quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PODEMOS FALAR DE RECOMEÇOS?




Dia 091026



🌱 PALAVRA QUE TRANSFORMA


PODEMOS ENTÃO FALAR DE RECOMEÇOS


E se o seu passado não fosse o fim da sua história, mas apenas o lugar de onde Deus decidiu começar algo novo?

Há pessoas que olham para o próprio passado e acreditam que já foram longe demais.

Há quem pense que os erros cometidos, as escolhas feitas ou as feridas vividas tiraram-lhes o direito de sonhar novamente.

Mas a história de Biba nos mostra exatamente o contrário.

Biba conheceu uma vida marcada por escolhas que não definiam o propósito que Deus tinha para ela. Foi prostituta, carregou um passado que poderia facilmente tornar-se uma sentença.


Mas um dia ela decidiu mudar.

Depois de se converter e começar a servir a Deus, Biba não ficou parada à espera de que a vida mudasse.

Ela começou a viver a mudança.

Começou a servir.

Começou a caminhar.

Começou a construir uma nova relação com Deus.


🌱 E é aqui que começa o verdadeiro recomeço.


Não quando tudo à nossa volta muda.

Mas quando algo dentro de nós decide não permanecer no mesmo lugar.

E quando Biba conheceu Mateus, ela já estava numa caminhada de transformação.

Mateus não foi o motivo do seu recomeço.

O recomeço já tinha começado.


Ele simplesmente apareceu durante uma caminhada que Biba já havia decidido fazer com Deus.


💡 LIÇÃO


Essa parte da história de Biba nos ensina algo muito importante:

Não espere uma pessoa, uma oportunidade ou uma circunstância para começar a viver aquilo que Deus colocou no seu coração.


Sirva enquanto espera.

Agradeça enquanto caminha.

Aprenda enquanto cresce.

Permaneça fiel enquanto o propósito ainda está sendo construído.


🙏🏽 Um coração grato não espera chegar ao destino para agradecer a Deus pela caminhada.


Biba poderia ter olhado para o que perdeu.

Poderia ter permanecido presa ao que foi.

Mas decidiu olhar para aquilo que poderia se tornar.

E isso também é recomeçar.


🌿 Recomeçar é agradecer pelo que Deus já fez enquanto confiamos n'Ele pelo que ainda fará.


💭 REFLEXÃO


Talvez você esteja esperando que alguma coisa aconteça para começar a viver.

“Quando eu tiver um relacionamento...”

“Quando eu conseguir aquele emprego...”

“Quando tiver dinheiro...”

“Quando a minha vida estiver organizada...”

Mas talvez Deus esteja dizendo:

“Comece com aquilo que já coloquei nas suas mãos.”

Não espere a vida ficar perfeita para servir.

Não espere ter tudo para agradecer.

Não espere chegar ao destino para começar a viver o propósito.


🌱 O propósito também é construído durante o caminho.


Continue servindo.

Continue aprendendo.

Continue agradecendo.

Continue caminhando.

E, acima de tudo, continue confiando em Deus.


Porque talvez aquilo que você chama de “espera” seja, na verdade, a preparação para o seu próximo capítulo.


💬 E AGORA QUERO OUVIR VOCÊ


Se você estivesse vivendo um recomeço hoje, qual destas decisões escolheria primeiro?


🙏🏽 A) Aproximar-me mais de Deus

❤️ B) Aprender a agradecer mais

🌱 C) Começar a servir com aquilo que tenho

✨ D) Descobrir e viver o meu propósito


👇🏽 Escolha uma opção e, se quiser, explique porquê.

Talvez a sua resposta seja justamente a palavra de encorajamento que alguém precisava ouvir hoje.


Biba — uma história, muitas lições.


Já leu a história da Biba, intitulada “Da Escravidão ao Recomeço”? 


Para compreender melhor este trabalho e realizar correctamente o exercício acima, recomendamos que aceda primeiro ao Blogger e leia a história na íntegra. Depois da leitura, poderá responder ao exercício proposto com base na sua compreensão e nas lições aprendidas ao longo da história.



