BIBA
Versículo-chave
“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.”
— João 7:24
INTRODUÇÃO
Antes de julgarmos uma pessoa pela vida que leva hoje, talvez devêssemos perguntar: o que aconteceu para que ela chegasse até aqui?
Esta é a história de Biba.
Aos 28 anos, Biba é mãe de quatro filhos e vive na cidade de Mocuba, na província da Zambézia. Para muitas pessoas, ela é simplesmente uma mulher que trabalha como prostituta.
Alguns olham para a sua roupa. Outros para os lugares que frequenta. Outros para as escolhas que fez.
Poucos, porém, conhecem a menina que existiu antes daquela mulher.
Poucos sabem das perguntas que ficaram sem resposta, das feridas que começaram ainda na infância, da ausência de um pai, da falta de afecto, das relações que trouxeram mais dor do que segurança e das responsabilidades que, pouco a pouco, foram tornando a sobrevivência mais urgente do que os sonhos.
Esta história não foi escrita para justificar escolhas erradas.
Também não foi escrita para condenar Biba.
Foi escrita para mostrar que, por detrás de muitas histórias que julgamos rapidamente, existe uma história que não conhecemos.
Porque, às vezes, antes de perguntarmos:
“O que essa pessoa fez?”
precisamos perguntar:
“O que aconteceu com essa pessoa?”
A história de Biba fala de dor, escolhas, consequências, maternidade, sobrevivência, julgamento, fé, perdão e transformação.
Mas, acima de tudo, fala de uma possibilidade:
o recomeço.
Porque o passado pode explicar muitas coisas, mas não precisa necessariamente escrever a última página da nossa história.
CAPÍTULO 1
ANTES DE BIBA NASCER
Antes da Biba nascer existia uma jovem mulher cheia de sonhos.
Quando a mãe da Biba era jovem, tinha planos para a sua vida e acreditava que o futuro poderia ser promissor. Como tantas outras jovens, sonhava estudar, construir uma carreira, ter uma família e viver dias melhores.
Foi nesse período que conheceu um jovem.
O relacionamento começou como muitos outros começam: com proximidade, confiança, sentimentos e expectativas.
Mas aquela relação trouxe uma consequência que mudaria completamente a sua vida.
Ela engravidou.
A gravidez não fazia parte dos seus planos naquele momento. E, para piorar, o jovem não assumiu a responsabilidade pela criança que estava a caminho.
De repente, os sonhos daquela jovem pareciam ter sido interrompidos.
Os estudos ficaram comprometidos. Os planos precisaram ser adiados. E, juntamente com a gravidez, veio o peso da rejeição.
Ela começou a enfrentar perguntas, críticas e olhares.
Como lidaria com aquela situação?
Como criaria uma criança sozinha?
Como continuaria a estudar?
Como reconstruiria os seus sonhos?
Em meio ao desespero, tomou uma decisão que hoje carregaria consigo como uma das partes mais dolorosas da sua história.
Tentou interromper a gravidez.
Mas não conseguiu.
A vida que estava dentro dela permaneceu.
E Biba nasceu.
Ela chegou ao mundo sem saber que, antes mesmo de respirar pela primeira vez, já existia uma história complicada ao seu redor.
Não tinha escolhido nascer.
Não tinha escolhido a ausência do pai.
Não tinha escolhido as dificuldades da mãe.
Não tinha escolhido as circunstâncias que marcaram os seus primeiros dias.
Ela simplesmente nasceu.
E talvez esta seja uma das primeiras verdades que precisamos compreender sobre qualquer ser humano:
uma criança nunca deve carregar a culpa pelas circunstâncias que antecederam o seu nascimento.
A mãe de Biba também sofreu.
Ser uma jovem mãe solteira trouxe-lhe rejeição, frustração e sonhos interrompidos. E uma pessoa ferida nem sempre consegue oferecer aos outros o amor que gostaria de oferecer.
Foi assim que, sem perceber, a dor da mãe começou a alcançar a filha.
Biba cresceu dentro de uma realidade que não compreendia completamente.
Ainda era pequena demais para entender os problemas dos adultos.
Mas crianças percebem quando são desejadas.
Percebem quando são acolhidas.
E também percebem quando existe distância.
Talvez Biba não soubesse explicar o que sentia.
Mas alguma coisa dentro dela começava a perguntar:
“Por que eu não recebo o amor que preciso?”
A resposta para essa pergunta demoraria muitos anos para aparecer.
“Pois tu formaste o meu interior; tu me teceste no ventre de minha mãe.”
— Salmos 139:13
Biba não era um acidente aos olhos de Deus.
Mesmo quando os seres humanos não conseguem compreender uma história, Deus continua a conhecer a vida desde o princípio.
E aquela criança, que começou a vida cercada por rejeição e incerteza, ainda teria muitas páginas para viver.
Mas as primeiras marcas já estavam a ser formadas.
CAPÍTULO 2
UMA INFÂNCIA SEM O AMOR QUE PRECISAVA
Biba cresceu.
A infância deveria ser um lugar de segurança, carinho e descoberta.
Mas nem sempre foi assim.
A sua mãe carregava as próprias feridas. Tinha perdido oportunidades, enfrentado rejeição e precisado reconstruir a vida depois de uma gravidez que não fazia parte dos seus planos.
E, embora Biba não tivesse culpa de nada disso, acabou crescendo no meio das consequências.
Havia momentos em que a mãe cuidava dela.
Mas havia também momentos em que Biba sentia falta de algo que não sabia nomear.
Faltava-lhe aquela certeza interior de que era amada.
Ela observava outras crianças e, algumas vezes, perguntava-se por que a sua realidade parecia diferente.
Enquanto crescia, uma pergunta silenciosa começou a acompanhá-la:
“Será que alguém realmente me ama?”
Quando uma criança cresce sem receber a confirmação de que é importante, pode passar muitos anos procurando essa confirmação nos lugares errados.
Biba ainda não sabia disso.
Ela apenas queria sentir-se escolhida.
Queria sentir que alguém permaneceria.
Queria ouvir palavras que lhe dissessem:
“Tu és importante.”
Mas aquilo que não recebeu dentro de casa começaria, mais tarde, a procurar fora dela.
E essa procura influenciaria muitas das suas escolhas.
“Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá.”
Salmos 27:10
Talvez Biba ainda não conhecesse profundamente essa verdade.
Mas Deus já conhecia a menina que procurava amor.
E a história dela ainda estava apenas a começar.
CAPÍTULO 3
A AUSÊNCIA DO PAI
A ausência do pai foi uma das marcas mais profundas da infância de Biba.
Não era apenas a falta de uma pessoa dentro de casa.
Era a ausência de uma presença que ela desejava conhecer.
Havia perguntas que nunca receberam respostas.
Quem era ele?
Por que não ficou com a sua mãe ?
Porque nunca a procurou?
Será que algum dia pensou nela?
Será que ela era importante para ele?
À medida que Biba crescia, essas perguntas também cresciam.
Uma criança pode aprender a viver sem aquilo que não tem, mas isso não significa que a ausência não deixe marcas.
Biba aprendeu a seguir em frente.
Mas, dentro dela, continuava existindo um espaço que desejava ser preenchido.
E, mais tarde, quando começou a relacionar-se com homens, talvez não estivesse apenas à procura de um companheiro.
Talvez procurasse também, sem perceber, a sensação de segurança e aceitação que lhe faltara.
Queria alguém que ficasse.
Alguém que dissesse:
“Eu estou aqui.”
Mas nem sempre encontrou isso.
Algumas relações trouxeram decepções.
Outras trouxeram abandono.
E algumas deixaram feridas ainda mais profundas.
A ausência do pai não determinava quem Biba seria.
Mas influenciou a forma como ela passou a olhar para o amor, para o abandono e para o seu próprio valor.
“Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus, no seu lugar santo.”
Salmos 68:5
A ausência humana não significa ausência de Deus.
Mas Biba ainda precisaria de tempo para descobrir isso.
CAPÍTULO 4
OS RELACIONAMENTOS
Biba queria ser amada.
Queria ter alguém ao seu lado.
Queria sentir que finalmente pertencia a uma família onde houvesse segurança e permanência.
Por isso, os relacionamentos passaram a ocupar um espaço importante na sua vida.
Ela acreditava que talvez, através de uma relação, encontrasse aquilo que sempre procurara.
Mas algumas das pessoas em quem depositou confiança acabaram por feri-la.
Vieram decepções.
Vieram traições.
Vieram momentos de violência.
Vieram promessas que não foram cumpridas.
E, depois de cada partida, permanecia a mesma pergunta:
“O que há de errado comigo?”
Quando alguém nos abandona repetidamente, podemos começar a acreditar que o problema está no nosso próprio valor.
Biba começou a carregar essa sensação.
Ela queria amor, mas encontrava instabilidade.
Queria segurança, mas encontrava medo.
Queria uma família, mas encontrava relações que não permaneciam.
E, com o passar do tempo, a situação tornou-se ainda mais complexa.
Biba tornou-se mãe.
Agora já não estava apenas a lutar pelas próprias necessidades.
Existiam outras vidas que dependiam dela.
E algumas necessidades não podiam esperar.
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.”
Provérbios 4:23
Mas como guardar um coração que já tinha sido ferido tantas vezes?
Biba ainda precisaria aprender isso.
E a próxima fase da sua vida traria uma responsabilidade ainda maior.
CAPÍTULO 5
OS FILHOS
Biba tornou-se mãe de quatro filhos.
Cada criança trouxe consigo uma nova responsabilidade, mas também uma razão para continuar.
A maternidade não lhe trouxe apenas momentos de alegria.
Trouxe também preocupações.
Havia alimentação.
Havia roupa.
Havia educação.
Havia cuidados.
Havia protecção.
Havia tantas necessidades que, muitas vezes, pareciam maiores do que os recursos disponíveis.
Os relacionamentos não lhe tinham proporcionado a estabilidade que esperava. Alguns homens partiram, mas as responsabilidades permaneceram.
Os filhos continuavam a precisar dela.
E Biba precisava encontrar uma forma de continuar.
Ser mãe significava que não podia simplesmente desistir.
Mesmo cansada, precisava levantar-se.
Mesmo sem respostas, precisava procurar soluções.
Mesmo ferida, precisava continuar.
A maternidade tornou-se uma das maiores responsabilidades da sua vida.
Mas, ao mesmo tempo, as necessidades foram crescendo e as possibilidades diminuindo.
E chegou um momento em que Biba precisou tomar decisões difíceis para conseguir dinheiro.
Foi nesse contexto que a sobrevivência começou a falar mais alto.
“Eis que os filhos são herança do Senhor.”
Salmos 127:3
Biba ainda cometeria escolhas que trariam consequências.
Mas, antes de julgarmos essas escolhas, precisamos conhecer o caminho que a levou até elas.
CAPÍTULO 6
QUANDO A SOBREVIVÊNCIA FALOU MAIS ALTO
As necessidades não paravam.
Biba precisava de dinheiro.
As responsabilidades aumentavam e as oportunidades pareciam cada vez mais limitadas. tentava encontrar alternativas e nada dava certo.
Foi nesse contexto que começou a prostituir-se.
No início, aquilo podia parecer apenas uma forma de conseguir dinheiro.
Uma solução para uma necessidade imediata.
Mas aquilo que começa como uma tentativa de sobrevivência pode, com o tempo, transformar-se numa rotina.
E a rotina pode começar a parecer uma identidade.
Biba passou a conviver com olhares, comentários e julgamentos.
