de quinze anos quando viveu uma das lembranças que mais tarde voltaria à sua mente.
Naquele dia, regressou a casa mais cedo do que o habitual. Esperava encontrar a mãe a preparar o jantar, como tantas outras vezes.
Em vez disso, encontrou Helena sentada no quarto, com os olhos vermelhos e uma carta nas mãos.
Matilde parou à porta.
— Mãe, estás a chorar?
Helena tentou limpar rapidamente o rosto.
— Não é nada, filha. Vai descansar um pouco. Já vou preparar alguma coisa para comermos.
Mas Matilde aproximou-se.
— Aconteceu alguma coisa com o pai?
A mãe ficou em silêncio.
Aquele silêncio foi suficiente para que Matilde sentisse o coração apertar-se.
— Mãe, por favor, diz - me o que aconteceu.
Helena olhou para a filha. Parecia dividida entre o desejo de a proteger e a necessidade de não continuar a esconder a sua tristeza.
— Há coisas, filha, que são muito difíceis de aceitar quando confiamos numa pessoa.
Matilde sentou-se ao lado dela.
— O pai fez alguma coisa?
Helena respirou fundo. Não queria colocar sobre a filha um peso que não lhe pertencia, mas também já não conseguia fingir que estava tudo bem.
Explicou-lhe, com cuidado, que Roberto voltara a envolver-se com outra mulher.
Matilde ficou imóvel.
Já tinha ouvido discussões entre os pais. Já tinha percebido que a mãe sofria. Mas ouvir aquilo de forma tão directa fez com que tudo parecesse diferente.
— Outra vez, mãe?
Helena baixou a cabeça.
— Sim, filha.
Matilde sentiu uma mistura de tristeza, raiva e confusão.
Olhou para a mãe e fez a pergunta que lhe surgiu naquele instante:
— Por que é que ele faz isso contigo? Tu fazes tanto por esta família.
Helena não conseguiu responder imediatamente.
Depois, segurou a mão da filha.
— Matilde, as escolhas do teu pai são responsabilidade dele. Não quero que penses que precisas de ser melhor, mais bonita ou mais perfeita para alguém te respeitar. O valor de uma pessoa não depende da fidelidade ou da infidelidade de outra.
Aquelas palavras eram importantes, mas Matilde ainda era jovem demais para compreender toda a sua profundidade.
Naquele momento, viu apenas a dor da mãe.
Viu uma mulher que trabalhava, cuidava da família e procurava manter o casamento, mas que continuava a ser ferida por alguém em quem confiava.
E, sem perceber, começou a construir uma ideia dentro de si:
Mesmo quando amas alguém e fazes tudo para proteger a relação, essa pessoa pode enganar-te.
Não disse aquelas palavras em voz alta. Talvez nem tivesse consciência de que estava a formar aquela conclusão.
Mas a experiência ficou guardada na sua memória.
4. A promessa silenciosa
Nos dias que se seguiram, Matilde observou a mãe com outros olhos.
Reparava quando Helena ficava calada durante o jantar. Percebia quando tentava sorrir, apesar de estar triste. Às vezes, encontrava-a sentada sozinha, a olhar pela janela.
A mãe continuava a trabalhar e a cuidar da casa. Não deixava que a dor a impedisse de cumprir as suas responsabilidades.
Mas Matilde começou a temer que aquilo que acontecia com os seus pais pudesse, um dia, acontecer-lhe também.
Certa noite, enquanto se preparava para dormir, fez uma promessa silenciosa a si mesma:
Quando eu me casar, não quero viver aquilo que a minha mãe viveu.
Era um desejo compreensível. Queria construir uma família onde existissem amor, respeito e fidelidade.
O problema não estava nesse desejo.
O problema começou quando, sem perceber, Matilde passou a acreditar que precisava de estar sempre atenta para impedir que a dor se repetisse.
Se a mãe não conseguiu evitar as infidelidades do pai, talvez ela precisasse de ser mais cuidadosa. Talvez tivesse de observar tudo. Talvez nunca pudesse confiar completamente, porque confiar significava correr o risco de ser surpreendida.
Na adolescência, não compreendia que a vigilância constante não poderia garantir-lhe um casamento sem sofrimento.
Só sabia que tinha medo.
E, quando o medo nasce num período em que ainda estamos a aprender a compreender o mundo, pode influenciar a maneira como interpretamos muitas experiências futuras.
Matilde cresceu, estudou, construiu os seus próprios sonhos e, anos mais tarde, apaixonou-se por Marcos.
Amava-o verdadeiramente.
Mas uma parte dela continuava a recordar, mesmo sem o desejar, a tristeza que tinha visto no rosto da mãe.
5. Quando o passado visita o presente
Sentada na cama, muitos anos depois daquele episódio, Matilde fechou a caixa das fotografias.
Agora começava a compreender por que razão a chamada de Marcos a tinha abalado tanto.
Não significava que o marido fosse igual ao pai. Também não significava que as suas preocupações devessem ser automaticamente ignoradas.
Significava que a situação presente tinha tocado num medo antigo.
A chamada fora um acontecimento real. A possibilidade de traição, porém, era uma interpretação que ela ainda não conseguia confirmar.
A sua experiência familiar podia ajudar a explicar a intensidade da reacção, mas não provava que o mesmo estivesse a acontecer no seu casamento.
Matilde precisava de aprender a distinguir essas duas coisas.