🌷 Liandra Langa | A Voz que Transforma

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

É POSSÍVEL RECOMEÇAR

 

Dia 081026 




🌿 PALAVRA QUE TRANSFORMA


📖 É POSSÍVEL RECOMEÇAR


Ao acompanharmos a história de Biba, somos levados a pensar em quantas vezes a vida nos coloca diante de situações que parecem maiores do que a nossa própria força.


Há momentos em que olhamos para a nossa história e pensamos:

“Como vou conseguir começar de novo depois de tudo isso?”


Mas é justamente nesses momentos que precisamos lembrar:


Deus não abandona uma história porque ela passou por um capítulo difícil. 🙏🏽


Biba nos ensina que, mesmo quando não conseguimos enxergar claramente o caminho, ainda podemos dar um passo sustentados pela esperança.


🌱 Recomeçar não significa acreditar que tudo será fácil.

Significa acreditar que Deus continuará conosco enquanto atravessamos o que não conseguimos controlar.


💡 A LIÇÃO


Talvez você não possa mudar aquilo que aconteceu ontem.


Talvez não consiga compreender por que algumas coisas aconteceram.


Mas você pode escolher não caminhar sozinho.


Quando colocamos a nossa esperança em Deus, começamos a entender que o nosso futuro não depende apenas das circunstâncias que estamos vivendo hoje.


🙏🏽 Deus ainda pode escrever novos capítulos onde nós só conseguimos enxergar páginas marcadas pela dor.


A história de Biba nos lembra que uma pessoa pode estar ferida e ainda ter esperança.

Pode estar cansada e ainda continuar.

Pode não saber o que virá a seguir e, mesmo assim, confiar naquele que conhece o caminho.


💭 REFLEXÃO


Talvez você esteja vivendo hoje um capítulo que não entende.

Talvez esteja perguntando:

“Deus, quando é que isso vai mudar?”

Talvez a resposta ainda não tenha chegado.

Mas isso não significa que Deus deixou de trabalhar.


🌿 Há coisas que Deus faz no silêncio.

Há sementes que crescem debaixo da terra antes de aparecerem.

E há capítulos da nossa vida cujo propósito só conseguimos compreender depois de virarmos a página.

Por isso, não perca a esperança.


O seu capítulo atual não é o fim da sua história.

🙏🏽 Confie em Deus.

🌱 Continue caminhando.

❤️ Continue acreditando.


Porque é possível recomeçar quando colocamos o nosso futuro nas mãos de Deus.


📖 “Porque eu bem sei os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança.” (Jeremias 29:11)


💬 AGORA QUERO OUVIR VOCÊ


Quando você passa por um momento difícil, o que mais ajuda a manter a sua esperança em Deus?


🙏🏽 A oração
📖 A Palavra de Deus
❤️ O apoio de pessoas próximas
🌱 Lembrar de tudo que Deus já fez

Escolha uma opção ou partilhe connosco uma palavra de esperança.


Talvez aquilo que Deus já fez na sua vida seja justamente o testemunho que alguém precisa para não desistir hoje.



🌷 Liandra Langa | A Voz que Transforma


📖 Biba — uma história, muitas lições.








Acompanhe a história da BIBA no nosso bloguer e tire ilações que podem transformar a sua vida. 

O PASSADO NÃO É NOSSA IDENTIDADE 🪪

 



Dia 071026


🌿 PALAVRA QUE TRANSFORMA


📖 PALAVRA


Todos nós temos um passado.

Alguns capítulos nos trazem boas lembranças.

Outros preferíamos nunca ter vivido.

Há pessoas que carregam erros.

Outras carregam rejeições.

Algumas carregam abandono, decepções ou escolhas das quais se arrependem.

E, às vezes, o passado fala tão alto que começamos a acreditar:

“Eu sou assim porque sempre fui assim.”

Mas será que somos realmente obrigados a permanecer iguais?

A história de Biba nos faz pensar exatamente sobre isso.

Biba teve um passado que marcou a sua vida. Mas o passado dela não precisava ser a sentença do seu futuro.

🌱 O passado faz parte da nossa história, mas não precisa ser a nossa identidade.


💡 LIÇÃO


Existe uma diferença entre reconhecer o passado e viver preso a ele.

Reconhecer é dizer:

«“Isso aconteceu comigo.”»

Viver preso é dizer:

«“Por causa disso, eu nunca poderei mudar.”»