Algumas pessoas viam apenas a mulher que se prostituía.
Mas por trás daquela mulher existia uma história.
Existia uma infância marcada por carência.
Existia a ausência de um pai.
Existiam relações dolorosas.
Existiam responsabilidades.
Existiam escolhas.
E existiam consequências.
Isso não significa dizer que todas as suas escolhas estavam certas.
Significa reconhecer que as escolhas humanas acontecem dentro de histórias concretas.
Biba havia chegado a um lugar que talvez, anos antes, jamais tivesse imaginado.
E agora precisava aprender a viver dentro daquela realidade.
CAPÍTULO 7
A ROTINA DE BIBA
Todos os dias tinham praticamente o mesmo começo.
Biba saía e dirigia-se para uma zona próxima de restaurantes e bares, onde procurava clientes.
À volta do meio-dia, o movimento começava a aumentar.
Alguns homens apareciam sozinhos.
Outros chegavam acompanhados.
Alguns demonstravam interesse imediatamente.
Outros simplesmente passavam.
Havia dias em que conseguia vários clientes.
Havia dias em que conseguia apenas alguns.
E havia dias em que não conseguia nenhum.
Mas mesmo quando não havia dinheiro, as necessidades continuavam.
O dia terminava, mas as preocupações não.
Biba precisava continuar a procurar uma maneira de sustentar a casa.
Foi assim que aquela rotina se tornou parte da sua vida.
Até que, num determinado dia, algo aconteceu.
Um homem que já a conhecia aproximou-se.
Biba pensou que ele fosse mais um cliente.
Mas aquele encontro seria diferente.
Muito diferente.
CAPÍTULO 8
O ENCONTRO QUE A FEZ FALAR
Naquele dia, Biba estava cansada.
Precisava de dinheiro e esperava conseguir algum cliente.
Foi então que viu aquele homem aproximar-se.
Ela já o conhecia de vista.
Por isso, quando ele se aproximou, imaginou que sabia o motivo.
Depois de conversarem, Biba levou-o consigo.
Quando ele perguntou o preço, ela respondeu.
Precisava daquele dinheiro.
Precisava inclusive de comprar comida.
Mas, inesperadamente, o homem disse:
— Eu não vim aqui para aquilo que estás a pensar.
Biba ficou confusa.
— Então vieste fazer o quê?
Ele respondeu que queria conversar com ela.
Queria ajudá-la.
Queria mostrar-lhe que a vida podia ser diferente.
Falou-lhe sobre Deus.
Falou-lhe sobre dignidade.
Falou-lhe sobre a possibilidade de recomeçar.
Biba não estava preparada para ouvir aquilo.
Durante muito tempo, as pessoas tinham olhado para ela como uma profissão.
Aquele homem estava a olhar para ela como pessoa.
E, pela primeira vez em muito tempo, Biba sentiu que alguém queria ouvir a sua história antes de condená -la.
Os olhos encheram-se de lágrimas.
— Tu não sabes a minha história — disse ela.
Ele respondeu:
— Então conta-me.
E Biba começou a falar.
Naquele momento, uma porta foi aberta.
Não era a porta de um quarto.
Era a porta da sua história.
CAPÍTULO 9
A CONFISSÃO DE BIBA
Biba respirou fundo.
Durante anos, tinha aprendido a esconder muita coisa.
Mas naquele momento sentiu que podia falar.
Contou sobre a infância.
Falou da ausência do pai.
Falou da relação difícil com a mãe.
Falou dos relacionamentos que não deram certo.
Falou das traições.
Falou da violência.
Falou dos homens que partiram.
Falou dos filhos.
Falou das dificuldades.
E falou da prostituição.
Não tentou apresentar-se como vítima perfeita.
Também reconheceu que tinha feito escolhas.
Mas explicou que muitas dessas escolhas aconteceram quando se sentia sem alternativas.
— Eu estou cansada — disse.
O homem permaneceu em silêncio.
Ela continuou:
— As pessoas olham para mim e acham que conhecem a minha vida. Mas ninguém sabe o que eu vivi.
Naquele dia, Biba percebeu uma coisa importante:
ser ouvida pode ser o início de uma mudança.
Ela ainda não sabia como mudaria.
Ainda não sabia se conseguiria.
Mas, pela primeira vez, começou a imaginar que talvez existisse outro caminho.
“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.”
— 1 Pedro 5:7
A história que Biba escondia começava finalmente a ser colocada diante de alguém.
E, depois de contar a sua história, surgiu uma pergunta:
Quem era, afinal, a mulher por trás daquela profissão?
CAPÍTULO 10
A MULHER POR TRÁS DA PROSTITUTA
Antes de ser prostituta, Biba tinha sido uma criança.
Antes de ser mãe, tinha sido filha.
Antes de aprender a sobreviver, tinha sido uma menina que precisava de amor.
Antes de usar o corpo para ganhar dinheiro, tinha aprendido a lidar com feridas emocionais.
Isso não apaga as escolhas que fez.
Mas ajuda a compreender a pessoa por trás delas.
Biba não era apenas aquilo que fazia.
Era também aquilo que tinha vivido.
Era uma mulher marcada por experiências difíceis, mas ainda capaz de escolher novos caminhos.
Compreender a história de alguém não significa aprovar todas as suas decisões.
Significa reconhecer que seres humanos são mais complexos do que os rótulos que colocamos sobre eles.
Foi por isso que aquele encontro começou a produzir uma pergunta dentro dela:
“Será que ainda posso tornar-me uma pessoa diferente?”
Talvez essa fosse a primeira pergunta de um novo capítulo.
“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.”
— João 7:24
Biba ainda tinha muito a enfrentar.
E uma das maiores preocupações dizia respeito aos seus filhos.
CAPÍTULO 11
E OS FILHOS DE BIBA?
Até aqui, conhecemos a história de Biba.
Mas existe uma parte da história que não pode ser ignorada:
as crianças que cresceram ao lado dela.
Os filhos de Biba não escolheram as circunstâncias em que nasceram.
Não escolheram as dificuldades económicas.
Não escolheram os relacionamentos dos pais.
Não escolheram os julgamentos da sociedade.
E não escolheram o passado da mãe.
Ainda assim, cresceram dentro dessa realidade.
Uma criança precisa de alimento, educação, protecção e afecto.
Precisa também de oportunidades para construir o próprio futuro.
As dificuldades vividas dentro de uma família podem deixar marcas.
Mas uma história difícil não precisa determinar para sempre a história de uma nova geração.
Ciclos podem ser interrompidos.
Feridas podem ser tratadas.
Padrões podem ser quebrados.
E Biba ainda podia fazer escolhas diferentes.
Não podia apagar o passado.
Mas podia procurar ajuda.
Podia buscar novas oportunidades.
Podia aprender novas formas de educar.
Podia ensinar aos filhos valores diferentes.
Podia mostrar-lhes que dificuldades não determinam quem eles serão.
Um dia, talvez os seus filhos olhassem para trás e perguntassem:
“Que mulher foi a nossa mãe?”
A resposta não precisaria ser apenas sobre aquilo que ela tinha sido.
Poderia também falar sobre aquilo em que ela se tornou.
“Eis que os filhos são herança do Senhor.”
— Salmos 127:3
A mudança de Biba não seria apenas sobre ela.
Poderia alcançar a geração que vinha depois dela.
CAPÍTULO 12
UM NOVO CAPÍTULO
Depois daquele encontro, Biba começou a pensar de maneira diferente.
Talvez a vida pudesse mudar.
Talvez existisse uma oportunidade.
Talvez Deus ainda tivesse algo para fazer na sua história.
Mas pensar diferente não era suficiente.
Ela precisaria tomar decisões diferentes.
Precisaria enfrentar os próprios medos.
Precisaria procurar oportunidades.
Precisaria reconstruir a sua vida pouco a pouco.
O homem que conversara com ela não prometeu que seria fácil.
Também não disse que as pessoas esqueceriam imediatamente o passado.
Disse apenas que um novo caminho podia começar.
Biba tinha 28 anos.
Ainda havia muito que aprender.
Ainda havia muito que reconstruir.
Mas também havia tempo para escrever novas páginas.
“Eis que faço uma coisa nova; agora sairá à luz.”
— Isaías 43:19
Biba começou a compreender que recomeçar não significa fingir que o passado nunca aconteceu.
Significa decidir que o passado não terá a última palavra.
Mas logo descobriria que querer mudar e conseguir que os outros acreditassem nessa mudança eram duas coisas diferentes.
CAPÍTULO 13
AFINAL, QUEM É BIBA?
Quem é Biba?
É fácil responder olhando apenas para aquilo que ela fazia.
Mas a história mostrou que existe muito mais.
Biba é uma mulher que teve uma infância difícil.
É uma filha que cresceu sem a presença do pai.
É uma mulher que procurou amor em relacionamentos que lhe trouxeram dor.
É mãe de quatro filhos.
É alguém que tomou decisões difíceis.
É alguém que enfrentou consequências.
É alguém que sobreviveu.
E é também alguém que começou a desejar uma mudança.
A sua história não pode ser reduzida a uma única palavra.
Porque nenhuma pessoa é apenas o seu pior momento.
Compreender Biba não significa dizer que tudo o que ela fez estava certo.
Significa reconhecer que, por trás das escolhas, existem experiências, necessidades, feridas e responsabilidades.
E talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“O que Biba fez?”
Mas também:
“Quem Biba ainda pode tornar-se?”
“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.”
— Romanos 3:23
Se todos precisamos de graça, então talvez também precisemos aprender a olhar para os outros com mais humanidade.
A mudança de Biba estava apenas a começar.
E o primeiro grande teste viria quando ela tentasse reconstruir a própria vida diante de uma sociedade que ainda se lembrava do seu passado.
CAPITULO 14
QUANDO O PASSADO NAO
QUER DEIXAR IR
Biba decidiu que
precisava mudar.
Depois daquele encontro,
alguma coisa dentro dela havia despertado.
Ela sabia que não seria
fácil. Sabia que o passado não desapareceria de um dia para o outro. Sabia
também que precisava encontrar outra forma de sustentar os seus quatro filhos.
Por isso, começou a
procurar trabalho.
Certo dia, ouviu falar de
uma vaga numa pequena empresa.
Não era um trabalho dos
seus sonhos.
Mas, para Biba, aquela
oportunidade significava muito mais do que um salário.
Significava uma porta.
Uma possibilidade de
começar novamente.
Na noite anterior à
entrevista, Biba separou cuidadosamente a roupa que usaria.
Olhou para si mesma no
espelho.
Durante alguns segundos,
ficou em silêncio.
Talvez aquela fosse uma
das primeiras vezes em muito tempo que se olhava não como a mulher que as
pessoas conheciam nas ruas, mas como a mulher que desejava tornar-se.
— Eu vou conseguir —
disse baixinho.
No dia seguinte,
levantou-se cedo.
Arrumou os filhos e saiu.
Durante o caminho,
imaginava como seria receber aquele emprego.
Pensava no primeiro
salário.
Pensava na comida dos
filhos.
Pensava em deixar para
trás as noites difíceis.
Pensava em poder dizer:
“Eu consegui mudar.”
Quando chegou ao local da
entrevista, sentou-se e esperou.
O coração batia forte.
Finalmente chamaram o seu
nome.
Biba entrou.
Respondeu às perguntas.
Falou das suas
capacidades.
Falou da sua disposição
para trabalhar.
Falou que precisava
daquela oportunidade e que estava disposta a aprender.
Por alguns minutos, tudo
parecia correr bem.