Naquela tarde, decidiu conversar novamente com Marcos, desta vez sobre algo mais profundo.
Quando ele regressou a casa, ela contou-lhe algumas lembranças da adolescência. Falou-lhe das infidelidades do pai, das lágrimas da mãe e do medo que desenvolveu de passar pela mesma experiência.
Marcos ouviu sem a interromper.
— Nunca me tinhas contado tudo isso — disse ele, depois de algum tempo.
— Não sei se alguma vez consegui compreender o quanto aquilo me afectou. Eu queria muito construir uma família diferente. Mas acho que, por vezes, tenho tanto medo de perder aquilo que construímos que começo a imaginar que posso perdê-lo a qualquer momento.
Marcos aproximou-se e segurou-lhe a mão.
— Sinto muito que tenhas passado por isso, meu amor. Mas quero que saibas que não és a tua mãe, eu não sou o teu pai e a nossa história não precisa de repetir a deles.
Matilde começou a chorar.
Não porque aquelas palavras pudessem garantir-lhe que nunca enfrentariam dificuldades, mas porque, pela primeira vez, conseguia falar sobre o seu medo sem precisar de o esconder.
— Eu sei que não devo julgar-te pelo que o meu pai fez — respondeu ela. — Mas preciso de aprender a não deixar que aquilo que vivi determine tudo o que penso sobre ti.
Marcos abraçou-a.
Não tentou resolver toda a sua dor com uma frase. Também não lhe exigiu que deixasse de sentir medo de um dia para o outro.
Ficaram abraçados durante algum tempo.
Matilde percebeu que compreender a origem de uma ferida não significa que ela desapareça imediatamente. Mas pode ser o início de uma mudança.
Naquela noite, antes de dormir, abriu a Bíblia e fez uma oração.
— Senhor, ajuda-me a não viver prisioneira daquilo que aconteceu no passado. Cura em mim o medo que ainda não sei explicar completamente. Ensina-me a reconhecer as diferenças entre a minha história e a história que estou a construir. Dá-me sabedoria para confiar com discernimento, coragem para conversar e força para enfrentar a verdade, seja ela qual for.
Depois da oração, Matilde sentiu-se mais serena.
Ainda tinha muito para aprender. Ainda precisaria de reconhecer outros pensamentos e atitudes que nasceram daquele medo.
Mas já não queria viver apenas a tentar evitar a dor.
Queria aprender a viver com fé, maturidade e liberdade interior.
Porque o passado fazia parte da sua história.
Mas não precisava de escrever sozinho o futuro do seu casamento.
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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
Palavra bíblica — Salmos, 147:3
“Sara os quebrantados de coração, e lhes ata as suas feridas.”
REFLEXÃO
Matilde cresceu a observar a dor da mãe e as consequências das infidelidades do pai. Essa experiência deixou marcas na forma como passou a olhar para a confiança e para os relacionamentos.
Nem todas as pessoas que vivem experiências semelhantes desenvolvem os mesmos medos. Contudo, acontecimentos dolorosos podem influenciar a maneira como interpretamos situações futuras, sobretudo quando ainda não compreendemos plenamente o que sentimos.
Reconhecer essa influência não significa culpar os nossos pais por todas as nossas dificuldades, nem justificar atitudes que magoam outras pessoas. Significa compreender a nossa história para podermos escolher respostas mais saudáveis no presente.
Deus conhece as nossas feridas e pode acompanhar-nos no processo de cura. Esse caminho pode envolver oração, reflexão, conversas sinceras e, quando necessário, apoio de pessoas qualificadas.
Não escolheste todas as experiências que marcaram o teu passado, mas podes procurar sabedoria e apoio para que elas não determinem todas as tuas escolhas futuras.
REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. Como as experiências que Matilde viveu na adolescência podem ter influenciado a sua maneira de interpretar a chamada de Marcos?
2. Que diferença existe entre aprender com uma experiência dolorosa e viver constantemente com medo de que ela se repita?
3. Por que razão seria injusto Matilde considerar Marcos culpado pelas escolhas que o pai dela fez?
4. O que significa procurar a cura de uma ferida emocional sem fingir que o sofrimento nunca existiu?
5. Existe alguma experiência do passado que, por vezes, influencia a maneira como interpretas as situações do presente? O que poderias fazer para compreender melhor essa influência?
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
O passado pode explicar algumas das nossas reacções, mas não precisa de determinar todas as nossas decisões.
Reconhecer uma ferida não é sinal de fraqueza. É uma oportunidade para compreender o que precisa de atenção, procurar cura e aprender a responder ao presente sem condenar antecipadamente aquilo que ainda não conhecemos.
ORAÇÃO FINAL
Pai amado, Tu conheces a minha história, as experiências que me marcaram e as dores que, por vezes, ainda influenciam as minhas decisões.
Ajuda-me a reconhecer as feridas que precisam de cuidado. Ensina-me a não transferir para outras pessoas a culpa por aquilo que alguém fez no passado.
Dá-me sabedoria para distinguir as situações, coragem para enfrentar as minhas emoções e humildade para procurar ajuda quando precisar.
Que a Tua presença me acompanhe no caminho da cura. Renova a minha mente, fortalece o meu coração e ajuda-me a construir relações baseadas na verdade, no respeito, no amor e no discernimento.
Que o meu passado seja uma parte da minha história, mas não uma prisão para o meu futuro.
Em nome de Jesus, amém.