E são coisas muito diferentes.

Você pode reconhecer os seus erros sem continuar cometendo os mesmos erros.

Pode reconhecer as suas feridas sem permitir que elas controlem toda a sua vida.

Pode olhar para trás sem precisar voltar para lá.

🙏🏽 Deus não trabalha apenas com aquilo que fomos. Ele também trabalha com aquilo que podemos nos tornar.

Não permita que o seu capítulo mais difícil tenha autoridade para escrever o final da sua história.


💭 *REFLEXÃO* 


Imagine que a sua vida seja um livro.

Você chegou até aqui e encontrou algumas páginas que gostaria de apagar.

Mas você ainda não terminou de escrever.

📖 Se ainda existem páginas em branco, ainda existe possibilidade de escrever algo diferente.


Pergunte a si mesmo:

“Estou usando o meu passado para aprender ou estou usando o meu passado para me condenar?”

🌿 Aprender com o passado nos torna mais sábios.

Viver condenado pelo passado nos impede de enxergar o futuro.


💬 *INTERAÇÃO* 


Quero saber a sua opinião:

O que é mais difícil para uma pessoa que deseja recomeçar?

A) Perdoar a si mesma. ❤️

B) Conseguir que os outros deixem de julgá-la. 💭

C) Acreditar que realmente pode mudar. 🌱

D) Deixar o passado para trás. 🙏🏽

👇🏽 Escolha uma letra e, se quiser, explique o seu ponto de vista.


Para mais informações visite o nosso canal 👇

https://whatsapp.com/channel/0029VbEkRwNKwqSYROGtNo2W


Liandra Langa | A Voz que Transforma

terça-feira, 29 de setembro de 2026

DA ESCRAVIDÃO AO RECOMEÇO


BIBA




Versículo-chave

“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.”
— João 7:24

 



INTRODUÇÃO


Antes de julgarmos uma pessoa pela vida que leva hoje, talvez devêssemos perguntar: o que aconteceu para que ela chegasse até aqui?

Esta é a história de Biba.

Aos 28 anos, Biba é mãe de quatro filhos e vive na cidade de Mocuba, na província da Zambézia. Para muitas pessoas, ela é simplesmente uma mulher que trabalha como prostituta.

Alguns olham para a sua roupa. Outros para os lugares que frequenta. Outros para as escolhas que fez.

Poucos, porém, conhecem a menina que existiu antes daquela mulher.

Poucos sabem das perguntas que ficaram sem resposta, das feridas que começaram ainda na infância, da ausência de um pai, da falta de afecto, das relações que trouxeram mais dor do que segurança e das responsabilidades que, pouco a pouco, foram tornando a sobrevivência mais urgente do que os sonhos.

Esta história não foi escrita para justificar escolhas erradas.

Também não foi escrita para condenar Biba.

Foi escrita para mostrar que, por detrás de muitas histórias que julgamos rapidamente, existe uma história que não conhecemos.

Porque, às vezes, antes de perguntarmos:

“O que essa pessoa fez?”

precisamos perguntar:

“O que aconteceu com essa pessoa?”

A história de Biba fala de dor, escolhas, consequências, maternidade, sobrevivência, julgamento, fé, perdão e transformação.

Mas, acima de tudo, fala de uma possibilidade:

o recomeço.

Porque o passado pode explicar muitas coisas, mas não precisa necessariamente escrever a última página da nossa história.




CAPÍTULO 1


ANTES DE BIBA NASCER


Antes da Biba nascer existia uma jovem mulher cheia de sonhos.

Quando a mãe da Biba era jovem, tinha planos para a sua vida e acreditava que o futuro poderia ser promissor. Como tantas outras jovens, sonhava estudar, construir uma carreira, ter uma família e viver dias melhores.

Foi nesse período que conheceu um jovem.

O relacionamento começou como muitos outros começam: com proximidade, confiança, sentimentos e expectativas.

Mas aquela relação trouxe uma consequência que mudaria completamente a sua vida.

Ela engravidou.

A gravidez não fazia parte dos seus planos naquele momento. E, para piorar, o jovem não assumiu a responsabilidade pela criança que estava a caminho.