Até que uma das pessoas
que estava na sala fez uma pergunta que Biba não esperava:
— Você é a Biba que
trabalha naquela zona?
Ela ficou imóvel.
O sorriso desapareceu
lentamente do seu rosto.
Biba sabia exatamente do
que aquela pessoa estava falando.
— Sim... sou eu.
O ambiente mudou.
Houve silêncio.
A pessoa olhou para os
outros e depois voltou a olhar para Biba.
— Nós ouvimos algumas
coisas sobre você.
Biba baixou os olhos.
— Eu sei que tenho um
passado — respondeu.
— A questão é que
precisamos de alguém em quem possamos confiar.
Aquelas palavras
atingiram Biba profundamente.
Confiar.
Era exatamente isso que
ela estava tentando reconstruir.
— Eu posso trabalhar —
disse ela. — Eu realmente quero trabalhar. Estou tentando mudar a minha vida.
Mas a decisão parecia já
estar tomada.
— Sentimos muito, mas
decidimos não seguir com a sua candidatura.
Biba ficou alguns
segundos sem saber o que dizer.
Levantou-se.
Agradeceu pela
oportunidade.
Saiu.
E só conseguiu manter-se
firme até atravessar a porta.
Depois, caminhou sem
destino.
As lágrimas começaram a
cair.
Não chorava apenas porque
tinha perdido um emprego.
Chorava porque tinha perdido
algo muito maior:
a esperança de que alguém
acreditasse que ela podia ser diferente.
Sentou-se num lugar
afastado e levou as mãos ao rosto.
— Até quando? — perguntou
entre lágrimas.
— Até quando vão me
julgar pelo que eu fui?
Naquele momento, percebeu
que mudar de vida seria muito mais difícil do que imaginava.
Ela podia decidir
abandonar o passado.
Mas não podia obrigar as
pessoas a esquecê-lo.
Podia pedir uma
oportunidade.
Mas não podia obrigar
ninguém a oferecê-la.
Podia demonstrar
arrependimento.
Mas não podia exigir
confiança imediata.
E essa talvez fosse uma
das partes mais dolorosas do recomeço:
quando você muda, algumas
pessoas continuam tratando você como a pessoa que você era.
Biba voltou para casa
naquele dia com as mãos vazias.
Os filhos estavam na
expectativa de ouvir novidades sobre a candidatura que a mãe fez. Daí
perguntaram:
— Mamã, conseguiu o
trabalho?
Ela olhou para eles.
Tentou sorrir.
Mas não conseguiu.
— Ainda não.
Entrou no quarto.
Fechou a porta.
E chorou.
Naquele momento o passado
falou mais alto. Por alguns minutos, pensou em voltar para aquilo que conhecia.
Pensou que talvez fosse
inútil tentar. As pessoas não a entendiam.
Pensou que talvez as
pessoas tivessem razão.
Mas então ouviu os filhos
brincando do lado de fora.
Levantou-se.
Olhou para eles.
E percebeu que não podia
desistir.
Talvez ninguém
acreditasse nela ainda.
Mas ela precisava começar
acreditando em si mesma.
Daí teve a coragem de
abrir a Bíblia que recebeu.
Enquanto folheava a
bíblia, seus olhos encontraram estas palavras:
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova
criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” 2 Coríntios 5:17
Biba ficou olhando para o
versículo.
As coisas velhas tinham
passado?
Talvez, para algumas
pessoas, ainda não.
Mas para ela, aquele
precisava ser o começo de uma nova caminhada.
Ela compreendeu que o
recomeço não seria provado por uma entrevista.
Nem por uma única
decisão.
Seria provado pelos dias
seguintes.
Pelas escolhas.
Pela perseverança.
Pela maneira como trataria
os filhos.
Pela maneira como
enfrentaria as dificuldades.
Pela maneira como
continuaria caminhando quando ninguém acreditasse nela.
Biba enxugou as lágrimas.
Naquele dia, não
conseguiu o emprego.
Mas também não desistiu
do recomeço.
Porque descobriu uma verdade
difícil:
às vezes, as pessoas
precisam de tempo para acreditar na mudança que Deus já começou a fazer dentro
de nós.
E Biba decidiu dar tempo.
Não para convencer todos.
Mas para permitir que a
sua nova vida falasse mais alto do que o seu antigo passado.
O emprego tinha sido
recusado.
Mas o recomeço, não.
CAPITULO 15
UMA NOVA CAMINHADA – A
CURA DA ALMA
Biba decidiu que
precisava de mais do que uma mudança exterior.
Precisava de ser
transformada por dentro.
Depois da entrevista,
compreendeu que não bastava abandonar os lugares, os hábitos e as pessoas do
passado. Havia feridas na sua alma que ainda precisavam de ser tratadas. Havia
pensamentos que precisavam de ser renovados. Havia lembranças que ainda
tentavam dizer-lhe quem era.
Biba queria ser uma nova
criatura.
Mas percebeu que não
conseguiria fazê-lo sozinha.
Certo dia enquanto fazia
limpeza na sua casa, chegou uma vizinha que acompanhava a transformação da Biba
em silêncio. Nunca havia lhe dirigido sequer uma palavra. Mas naquele dia
convidou-a para participar numa reunião na sua igreja.
— Biba se você quiser
podemos ir a igreja hoje — disse ela. — Talvez encontre ali a força de
que precisa. Tenho acompanhado tudo e vejo que você precisa de ajuda para
conseguir avançar. Sozinha você não vai conseguir.
Biba hesitou.
Durante muito tempo,
sentira-se distante de Deus.
Achava que não era digna
de entrar numa igreja.
Pensava que as pessoas a
julgariam da mesma forma que todas as outras.
— Não sei se aquele é o
meu lugar — respondeu.
A vizinha sorriu.
— A igreja não é um lugar
para pessoas perfeitas. É um lugar para pessoas que precisam de Deus.
Aquelas palavras ficaram
no coração de Biba, mas não afastaram imediatamente o medo. Pelo contrário,
fizeram-na pensar em tudo o que carregava. E se Deus realmente a visse como ela
era? E se, ao entrar naquela igreja, todas as suas culpas se tornassem ainda
mais evidentes? Parte dela desejava acreditar que ainda podia recomeçar; outra
parte dizia-lhe que já tinha ido longe demais para ser recebida.
Naquela noite, Biba ficou
acordada durante algum tempo, olhando para o teto. Pensou na sua vida, nas
escolhas que fizera e nas consequências que ainda enfrentava. Perguntou-se se
uma pessoa como ela poderia realmente aproximar-se de Deus sem ser rejeitada.
Não tinha respostas. Apenas uma inquietação profunda e uma pequena esperança,
quase tímida, que começava a nascer dentro dela.
No domingo seguinte,
depois de arrumar os filhos, vestiu uma roupa simples e saiu.
Caminhou até à igreja com
o coração apertado.
A cada passo, pensava em
voltar. Sentia as mãos frias e o estômago contraído. Imaginava que todos
reparariam nela, que perceberiam imediatamente que não pertencia àquele lugar.
Por alguns instantes, chegou a pensar que talvez fosse melhor continuar
sozinha, sem correr o risco de ser novamente julgada.
Mas continuou.
Quando entrou, os irmãos
que estavam na porta sorriram e desejaram boas vindas.
Outras cumprimentaram-na
normalmente como uma irmã na casa do Senhor.
Alguns conheciam a sua
vida na prostituição mas ninguém lhe perguntou sobre isso.
Ninguém a fez sentir que
precisava de esconder quem era.
Biba sentou-se no último
banco.
Queria passar
despercebida.
Sentou-se com os ombros
tensos, mantendo os olhos baixos. Ainda esperava que alguém se aproximasse para
lhe fazer perguntas ou para medir a sua vida pelos seus erros. Cada sorriso que
recebia deixava-a desconfiada, porque não estava habituada a ser acolhida sem
que lhe exigissem nada em troca. Mesmo assim, havia algo naquele ambiente que
não conseguia explicar. Não se sentia completamente segura, mas também já não
se sentia tão sozinha.
Durante o louvor, ficou
em silêncio.
As pessoas cantavam,
levantavam as mãos e oravam.
Ela limitava-se a
observar.
As palavras dos cânticos
pareciam falar de entrega, perdão e confiança. Biba conhecia algumas delas, mas
não conseguia cantá-las. Como poderia dizer que confiava em Deus quando ainda
tremia diante do futuro? Como poderia falar de paz quando dentro dela havia
tantas lembranças, medos e perguntas? Preferiu permanecer calada, sentindo-se
quase uma intrusa entre pessoas que pareciam saber exatamente como se aproximar
de Deus.
Mas, pouco a pouco,
sentiu algo diferente dentro de si.
Não era uma emoção
passageira.
Era como se uma paz
começasse a tocar num lugar da sua alma que há muito tempo estava ferido.
A princípio, Biba tentou
resistir àquela sensação. Disse a si mesma que talvez fosse apenas o ambiente,
a música ou o cansaço. Mas, enquanto ouvia as pessoas orarem, sentiu os olhos
arderem. Havia anos que não permitia que ninguém se aproximasse das partes mais
dolorosas do seu coração. Naquele momento, sem que ninguém lhe tocasse, sentiu
como se Deus estivesse a aproximar-se justamente dessas feridas.
Quando chegou o momento
da pregação da Palavra, Biba começou a prestar atenção e ouvia atentamente a
mensagem.
O pastor falou sobre a
graça de Deus.
Falou sobre
arrependimento.
Falou sobre recomeços.
Falou sobre pessoas que
carregavam culpas antigas e acreditavam que nunca poderiam ser transformadas.
Biba sentiu os olhos
encherem-se de lágrimas.
Parecia que aquelas
palavras tinham sido preparadas para ela.
Enquanto ouvia, lutava
contra a vontade de chorar. Cada frase parecia alcançar uma lembrança que ela
tentava manter escondida. Pensou nas vezes em que se sentira indigna, nas
portas que se fecharam e nas pessoas que a reduziram ao seu passado.
Perguntou-se se seria possível que Deus conhecesse tudo aquilo e, ainda assim,
não a abandonasse.
— Deus não olha apenas
para aquilo que você foi — disse o pastor. — Ele também vê aquilo em que você
pode tornar-se quando entrega a sua vida a Ele.
Biba baixou a cabeça.
Durante anos, acreditara
que o seu passado era uma sentença.
Naquele momento, começou
a compreender que, nas mãos de Deus, o passado podia tornar-se um testemunho.
Ainda não conseguia
acreditar completamente. A esperança parecia grande demais para alguém que se
habituara a esperar o pior. Mas, pela primeira vez, permitiu-se imaginar que
talvez a sua história não terminasse nos erros que cometera. Talvez Deus não
estivesse a ignorar o seu passado, mas a mostrar-lhe que ele não precisava de
ser o seu destino.
No final do culto, uma
irmã aproximou-se dela.
— É a sua primeira vez
aqui?
Biba assentiu.
— Sim.
— Seja bem-vinda. Como se
chama?
— Biba.
A mulher segurou-lhe as
mãos.
— Biba, saiba que Deus a
ama.
Aquelas palavras pareciam
simples.
Mas, para Biba,
significavam muito.
Estava acostumada a ser
lembrada pelos seus erros.
Naquele lugar, alguém
estava a lembrar-lhe que também era amada.
Por alguns segundos, Biba
não conseguiu responder. Sentiu a garganta apertar e as lágrimas descerem pelo
rosto. Quis dizer que não merecia aquele amor, que havia coisas sobre si que
aquela mulher não conhecia. Mas percebeu que, talvez, fosse precisamente isso
que tornava aquelas palavras tão importantes. Não eram baseadas no que ela
conseguira fazer ou provar. Eram oferecidas antes de qualquer explicação.
Ao sair da igreja, Biba
caminhou devagar. O mundo à sua volta parecia o mesmo, mas algo dentro dela
tinha mudado. Os problemas continuavam à espera em casa, as dificuldades não
tinham desaparecido e o passado não fora apagado. Ainda assim, levava consigo
uma pergunta que não a abandonava: e se Deus realmente pudesse fazer uma obra
na sua vida?
A partir daquele dia,
Biba começou a frequentar a igreja.
No início, sentava-se
sempre no mesmo lugar.
Chegava calada e saía
calada.
Mas continuava a voltar.
A cada reunião, aprendia
algo novo.
Aprendeu que confiar em
Deus não significava deixar de enfrentar problemas.
Significava não os
enfrentar sozinha.
Aprendeu que a fé não era
a ausência de medo.
Era continuar a caminhar
mesmo quando o medo aparecia.
Aprendeu que Deus não
exigia que tivesse todas as respostas.
Apenas pedia que desse o
passo seguinte.
Mesmo assim, havia dias
em que Biba entrava na igreja cheia de dúvidas. Às vezes, perguntava-se se
estava realmente a mudar ou se apenas procurava um alívio momentâneo. Outras
vezes, sentia vergonha por ainda ter pensamentos antigos e por continuar a
lutar com sentimentos que julgava já dever ter vencido. Mas começava a
compreender que Deus não se afastava dela por causa das suas lutas. Talvez a
transformação não fosse provar que já não tinha fraquezas, mas aprender a
levá-las para Deus.
Certa noite, depois de
deitar os filhos, Biba sentou-se à mesa.
Sentiu uma forte necessidade
de visitar as sagradas escrituras.
Abriu a Bíblia novamente,
não sabia por onde começar.
As palavras pareciam
difíceis de compreender.
Alguns textos pareciam
distantes da sua realidade.
Mesmo assim, decidiu
continuar.
Leu algumas linhas.
Depois, leu um capítulo.
No dia seguinte, voltou a
ler.
Aos poucos, a Bíblia
começou a tornar-se parte da sua rotina.
Biba acordava cedo, antes
dos filhos, e reservava alguns minutos para ler a Palavra.
Depois, fechava os olhos
e orava.
No começo, as suas
orações eram curtas.
— Deus, ajuda-me.
— Dá-me força.
— Protege os meus filhos.
— Ensina-me a confiar em
Ti.
Por vezes, depois de
dizer aquelas palavras, ficava em silêncio, sem saber o que acrescentar.
Sentia-se estranha a falar com alguém que não podia ver. Também tinha medo de
estar a orar de forma errada, de não usar as palavras certas ou de não ter fé
suficiente. Mas, pouco a pouco, percebeu que Deus não parecia exigir discursos
perfeitos. Bastava que fosse sincera.
Com o tempo, começou a
falar com Deus sobre tudo.
Falava sobre os seus
medos.
Falava sobre a rejeição.
Falava sobre a culpa.
Falava sobre a vontade de
desistir.
Falava sobre o desejo de
ser uma boa mãe.
Falava sobre a
necessidade de encontrar trabalho.
E, pela primeira vez,
sentia que podia abrir completamente o coração sem ser condenada.
Nas suas orações, Biba
começou a dizer coisas que nunca tivera coragem de dizer a ninguém. Confessava
que ainda sentia raiva, que tinha medo de falhar novamente e que, em alguns
dias, não conseguia ver esperança. Às vezes, chorava antes de terminar. Outras
vezes, ficava apenas sentada, com as mãos juntas, sem encontrar palavras. Mesmo
nesses momentos, sentia que o silêncio também podia ser uma oração.
A oração tornou-se o
lugar onde Biba conseguia respirar.
Era como se, a cada
palavra, retirasse um pouco do peso que carregava.
Começou a perceber que a
sua alma precisava de ser lavada.
Não apenas das lembranças
dolorosas, mas também da vergonha, da amargura, da raiva e das mentiras em que
tinha acreditado acerca de si mesma.
Durante muito tempo,
pensara:
“Eu não tenho valor.”
“Eu nunca vou mudar.”
“Ninguém vai acreditar em
mim.”
“Deus não pode querer
alguém como eu.”
Mas a Palavra começou a
substituir aquelas vozes.
No início, Biba não
conseguia aceitar facilmente aquilo que lia. Quando encontrava promessas de
perdão, perguntava-se se poderiam realmente aplicar-se a ela. Quando lia sobre
amor, lembrava-se de todas as vezes em que fora rejeitada. Quando lia sobre uma
nova vida, sentia medo de criar expectativas e voltar a dececionar-se. Ainda
assim, continuava a ler. Cada verdade precisava de tempo para criar raízes num
coração acostumado a acreditar no contrário.
Biba aprendeu que não era
definida pelos seus erros.
Aprendeu que o
arrependimento podia abrir caminho para uma nova vida.
Aprendeu que Deus podia
restaurar aquilo que parecia perdido.
Aprendeu que a
transformação não acontecia de uma só vez.
Acontecia todos os dias.
Em cada escolha.
Em cada oração.
Em cada pensamento
entregue a Deus.
Em cada tentação vencida.
Em cada atitude diferente
daquelas que costumava ter.
Certa manhã, enquanto
lia, encontrou estas palavras:
Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus
(Romanos 12:2)
Biba ficou em silêncio.
Compreendeu que Deus não
queria apenas mudar aquilo que as pessoas viam.
Queria renovar a sua
mente.
Queria limpar o seu
coração.
Queria ensinar-lhe uma
nova maneira de viver.
Leu o versículo várias
vezes. Pensou em quantas ideias sobre si mesma tinham sido repetidas durante
anos, até parecerem verdades impossíveis de questionar. Talvez a renovação da
mente começasse justamente ali: aprendendo a desconfiar das vozes que sempre a
condenaram e dando espaço à voz de Deus. Ainda não sabia como fazer isso todos
os dias, mas desejou aprender.
A velha Biba ainda
tentava aparecer.
Às vezes, quando era
contrariada, sentia vontade de responder com agressividade.
Quando enfrentava
dificuldades, pensava em voltar aos antigos caminhos.
Quando alguém a julgava,
sentia a raiva crescer dentro dela.
Mas agora havia algo
diferente.
Antes de agir,
lembrava-se daquilo que estava a aprender.
Respirava.
Orava.
Buscando discernimento.
Pedia sabedoria.
Nem sempre conseguia
vencer.
Mas já não desistia
quando falhava.
Voltava para Deus.
Pedia perdão.
Levantava-se.
E continuava.
Depois de cada falha,
Biba sentia vergonha e perguntava-se se tinha estragado tudo. Por vezes,
pensava que Deus se cansaria dela, tal como tantas pessoas se tinham cansado.
Mas, ao voltar à oração, descobria que ainda podia aproximar-se. Deus a
escutava e as respostas fluiam em sua mente. Essa descoberta não eliminava o
arrependimento, mas impedia que a culpa a afastasse novamente. Começava a entender
que pedir perdão não era voltar ao ponto de partida; era continuar o caminho
com mais humildade.
Na igreja, o pastor viu o
esforço que a Biba fazia para se tornar efectivamente em uma nova criatura e
abriu portas para ela fazer algum trabalho social. Biba começou a servir.
Ajudava a organizar as
cadeiras.
Participava nas reuniões
de oração.
Levava os filhos aos
cultos.
Conversava com outras
mulheres.
Aos poucos, deixou de se
sentar sempre no último banco.
Começou a sentir que
pertencia àquele lugar.
Não porque fosse
perfeita.
Mas porque estava a ser
transformada.
Nas reuniões de oração,
Biba ainda se sentia insegura. Quando ouvia outras pessoas orarem com
confiança, comparava-se e pensava que as suas próprias palavras eram pobres.
Algumas vezes, limitava-se a ouvir, com os olhos fechados, tentando acompanhar
as orações. Outras vezes, sentia vontade de chorar sem saber exatamente porquê.
Havia dores que ainda não conseguia explicar, mas que pareciam encontrar espaço
quando estava na presença de Deus.
Um dia, depois de uma
reunião, uma das irmãs disse-lhe:
— Biba, vejo algo
diferente em si.
Ela sorriu, sem saber o
que responder.
— Ainda tenho muito para
mudar.
— Todos nós temos —
respondeu a irmã. — Mas Deus já começou uma obra na sua vida.
Biba guardou aquelas
palavras no coração.
Naquela noite, ao chegar
a casa, olhou para os filhos.
Eles estavam a brincar no
chão.
A casa era simples.
As dificuldades ainda
existiam.
Ainda não tinha
conseguido o emprego que procurava. Mas já fazia pequenos negócios para conseguir
suprir as necessidades básicas.
Continuava a enfrentar
olhares desconfiados.
Ainda carregava marcas do
passado.
Mas já não era a mesma
mulher.
Agora, quando o medo
batia à porta, orava.
Quando a tristeza
chegava, lia a Palavra.
Quando a culpa tentava
dominá-la, lembrava-se da graça.
Quando pensava em
desistir, lembrava-se de que Deus ainda estava a trabalhar nela.
Biba compreendeu que a
desintoxicação da alma não acontecia de um dia para o outro.
Era um processo.
Assim como o corpo
precisava de tempo para eliminar aquilo que lhe fazia mal, a alma também
precisava de tempo para se libertar das velhas dores, dos velhos pensamentos e
dos velhos caminhos.
A cada dia, Deus lavava
um pouco mais do seu coração.
Lavava a culpa.
Lavava a vergonha.
Lavava a amargura.
Lavava o medo.
E, no lugar dessas
coisas, começava a colocar paz, esperança, fé e amor.
Biba sabia que a velha
vida ainda tentaria chamá-la.
Mas agora conhecia uma
verdade:
a velha criatura não
precisava de controlar a nova vida que Deus estava a formar nela.
Não seria transformada
apenas pela força da sua vontade.
Seria transformada pela
presença de Deus, pela oração e pela Palavra.
Naquela noite, Biba
ajoelhou-se ao lado da cama.
Os filhos já dormiam.
Começou a orar
profundamente:
— Senhor, lava a minha
alma. Tira de mim tudo aquilo que ainda pertence à velha vida. Ensina-me a
confiar em Ti. Ajuda-me a viver como uma nova criatura. Não permitas que o meu
passado comprometa aquilo que estás a fazer em mim.
Depois de dizer aquelas
palavras, Biba permaneceu ajoelhada. Sentia vontade de pedir muitas outras
coisas, mas também sentia medo de encarar tudo o que ainda precisava de ser
entregue. Pensou na culpa que continuava a carregar, nas pessoas que talvez
nunca acreditassem na sua mudança e nas partes de si mesma que ainda não
conseguia perdoar. Por alguns instantes, perguntou-se se Deus teria paciência
para esperar por ela.
Então, em vez de tentar
esconder as dúvidas, falou com sinceridade:
— Senhor, eu quero
confiar, mas ainda tenho medo. Quero mudar, mas às vezes não sei como. Ajuda-me
a não voltar atrás quando me sentir fraca.
Depois, ficou alguns
minutos em silêncio.
Nesse silêncio, não
encontrou respostas para todas as perguntas. Os problemas continuavam
presentes, e o futuro permanecia incerto. Mas sentiu que já não precisava de
resolver tudo naquela noite. Pela primeira vez em muito tempo, conseguiu
descansar sem exigir de si mesma uma força que ainda não possuía.
E, pela primeira vez em
muito tempo, sentiu paz.
Não porque todos os
problemas tivessem desaparecido.
Mas porque já não
precisava de os carregar sozinha.
Biba levantou-se.
Abriu a Bíblia mais uma
vez.
E leu:
Cria em mim um coração puro, ó Deus,
e renova dentro de mim um espírito estável.
(Salmos 51:10)
Sorriu entre lágrimas.
A sua história ainda não
estava terminada.
O passado ainda existia.
Mas já não era o seu
senhor.
Biba estava a aprender a
confiar em Deus.
Estava a aprender a orar.
Estava a aprender a viver
pela Palavra.
E, dia após dia, a sua
alma era lavada.
A velha criatura ainda tentava
falar.
Mas a nova vida começava
a falar mais alto.
Biba não estava apenas a
mudar de caminho.
Estava a ser transformada
por Deus.
CAPITULO 16
O PERDÃO
A caminhada de Biba com
Deus começava a mudar muitas coisas dentro dela.
Ela já não era a mesma
mulher que havia entrado naquela igreja pela primeira vez.
Estava aprendendo a orar.
Estava aprendendo a
confiar.
Estava aprendendo a ler a
Palavra.
Estava aprendendo que
Deus podia dar-lhe uma nova vida.
Mas havia uma área do seu
coração que Biba ainda não conseguia entregar completamente.
O perdão.
Ela conseguia falar sobre
Deus.
Conseguia orar.
Conseguia pedir perdão
pelos próprios erros.
Mas quando se lembrava
das pessoas que a tinham ferido, algo dentro dela endurecia.
Havia nomes que ainda
doíam.
Nomes que traziam
lembranças.
Nomes que despertavam
lágrimas.
Nomes que ela preferia
nunca mais ouvir.
Entre eles estava o nome
da sua própria mãe.
E também estavam os pais
dos seus filhos.
Pessoas que, de
diferentes maneiras, tinham deixado marcas profundas na sua história.
Certo domingo, durante o
culto, o pastor anunciou um propósito especial.
O tema seria:
PERDÃO.
A proposta era simples,
mas desafiadora.
Cada pessoa deveria
escrever os nomes daqueles que mais a tinham magoado.
Depois, durante um
período de oração, deveria apresentar essas pessoas a Deus e liberar perdão.
Não se tratava de dizer
que o que aconteceu estava certo.
Não significava esquecer.
Também não significava
necessariamente voltar a conviver com pessoas que poderiam continuar a fazer
mal.
Era entregar a Deus
aquilo que ainda prendia o coração.
E, para aqueles que se
sentissem preparados, havia um desafio ainda maior:
procurar a pessoa
pessoalmente ou fazer uma ligação para dizer:
“Eu escolho perdoar-te.”
Biba ouviu tudo em
silêncio.
Quando recebeu o papel,
segurou a caneta.
Olhou para a folha.
Mas não escreveu nada.
Seu coração começou a
acelerar.
Como poderia escrever
aqueles nomes?
Como poderia perdoar
pessoas que tinham causado algumas das suas maiores dores?
Pensou na mãe.
Lembrou-se da infância.
Lembrou-se da sensação de
rejeição.
Lembrou-se de todas as
vezes em que desejou receber carinho e sentiu que não o tinha recebido da
maneira que precisava.
Depois pensou nos pais
dos seus filhos.
Vieram à memória as
promessas quebradas, as decepções, os abandonos e as responsabilidades que
acabaram ficando sobre os seus ombros.
Biba apertou a caneta.
Não conseguiu escrever.
Dobrou o papel e
colocou-o dentro da Bíblia.
Naquele dia, decidiu não
participar do propósito.
Mas o pastor percebeu que
alguma coisa estava acontecendo.
No final do culto,
aproximou-se dela.
— Biba, posso conversar
contigo?
Ela assentiu.
Sentaram-se num lugar
mais reservado.
— Eu percebi que este
propósito mexeu contigo.
Biba ficou alguns
segundos em silêncio.
Depois respondeu:
— Pastor, eu não consigo.
— O quê?
— Perdoar.
As lágrimas começaram a
aparecer.
— O senhor não sabe o que
fizeram comigo.
O pastor não a
interrompeu.
Biba continuou:
— Eu passei anos tentando
sobreviver. Passei anos carregando coisas que não escolhi. E agora querem que
eu simplesmente perdoe?
Ela enxugou o rosto.
— Eu não consigo
esquecer.
O pastor respondeu com
calma:
— Biba, ninguém está a
pedir que finjas que não aconteceu.
Ela levantou os olhos.
— Então o que significa
perdoar?
— Significa deixar de permitir
que aquilo que fizeram contigo continue a controlar o teu coração.
Biba permaneceu em
silêncio.
O pastor continuou:
— Perdoar não é dizer que
fizeram o certo. Não é negar a dor. Não é necessariamente voltar a confiar na
pessoa. E também não significa permitir que alguém volte a ferir-te.
Fez uma pausa.
— Perdoar é entregar a
Deus aquilo que já não queres continuar carregando.
Biba respirou
profundamente.
Ainda não estava
convencida.
Então o pastor falou de
Jesus.
Falou sobre a cruz.
Falou daquele momento em
que Jesus foi crucificado, mesmo sem ter cometido pecado.
E lembrou-lhe das
palavras:
“Pai, perdoa-lhes, porque
não sabem o que fazem.”
Lucas 23:34
Biba ficou em silêncio.
Pensou na cruz.
Pensou em Jesus.
Pensou no quanto havia
sido ferida.
E, pela primeira vez,
percebeu que o perdão não seria apenas um desafio para aquelas pessoas.
Seria um desafio para
ela.
— Pense nisso — disse o
pastor. — Não precisa responder agora. Ore. Converse com Deus. Deixe que Ele
trate o seu coração.
Biba assentiu.
— Eu vou pensar.
Naquela noite, Biba
entrou no quarto.
Fechou a porta.
Os filhos já dormiam.
A casa estava silenciosa.
Ela sentou-se na cama.
Durante alguns minutos,
ficou apenas olhando para o chão.
Depois começou a chorar.
Não era um choro comum.
Era como se todas as
dores que ela havia guardado durante anos tivessem encontrado uma saída.
Biba começou a falar com
Deus.
— Senhor...
A voz falhou.
Ela respirou fundo.
— Eu não sei se consigo.
Começou a lembrar-se da
infância.
Falou da mãe.
Falou da rejeição.
Falou dos momentos em que
se sentiu sozinha.
Falou do pai que não
esteve presente.
Falou dos
relacionamentos.
Falou dos homens que
entraram na sua vida e depois foram embora.
Falou dos pais dos seus
filhos.
Falou da raiva.
Falou da tristeza.
Falou de tudo aquilo que
nunca conseguira dizer sem chorar.
— Senhor, por que eu
passei por tudo isso?
Biba chorava.
— Eu só queria ser amada.
Fez uma pausa.
Depois disse:
— Eu só queria ter tido
uma família.
As lágrimas continuavam a
cair.
Mas, no meio daquele
desabafo, Biba lembrou-se das palavras do pastor.
Perdoar não significa
dizer que não doeu.
Então respirou fundo.
— Senhor...
Dessa vez, sua voz saiu
mais firme.
— Eu não consigo fazer
isso sozinha.
Fechou os olhos.
— Mas eu quero
obedecer-Te.
Silêncio.
Então pronunciou as
palavras que durante tanto tempo pareciam impossíveis:
— Senhor,
ajuda-me a liberar perdão para a minha mãe.
Biba começou a chorar
novamente.
— Eu perdoo a minha mãe.
Parou.
Respirou.
— Eu perdoo a minha mãe
pela dor que senti.
Mais lágrimas.
— Eu perdoo pela
rejeição.
A voz tremia.
— Eu perdoo pelas coisas
que não recebi quando era criança.
Biba colocou a mão sobre
o peito.
— Eu não quero mais
carregar isso.
Por alguns instantes,
ficou em silêncio.
Não aconteceu nada
extraordinário ao redor dela.
Nenhuma luz apareceu.
Nenhuma voz audível
falou.
Mas dentro de Biba
começou a acontecer algo.
Uma paz.
Pequena no início.
Depois mais profunda.
Como se um peso que ela
carregara durante anos começasse lentamente a ser retirado.
Biba continuou:
— Senhor, eu entrego a
minha mãe nas Tuas mãos.
Depois pensou nos pais
dos seus filhos.
Os nomes vieram um após
outro.
As lembranças voltaram.
A dor também.
Mas, desta vez, Biba não
fugiu delas.
Começou a liberar perdão.
— Eu perdoo.
— Eu perdoo.
— Eu perdoo.
Para cada um, repetia
aquelas palavras.
Não porque tivesse
esquecido.
Não porque tudo estivesse
resolvido.
Mas porque não queria
mais permitir que aquelas pessoas continuassem a ocupar um espaço de amargura
dentro dela.
A Bíblia diz:
“Suportai-vos uns aos outros, e perdoai-vos
mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o
Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.”
Colossenses 3:13
Naquela noite, Biba
compreendeu que o perdão era um processo.
Talvez algumas feridas
ainda doessem.
Talvez algumas lembranças
ainda provocassem lágrimas.
Mas algo havia mudado.
Ela já não queria
vingança.
Já não queria passar a
vida inteira revivendo aquilo que lhe fizeram.
Queria liberdade.
Queria paz.
Queria continuar a sua
caminhada com Deus.
Quando terminou de orar,
Biba ficou alguns minutos em silêncio.
Depois sorriu entre
lágrimas.
— Obrigada, Senhor.
Na manhã seguinte, tomou
uma decisão.
Pegou o telefone.
Olhou para o contacto da
mãe.
Ficou alguns segundos
parada.
O coração batia forte.
Pensou em desligar.
Mas respirou fundo e fez
a chamada.
A mãe atendeu.
— Alô?
Biba não conseguiu falar
imediatamente.
Sua garganta apertou.
— Mãe...
Do outro lado, silêncio.
— Sou eu.
Mais alguns segundos.
Então Biba disse:
— Eu queria dizer uma
coisa.
Respirou fundo.
— Eu amo-te.
Foi a primeira vez que
disse aquelas palavras à mãe daquela maneira.
Sem cobrança.
Sem acusação.
Sem exigir explicações.
Apenas:
“Eu amo-te.”
As lágrimas começaram a
cair.
Talvez aquela ligação não
resolvesse todos os problemas entre as duas.
Talvez ainda houvesse
conversas que precisariam acontecer.
Talvez algumas feridas
precisassem de tempo.
Mas, naquele momento,
Biba tinha dado um passo.
Ela havia escolhido não
continuar prisioneira daquilo que a feriu.
Quanto aos pais dos seus
filhos, Biba não fez ligações.
Ainda não estava
preparada para isso.
Mas continuou a orar por
eles.
Sempre que os seus nomes
surgiam em seus pensamentos, dizia:
— Senhor, eu já os
entreguei a Ti.
E continuava a caminhar.
Biba finalmente
compreendeu uma coisa:
perdoar não é apagar o
passado.
É impedir que o passado
continue a governar o futuro.
Ela não precisava voltar
para pessoas que a feriram.
Não precisava permitir
novos abusos.
Não precisava fingir que
nada aconteceu.
Mas podia escolher não
viver alimentando a mágoa.
Naquela noite, antes de
dormir, Biba ajoelhou-se novamente.
E agradeceu a Deus.
Ainda havia muito para
aprender.
Ainda havia muito para
reconstruir.
Mas uma porta havia sido
aberta.
A porta do perdão.
E, ao atravessá-la, Biba
percebeu que talvez existissem outras portas que Deus queria abrir.
Porque algumas vezes o
maior obstáculo para um novo começo não está à nossa frente.
Está dentro de nós.
E Biba acabava de dar um
passo para se libertar dele.
CAPÍTULO 17
ESPIRITO SANTO,
TRANSFORMA - ME
A caminhada de Biba com
Deus continuava a produzir mudanças profundas no seu interior.
No capítulo anterior,
começara a compreender o caminho do perdão. Ainda havia feridas, lembranças e
situações que precisavam de tempo, mas algo já não era como antes.
Biba não queria apenas
conhecer Deus.
Queria permitir que Ele
transformasse completamente a sua vida.
E, pouco a pouco, começou
a perceber que essa transformação não acontecia apenas através dos seus
próprios esforços.
Havia uma presença dentro
dela.
Uma presença que a
ensinava.
Que a corrigia.
Que a consolava.
Que a fortalecia.
Era o Espírito Santo.
Biba ainda estava a
aprender a compreender quem Ele era, mas começava a perceber que não caminhava
sozinha.
O Espírito Santo estava
presente nas suas decisões, nas suas conversas, nas suas reações e até nos
momentos em que ninguém via o que acontecia dentro do seu coração.
Foi nesse período que a
relação com a mãe começou a mudar.
No início, a mãe achou
estranho quando Biba começou a dizer que a amava.
Depois de tudo o que havia
acontecido entre as duas, aquelas palavras pareciam inesperadas.
Talvez a mãe se tivesse
habituado à distância.
Talvez tivesse aprendido
a conviver com o silêncio.
Talvez não soubesse como
reagir perante aquela nova postura da filha.
Certa vez, depois de uma
conversa, a mãe perguntou:
— Biba, porque estás a
dizer isso agora?
Biba ficou em silêncio
durante alguns segundos.
Não queria responder com
palavras ensaiadas.
Queria falar com
sinceridade.
— Porque percebi que não
quero continuar a viver presa ao que aconteceu entre nós.
A mãe olhou para ela.
— Mas depois de tudo?
Biba respirou fundo.
— Depois de tudo. Ainda
há coisas que me doem, mãe. Ainda existem lembranças difíceis. Mas Deus está a
ensinar-me a perdoar e a amar sem fingir que nada aconteceu.
A mãe não respondeu
imediatamente.
Biba percebeu que talvez
ela também não soubesse como lidar com aquela mudança.
Durante muito tempo, a
relação entre as duas fora marcada por mágoas, incompreensões e palavras que
ficaram por dizer.
Agora, Biba aproximava-se
de uma maneira diferente.
Não se aproximava para
cobrar.
Não se aproximava para
acusar.
Não se aproximava para
exigir que a mãe reconhecesse tudo o que havia feito.
Aproximava-se porque o
Espírito Santo estava a trabalhar no seu coração.
No início, a mãe
desconfiou.
Pensou que aquela mudança
pudesse durar pouco.
Talvez Biba estivesse
apenas emocionada com a igreja.
Talvez fosse uma fase.
Talvez, depois de algum
tempo, voltasse a ser como antes.
Mas os dias passaram.
E Biba continuou
diferente.
Quando surgia uma
discussão, já não respondia da mesma maneira.
Quando se sentia magoada,
procurava orar antes de falar.
Quando percebia que
estava prestes a agir por impulso, parava e perguntava a si mesma:
— Espírito Santo, o que
queres ensinar-me nesta situação?
A insegurança que durante
tantos anos dominara Biba começou a desaparecer.
Já não precisava de
provar o seu valor o tempo todo.
Já não precisava de
agradar a todos.
Já não precisava de
responder a cada crítica.
Já não precisava de viver
com medo de ser rejeitada.
Biba começou a
compreender que a sua identidade não dependia da opinião das pessoas.
Era filha de Deus.
E essa certeza começou a
trazer segurança ao seu coração.
A Bíblia ensina que o
domínio próprio é um dos frutos do Espírito Santo.
Biba começou a
experimentá -lo na prática.
Antes, qualquer palavra
podia fazê-la perder o controlo.
Uma crítica podia
tirar-lhe a paz.
Uma lembrança podia
fazê-la reagir com raiva.
Uma desilusão podia
levá-la a tomar decisões precipitadas.
Mas agora havia algo
diferente dentro dela.
Continuava a sentir
emoções.
Ainda se entristecia.
Ainda se irritava.
Ainda enfrentava dias
difíceis.
A diferença era que já
não permitia que cada emoção decidisse por ela.
Biba estava a aprender a
sentir sem ser governada pelo que sentia.
Estava a aprender a
esperar antes de responder.
A pensar antes de agir.
A orar antes de decidir.
A ouvir antes de julgar.
A Bíblia diz:
“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.”
Biba leu esse texto
várias vezes.
Percebeu que o domínio
próprio não significava tornar-se uma pessoa fria ou sem sentimentos.
Significava permitir que
o Espírito Santo conduzisse as suas reações.
Era aprender a não ser
escrava da raiva.
A não ser controlada pelo
medo.
A não ser dominada pela
ansiedade.
A não agir sempre de
acordo com os impulsos.
Biba começou a entender
que o Espírito Santo era seu amigo, seu professor e seu consolador.
Como amigo, estava sempre
presente.
Como professor,
ensinava-lhe o caminho certo.
Como consolador,
permanecia com ela nos momentos de dor.
Quando Biba se sentia
sozinha, lembrava-se de que não estava abandonada.
Quando não sabia o que
fazer, pedia direção.
Quando se sentia fraca,
buscava força em Deus.
Começou a entregar a sua
vida ao Espírito Santo.
Não apenas as grandes
decisões, mas também as pequenas.
Entregava-Lhe as palavras
que iria dizer.
As pessoas com quem iria
conversar.
Os lugares que
frequentaria.
As escolhas que faria.
Os pensamentos que alimentaria.
Certa manhã, antes de
sair de casa, Biba ajoelhou-se junto à cama.
— Espírito Santo,
entrego-Te este dia. Influencia as minhas decisões. Ensina-me a falar.
Ensina-me a ouvir. Não permitas que eu seja guiada pelo medo ou pela raiva.
Quero que a minha vida reflita a Tua presença.
Depois daquela oração,
Biba não se tornou perfeita.
Ainda enfrentou
tentações.
Ainda teve vontade de
responder mal.
Ainda houve momentos em
que se sentiu insegura.
Mas agora reconhecia a
voz de Deus, chamando-a a uma atitude diferente.
Certa tarde, a mãe
ligou-lhe, preocupada.
— Biba, aconteceu uma
coisa aqui em casa.
Antes, talvez Biba
tivesse ficado nervosa ou reagido com desespero.
Mas, dessa vez, ouviu com
atenção.
— Conta-me o que
aconteceu, mãe.
A mãe explicou a situação.
Biba fez algumas
perguntas, pensou durante alguns instantes e respondeu:
— Vamos resolver isso com
calma. Não precisamos de entrar em pânico.
A mãe ficou em silêncio.
Depois perguntou:
— Tu estás diferente.
Biba sorriu.
— Deus está a
transformar-me.
A partir daquele momento,
a mãe começou a contar com ela.
Tudo o que acontecia em
casa era comunicado a Biba.
Se havia um problema,
ligava-lhe.
Se precisava de ajuda,
procurava-a.
Se alguém da família
estava doente, Biba era uma das primeiras pessoas a saber.
A mãe começou a perceber
que a filha não estava apenas a falar sobre mudança.
Estava realmente
transformada.
Biba já não era conhecida
apenas pelas dificuldades que havia enfrentado.
Agora era reconhecida
pela maneira como reagia perante elas.
A mãe começou a confiar
nela.
E essa confiança
aproximou as duas.
Não aconteceu tudo de uma
vez.
Ainda existiam assuntos
delicados.
Ainda havia conversas que
precisavam de cuidado.
Ainda havia momentos em
que discordavam.
Mas agora havia respeito.
Havia disposição para
ouvir.
Havia vontade de
permanecerem próximas.
Biba passou a visitar a
mãe com mais frequência.
Às vezes, sentavam-se
juntas para conversar.
Outras vezes, apenas
partilhavam uma refeição.
Nem sempre falavam sobre
o passado.
Nem sempre precisavam de
explicar tudo.
A presença uma da outra
começou a ser suficiente.
Certa noite, enquanto
estavam sentadas na sala, a mãe perguntou:
— Biba, o que aconteceu
contigo?
Biba olhou para ela.
— O que queres dizer?
— Estás mais calma. Mais
segura. Parece que tens uma força diferente.
Biba sorriu.
— Eu não fiz isso
sozinha.
— Então quem fez?
— O Espírito Santo.
A mãe ficou pensativa.
Biba continuou:
— Ainda tenho muito para
aprender. Ainda erro. Ainda tenho dias difíceis. Mas agora não estou a tentar
mudar apenas com a minha força. Entreguei a minha vida a Deus e deixei que o
Espírito Santo influenciasse as minhas decisões.
A mãe baixou os olhos.
— Eu não sabia que era
possível mudar tanto.
— Eu também não sabia —
respondeu Biba. — Mas Deus faz coisas que nós não conseguimos fazer sozinhos.
A transformação de Biba
também começou a alcançar o restante da família.
Ela tornou-se uma
intercessora.
Orava pela mãe.
Orava pelos filhos.
Orava pelos irmãos.
Orava pelos pais dos seus
filhos.
Orava pelos familiares
que estavam distantes.
Orava por aqueles que
enfrentavam problemas.
Orava até por pessoas que
um dia a tinham julgado.
No início, algumas
orações eram difíceis.
Havia nomes que ainda
despertavam lembranças dolorosas.
Mas Biba continuava:
— Senhor, abençoa essa
pessoa. Cura o coração dela. Dá-lhe sabedoria. Ajuda-a a encontrar-Te.
Às vezes, depois de orar,
chorava.
Não porque quisesse
voltar a viver o passado, mas porque percebia que Deus a estava a libertar da
necessidade de vingança.
Já não queria que as
pessoas sofressem apenas porque a tinham feito sofrer.
Queria que Deus
transformasse todos os corações.
Certa madrugada, Biba
acordou preocupada com um dos seus filhos.
Sentou-se na cama e
começou a orar:
— Senhor, guarda o meu
filho. Protege os seus passos. Dá-lhe sabedoria. Livra-o de más companhias e de
decisões que possam destruí-lo.
Depois orou pelos outros
filhos.
Orava pela saúde deles.
Pela vida emocional.
Pelo futuro.
Pelas escolhas.
Pelos relacionamentos.
Também orava pelos pais
dos seus filhos.
— Senhor, dá-lhes sabedoria
para serem bons pais. Cura as feridas deles. Ajuda-os a cumprir as
responsabilidades que lhes cabem.
Biba percebeu que orar
por eles não significava negar os erros que haviam cometido.
Significava entregar a
Deus aquilo que ela não conseguia controlar.
Não podia mudar o coração
de ninguém.
Mas podia interceder.
Podia pedir que Deus
agisse.
Podia escolher não
alimentar o ódio.
Aos poucos, Biba
tornou-se uma mulher sábia.
Não porque soubesse todas
as respostas.
Não porque nunca errasse.
Mas porque aprendera a
buscar a direção de Deus antes de tomar decisões.
As pessoas começaram a
notar.
Algumas perguntavam:
— Como é que a Biba se
tornou aquela mulher?
Outras queriam saber:
— O que aconteceu
contigo?
— Como conseguiste mudar
tanto?
— O que fizeste para
alcançar essa transformação?
Biba não respondia
dizendo que era forte.
Não dizia que tinha
conseguido sozinha.
Não atribuía a mudança à
sua própria capacidade.
Respondia:
— Foi a presença do
Espírito Santo.
Algumas pessoas queriam
saber mais.
— Mas o que fizeste?
— Comecei a entregar a
minha vida a Deus. Aprendi a ouvir a Sua voz e a permitir que o Espírito Santo
influenciasse as minhas decisões.
— E isso foi suficiente
para mudar tudo?
Biba pensava durante
alguns segundos.
— Não aconteceu tudo de
uma vez. Precisei de aprender, obedecer, pedir perdão, recomeçar e confiar. Mas
a presença do Espírito Santo começou a transformar aquilo que eu não conseguia
transformar sozinha.
Algumas pessoas começaram
a perguntar sobre a igreja.
— Onde congregas?
— Quem te ensinou?
— O que existe naquele
lugar que mudou a tua vida?
Biba aproveitava cada
oportunidade para falar de Deus.
Não queria que as pessoas
admirassem apenas a sua mudança.
Queria que conhecessem
Aquele que a havia transformado.
— A igreja ajudou-me a
ouvir a Palavra — dizia ela. — Mas foi Deus quem começou a trabalhar dentro de
mim. O Espírito Santo mostrou-me quem eu era, quem podia tornar-me e quem Deus
queria que eu fosse.
Biba já não precisava de
esconder a sua história.
Não tinha vergonha de
dizer que fora insegura.
Que muitas vezes reagira
mal.
Que tomara decisões
erradas.
Que carregara mágoas.
Que vivera momentos de
medo e confusão.
A sua história não era
perfeita.
Mas agora tinha um novo
sentido.
As feridas que antes eram
motivo de vergonha tornaram-se testemunho da graça de Deus.
Certa vez, uma mulher que
conhecia parte do seu passado aproximou-se dela.
— Ouvi dizer que estás
diferente.
Biba sorriu.
— Estou a aprender.
— Mas como conseguiste
deixar tudo aquilo para trás?
Biba respondeu com
sinceridade:
— Eu não deixei tudo para
trás sozinha. Levei tudo a Deus. E o Espírito Santo começou a tratar o meu
coração.
A mulher ficou em
silêncio.
— Eu também preciso dessa
transformação — disse ela.
Biba segurou-lhe a mão.
— Então começa por falar
com Deus com sinceridade. Não precisas de fingir que está tudo bem. Ele conhece
a tua dor. Entrega-Lhe a tua vida e permite que Ele te ensine.
Biba não se considerava
superior a ninguém.
Sabia que ainda estava em
processo.
Todos os dias precisava
de escolher confiar.
Todos os dias precisava
de vigiar os seus pensamentos.
Todos os dias precisava
de permitir que o Espírito Santo conduzisse as suas atitudes.
Mas agora havia uma
diferença fundamental:
Biba já não queria viver
de acordo com a antiga natureza.
Queria viver de acordo
com a vontade de Deus.
Quando sentia vontade de
responder com agressividade, lembrava-se da mansidão.
Quando queria desistir,
lembrava-se da fidelidade.
Quando a ansiedade
surgia, buscava a paz.
Quando se sentia fraca,
lembrava-se de que o Espírito Santo era o seu consolador.
Quando precisava de tomar
uma decisão, pedia sabedoria.
E, pouco a pouco, a sua
vida começou a refletir o fruto do Espírito.
O amor começou a
substituir a indiferença.
A paz começou a ocupar o
lugar da confusão.
A paciência começou a
vencer a impulsividade.
A bondade começou a
aparecer nas suas atitudes.
A fidelidade começou a
fortalecer os seus compromissos.
A mansidão começou a
mudar a maneira como respondia.
E o domínio próprio
começou a governar as suas escolhas.
Certa noite, Biba voltou
para casa depois de um dia cansativo.
Havia enfrentado
problemas, recebido críticas e ouvido palavras que poderiam tê-la ferido
profundamente.
Mas, em vez de reagir
como antes, entrou no quarto, fechou a porta e ajoelhou-se.
— Espírito Santo, preciso
de Ti.
Ficou em silêncio.
Depois continuou:
— Não quero voltar a ser
quem era. Não quero que a raiva decida por mim. Não quero que o medo conduza a
minha vida. Ensina-me a responder de acordo com a Tua vontade.
Biba permaneceu ali
durante alguns minutos.
Não ouviu uma voz
audível.
Não viu nada de
extraordinário.
Mas sentiu paz.
Uma paz que não dependia
das circunstâncias.
Uma paz que lhe dizia que
Deus estava presente.
Levantou-se e decidiu não
responder naquele momento às mensagens que havia recebido.
Esperaria até estar
tranquila.
No dia seguinte,
respondeu com respeito e firmeza.
Não permitiu que a
ferissem novamente, mas também não respondeu com ódio.
Naquele momento, percebeu
que o domínio próprio não era fraqueza.
Era força sob controlo.
Era a capacidade de
escolher uma resposta diferente.
Era permitir que o
Espírito Santo tivesse a última palavra.
A aproximação com a mãe
continuou a crescer.
Certa manhã, a mãe
ligou-lhe apenas para conversar.
Não havia nenhum
problema.
Não precisava de ajuda.
Queria apenas ouvir a voz
da filha.
— Biba, como estás?
— Estou bem, mãe. E tu?
— Também estou.
Conversaram durante algum
tempo.
Depois, a mãe disse:
— Queria dizer-te uma
coisa.
— Diz.
— Ainda não entendo
completamente o que aconteceu contigo. Mas percebo que estás diferente.
Biba ficou em silêncio.
— Vejo a maneira como
tratas os teus filhos. Vejo como te preocupas com os teus irmãos. Vejo como
oras pelas pessoas. E percebo que não estás a fingir.
As lágrimas começaram a
aparecer nos olhos de Biba.
— Obrigada, mãe.
— Eu também quero
aprender a aproximar-me de Deus.
Biba respirou fundo.
— Posso orar contigo.
A mãe aceitou.
Naquele dia, as duas
fizeram uma oração juntas.
Não foi uma oração longa.
Não foi perfeita.
Mas foi sincera.
Biba agradeceu a Deus pela
vida da mãe.
Pediu cura para as
feridas do passado.
Pediu sabedoria para as
duas.
Pediu que o amor fosse
reconstruído entre elas.
Quando terminaram,
ficaram alguns segundos em silêncio.
Depois, a mãe disse:
— Eu amo-te, Biba.
Biba fechou os olhos.
Durante muitos anos,
desejara ouvir aquelas palavras.
Agora, ao ouvi-las, não
sentiu necessidade de cobrar o passado.
Apenas respondeu:
— Eu também te amo, mãe.
A relação entre as duas
não se tornou perfeita.
Mas tornou-se verdadeira.
Havia espaço para
conversar.
Para pedir perdão.
Para recomeçar.
Para aprender a amar de
uma maneira nova.
Biba compreendeu que o
Espírito Santo não transformava apenas as suas palavras.
Transformava a maneira
como via as pessoas.
A mãe já não era apenas a
pessoa que a havia ferido.
Era também uma mulher que
precisava de cura.
Os pais dos seus filhos
já não eram apenas pessoas que a haviam desiludido.
Eram pessoas que também
precisavam de Deus.
Os irmãos já não eram
apenas parte da sua história.
Eram vidas pelas quais
podia interceder.
Até aqueles que a tinham
julgado passaram a ser incluídos nas suas orações.
Biba não justificava o
que haviam feito.
Mas já não queria
carregar o peso da condenação.
Aprendera que o Espírito
Santo podia dar-lhe amor sem ingenuidade, perdão sem ausência de limites e
sabedoria sem orgulho.
Certa vez, alguém
perguntou:
— Biba, nunca mais ficas
insegura?
Ela sorriu.
— Às vezes ainda sinto
insegurança. A diferença é que agora não permito que ela governe a minha vida.
— E quando sentes medo?
— Oro.
— E quando tens vontade
de desistir?
— Lembro-me de que o
Espírito Santo está comigo.
— E quando não sabes o
que fazer?
— Peço sabedoria.
A pessoa ficou pensativa.
— Então a transformação
não significa nunca mais ter problemas?
— Não. Significa não
enfrentar os problemas da mesma maneira. Deus não prometeu que eu nunca teria
lutas. Prometeu que estaria comigo no meio delas.
Biba aprendera que a
presença do Espírito Santo não eliminava todos os desafios.
Mas mudava a maneira como
os enfrentava.
Continuava a ter responsabilidades.
Ainda precisava de cuidar
dos filhos.
Ainda enfrentava
dificuldades financeiras.
Ainda lidava com pessoas
complicadas.
Ainda tinha dias de
cansaço.
Mas agora não estava
sozinha.
O Espírito Santo era seu
amigo nas caminhadas difíceis.
Seu professor nas
decisões.
Seu consolador nas
lágrimas.
Seu guia nos momentos de
dúvida.
Seu ajudador nas
tentações.
Seu defensor quando era
injustamente acusada.
Seu companheiro em todos
os momentos.
Biba entregava a sua vida
diariamente.
— Espírito Santo,
transforma-me.
Essa tornou-se uma das
suas orações mais frequentes.
Não pedia apenas que Deus
mudasse as circunstâncias.
Pedia que mudasse o seu
coração.
— Transforma a minha
maneira de pensar.
Transforma a minha
maneira de falar.
Transforma a minha
maneira de amar.
Transforma a minha
maneira de perdoar.
Transforma a minha
maneira de decidir.
Transforma a minha
maneira de reagir.
Transforma-me por
completo.
E Deus continuava a
trabalhar.
Não de forma apressada.
Não de maneira
superficial.
Mas profundamente.
Biba percebeu que a
verdadeira transformação não era tornar-se alguém que nunca enfrentava
problemas.
Era tornar-se alguém que,
mesmo enfrentando problemas, continuava a escolher Deus.
Já não era a mulher
insegura que precisava da aprovação de todos.
Já não era a mulher
dominada pela raiva.
Já não era a mulher presa
ao passado.
Já não era a mulher que
tomava decisões apenas para sobreviver.
Agora era uma mulher
guiada pelo Espírito Santo.
Uma mulher que sabia
pedir ajuda.
Uma mulher que sabia
esperar.
Uma mulher que sabia
dizer não.
Uma mulher que sabia
perdoar sem negar a verdade.
Uma mulher que sabia amar
sem abandonar a prudência.
Uma mulher que sabia orar
por aqueles que a tinham ferido.
Uma mulher que aprendera
a viver com domínio próprio.
E, acima de tudo, uma
mulher que compreendera que a transformação não vinha dela.
Vinha da presença de
Deus.
Naquela noite, Biba
ajoelhou-se junto à cama.
A casa estava silenciosa.
Os filhos dormiam.
A mãe estava bem.
A família continuava a
enfrentar desafios, mas agora havia esperança.
Biba fechou os olhos e
orou:
— Espírito Santo,
obrigada porque não desististe de mim. Obrigada porque me ensinaste a amar, a
perdoar e a confiar. Obrigada porque foste meu amigo quando me senti sozinha,
meu professor quando não sabia o que fazer e meu consolador quando chorei.
Continua a transformar-me. Não permitas que eu volte a viver como antes. Guia
as minhas decisões e usa a minha vida para abençoar a minha família.
Depois ficou em silêncio.
Sentiu paz.
Não porque tudo estivesse
resolvido.
Mas porque sabia que Deus
estava presente.
Biba aprendera que a
transformação era um processo diário.
Todos os dias precisava
de se entregar novamente.
Todos os dias precisava
de ouvir.
Todos os dias precisava
de obedecer.
Todos os dias precisava
de permitir que o Espírito Santo produzisse o Seu fruto dentro dela.
E, enquanto fazia isso, a
sua vida continuava a mudar.
A mãe aproximava-se.
A família encontrava nela
uma intercessora.
Os filhos viam uma mulher
mais segura.
Os irmãos reconheciam a
sua sabedoria.
Alguns que a haviam
julgado começaram a perguntar como tinha mudado.
E Biba continuava a
responder:
— Foi a presença do
Espírito Santo.
Porque sabia que, sem
Ele, talvez ainda estivesse presa ao medo, à raiva e à insegurança.
Mas, com Ele, encontrara
uma nova maneira de viver.
Uma vida de amor.
De paz.
De domínio próprio.
De sabedoria.
De perdão.
De esperança.
Biba não era perfeita.
Mas estava a ser
transformada.
E essa transformação não
era apenas para ela.
Era também para a sua
mãe.
Para os seus filhos.
Para os seus irmãos.
Para os pais dos seus
filhos.
Para a sua família.
Para aqueles que um dia a
julgaram.
Para todos os que Deus
colocasse no seu caminho.
Porque, quando o Espírito
Santo entra verdadeiramente numa vida, não transforma apenas o interior.
Começa a alcançar tudo à
sua volta.
E Biba finalmente
compreendeu:
não precisava de tentar
transformar-se sozinha.
Precisava apenas de se
entregar ao Espírito Santo e permitir que Ele dissesse:
“Eu transformo-te.”
CAPÍTULO 18
QUANDO DEUS MUDA A
HISTÓRIA
Durante muito tempo, Biba
olhou para a sua própria história e enxergou fracassos.
Havia capítulos que
preferia não recordar. Havia escolhas que ainda lhe causavam vergonha, feridas
que demoraram a cicatrizar e consequências que precisaria carregar por muito
tempo.
Mas agora havia algo
diferente.
Biba começava a perceber
que uma história difícil não significa uma história terminada.
Deus estava escrevendo
novas páginas.
Ela já não era a mulher
que vivia apenas tentando sobreviver. Estava aprendendo a viver com propósito.
Biba continuava
preocupada com os seus quatro filhos. Queria vê-los crescer de uma maneira
diferente daquela que ela própria havia crescido. Queria trabalhar, construir
uma vida digna e mostrar-lhes, através das suas atitudes, que era possível
recomeçar.
E havia outra coisa que
começava a ocupar um lugar importante na sua vida: Servir a
Deus .
Biba continuava
frequentando a igreja. Participava das orações, dos estudos bíblicos e, sempre
que podia, envolvia-se em pequenos trabalhos sociais.
Às vezes ajudava alguém
com alimentos.
Outras vezes visitava uma
pessoa que estava passando por dificuldades, visitava doentes no hospital e
dava uma palavra de fé e esperança.
Quando encontrava alguém
triste, procurava uma palavra de encorajamento.
Ela não tinha muito para
oferecer, mas havia aprendido que nem sempre precisamos ter muito para fazer o
bem.
Uma palavra pode levantar
alguém.
Uma oração pode
fortalecer um coração.
Um gesto de amor pode
lembrar a uma pessoa que ela não está sozinha.
Biba estava começando a
perceber que Deus também podia usar a sua história para alcançar outras
pessoas.
Ela, que um dia precisou
tanto de alguém que a escutasse, agora estava aprendendo a escutar.
Ela, que um dia precisou
de uma palavra de esperança, agora começava a oferecer esperança aos outros.
Sem perceber, a mulher
que havia sido tão marcada pelas suas próprias feridas começava a tornar-se
instrumento de consolo para pessoas feridas.
Foi nesse período que
apareceu Mateus.
Ele não chegou à vida de
Biba procurando uma mulher.
Também carregava uma
história.
Mateus havia perdido a
esposa num acidente trágico. A perda tinha deixado dentro dele um vazio difícil
de explicar.
Havia dias em que
conseguia seguir normalmente. Trabalhava, conversava com as pessoas e tentava
manter a rotina.
Mas, quando ficava
sozinho, a saudade voltava.
Havia perguntas sem
respostas.
Havia lembranças.
Havia silêncio.
E, acima de tudo, havia
uma dor que ele ainda estava tentando compreender.
Mateus também estava numa
jornada de transformação.
Precisava de cura para a
alma, consolo para o coração e alguém que pudesse ouvi-lo sem julgá-lo.
Foi assim que, através da
igreja e das atividades que Biba realizava, os dois acabaram se conhecendo.
No início, não havia
qualquer intenção de romance.
Biba não estava
procurando um parceiro.
Depois de tudo o que havia vivido, ela
tinha aprendido a não entregar o seu coração simplesmente porque alguém
demonstrava interesse.
Agora queria primeiro cuidar da sua vida,
dos seus filhos e da sua caminhada com Deus.
Mateus, por sua vez, precisava de tempo
para reconstruir a própria vida depois da perda.
Certa vez, durante uma conversa, Mateus
falou sobre a dificuldade que sentia desde a morte da esposa.
Biba ouviu atentamente.
Não tentou dar respostas para aquilo que nem
ela mesma conseguiria explicar.
Apenas disse:
— Às vezes, não entendemos
por que certas coisas acontecem. Mas podemos pedir a Deus que nos sustente
enquanto atravessamos aquilo que não conseguimos compreender.
Mateus ficou em silêncio.
Aquelas palavras tocaram-lhe
profundamente.
Biba continuou:
— Eu também já passei por momentos em que
pensei que a minha história tinha acabado. Mas descobri que Deus pode começar
algo novo justamente quando pensamos que não há mais esperança.
Mateus perguntou:
— E como conseguimos continuar quando a
dor é muito grande?
Biba respondeu:
— Um dia de cada vez. E com
Deus.
A partir daquele momento, começaram a
conversar mais.
Uma palavra levou a outra.
Uma conversa levou a uma oração.
Uma oração levou a um estudo bíblico.
E, pouco tempo depois, surgiu a ideia de
criarem um pequeno grupo de estudo da Bíblia e oração.
Não era um grupo para falar apenas de
doutrina.
Era um espaço para pessoas compartilharem
lutas, aprenderem a confiar em Deus e orarem umas pelas outras.
Biba percebeu que Mateus estava
encontrando naquele grupo algo de que precisava: esperança.
E Mateus começou a perceber algo que
talvez ainda não estivesse pronto para admitir.
Ele admirava Biba.
Não pela mulher que ela havia sido.
Mas pela mulher que estava se tornando.
Via nela uma força diferente.
Via alguém que conhecia a dor, mas não
queria permanecer prisioneira dela.
Via uma mulher que havia aprendido a
perdoar.
Uma mãe que lutava pelos seus filhos.
Uma pessoa que, apesar de tudo o que havia
vivido, ainda conseguia oferecer esperança aos outros.
E, pouco a pouco, o sentimento começou a
crescer.
Mateus começou a gostar de Biba.
Mas havia uma pergunta que precisava ser
respondida:
Biba estava preparada para abrir novamente
o seu coração?
Ela havia aprendido a perdoar, mas ainda
precisava aprender a confiar.
Havia aprendido a amar a si mesma, mas
ainda precisava compreender que um novo relacionamento não deveria nascer da carência,
do medo ou da necessidade de ser salva.
Agora ela sabia que não precisava de
alguém para completar a sua vida.
Precisava continuar caminhando com Deus.
Se algum dia abrisse novamente o coração
para alguém, queria que fosse diferente.
Queria que houvesse respeito.
Amizade.
Propósito.
Fé.
Maturidade.
E, acima de tudo, queria que Deus estivesse
no centro.
Naquela noite, depois de uma reunião do
grupo de oração, Biba chegou em casa, entrou no quarto e ficou alguns minutos
em silêncio.
Pensou em Mateus.
Pensou no passado.
Pensou nos homens que haviam passado pela
sua vida e deixado feridas.
Depois olhou para o teto e fez uma oração
simples:
— Senhor, eu não quero voltar
a escolher apenas porque tenho medo de ficar sozinha. Se houver um novo
capítulo para mim, escreve Tu. Se não houver, ensina-me também a ficar em paz.
Biba havia aprendido uma coisa que antes
não compreendia:
Nem toda porta aberta deve ser
atravessada.
Algumas precisam de oração.
Algumas precisam de tempo.
E outras precisam simplesmente ser
fechadas.
Ela não sabia o que aconteceria com
Mateus.
Mas, pela primeira vez, não estava desesperada
para descobrir.
Estava aprendendo a confiar.
Porque agora sabia que a sua história não
estava mais nas mãos das circunstâncias.
Estava nas mãos de Deus.
E quando Deus muda uma história, Ele não
precisa apagar o passado.
Ele pode transformar o significado dele.
A mulher que um dia pensou que seria
conhecida apenas pelos seus fracassos começava a descobrir que poderia ser
conhecida também pela sua transformação.
E talvez Mateus não tivesse chegado por
acaso.
Talvez fosse apenas mais uma página que Deus
estava colocando diante dela.
Mas uma coisa Biba já havia decidido:
desta vez, antes de abrir o coração para
alguém, ela abriria o coração diante de Deus.
O RECOMEÇO
A história de Biba começou marcada por rejeição.
Passou pela ausência.
Conheceu a carência.
Encontrou relacionamentos dolorosos.
Conheceu a maternidade.
Enfrentou dificuldades.
Fez escolhas.
Sofreu consequências.
Foi julgada.
Mas também encontrou uma oportunidade de recomeçar.
A sua transformação não aconteceu de um dia para o outro.
Foi um caminho.
Houve lágrimas.
Houve dúvidas.
Houve quedas.
Houve momentos de medo.
Houve portas fechadas.
Houve pessoas que demoraram a acreditar.
Mas houve também fé.
Houve perdão.
Houve cura.
Houve mudança.
E houve Deus.
A história de Biba ensina-nos que não devemos definir uma pessoa apenas pelo capítulo que encontramos.
Talvez alguém esteja a viver hoje o capítulo mais difícil da sua vida.
Mas isso não significa que esse seja o último.
Por isso, antes de julgarmos, precisamos ouvir.
Antes de condenarmos, precisamos compreender.
Antes de desistirmos de alguém, precisamos lembrar que ainda pode existir um processo acontecendo dentro daquela pessoa.
E, acima de tudo, precisamos lembrar:
há pessoas que precisam de uma oportunidade para recomeçar.
Biba não pode voltar ao passado.
Não pode apagar as escolhas que fez.
Não pode mudar as pessoas que a abandonaram.
Mas pode escolher o que fará com as páginas que ainda tem pela frente.
E talvez essa seja a maior mensagem desta história:
O passado pode fazer parte da nossa história sem ser o dono do nosso futuro.
Para reflectir
Que parte da tua história ainda estás a permitir que determine quem és?
Talvez hoje seja o momento de entregar essa página a Deus.
Porque, quando Deus muda uma história, Ele não apaga o passado.
Ele transforma o significado do que virá depois.
Liandra Langa
Escritora, Mentora e Palestrante