De repente, os sonhos daquela jovem pareciam ter sido interrompidos.

Os estudos ficaram comprometidos. Os planos precisaram ser adiados. E, juntamente com a gravidez, veio o peso da rejeição.

Ela começou a enfrentar perguntas, críticas e olhares.

Como lidaria com aquela situação?

Como criaria uma criança sozinha?

Como continuaria a estudar?

Como reconstruiria os seus sonhos?

Em meio ao desespero, tomou uma decisão que hoje carregaria consigo como uma das partes mais dolorosas da sua história.

Tentou interromper a gravidez.

Mas não conseguiu.

A vida que estava dentro dela permaneceu.

E Biba nasceu.

Ela chegou ao mundo sem saber que, antes mesmo de respirar pela primeira vez, já existia uma história complicada ao seu redor.

Não tinha escolhido nascer.

Não tinha escolhido a ausência do pai.

Não tinha escolhido as dificuldades da mãe.

Não tinha escolhido as circunstâncias que marcaram os seus primeiros dias.

Ela simplesmente nasceu.

E talvez esta seja uma das primeiras verdades que precisamos compreender sobre qualquer ser humano:

uma criança nunca deve carregar a culpa pelas circunstâncias que antecederam o seu nascimento.

A mãe de Biba também sofreu.

Ser uma jovem mãe solteira trouxe-lhe rejeição, frustração e sonhos interrompidos. E uma pessoa ferida nem sempre consegue oferecer aos outros o amor que gostaria de oferecer.

Foi assim que, sem perceber, a dor da mãe começou a alcançar a filha.

Biba cresceu dentro de uma realidade que não compreendia completamente.

Ainda era pequena demais para entender os problemas dos adultos.

Mas crianças percebem quando são desejadas.

Percebem quando são acolhidas.

E também percebem quando existe distância.

Talvez Biba não soubesse explicar o que sentia.

Mas alguma coisa dentro dela começava a perguntar:

“Por que eu não recebo o amor que preciso?”

A resposta para essa pergunta demoraria muitos anos para aparecer.


“Pois tu formaste o meu interior; tu me teceste no ventre de minha mãe.”
— Salmos 139:13

 

Biba não era um acidente aos olhos de Deus.

Mesmo quando os seres humanos não conseguem compreender uma história, Deus continua a conhecer a vida desde o princípio.

E aquela criança, que começou a vida cercada por rejeição e incerteza, ainda teria muitas páginas para viver.

Mas as primeiras marcas já estavam a ser formadas.




CAPÍTULO 2


UMA INFÂNCIA SEM O AMOR QUE PRECISAVA


Biba cresceu.

A infância deveria ser um lugar de segurança, carinho e descoberta.

Mas nem sempre foi assim.

A sua mãe carregava as próprias feridas. Tinha perdido oportunidades, enfrentado rejeição e precisado reconstruir a vida depois de uma gravidez que não fazia parte dos seus planos.

E, embora Biba não tivesse culpa de nada disso, acabou crescendo no meio das consequências.

Havia momentos em que a mãe cuidava dela.

Mas havia também momentos em que Biba sentia falta de algo que não sabia nomear.

Faltava-lhe aquela certeza interior de que era amada.

Ela observava outras crianças e, algumas vezes, perguntava-se por que a sua realidade parecia diferente.

Enquanto crescia, uma pergunta silenciosa começou a acompanhá-la:

“Será que alguém realmente me ama?”

Quando uma criança cresce sem receber a confirmação de que é importante, pode passar muitos anos procurando essa confirmação nos lugares errados.

Biba ainda não sabia disso.

Ela apenas queria sentir-se escolhida.

Queria sentir que alguém permaneceria.

Queria ouvir palavras que lhe dissessem:

“Tu és importante.”

Mas aquilo que não recebeu dentro de casa começaria, mais tarde, a procurar fora dela.

E essa procura influenciaria muitas das suas escolhas.


“Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá.”
Salmos 27:10

 

Talvez Biba ainda não conhecesse profundamente essa verdade.

Mas Deus já conhecia a menina que procurava amor.

E a história dela ainda estava apenas a começar.




CAPÍTULO 3


A AUSÊNCIA DO PAI


A ausência do pai foi uma das marcas mais profundas da infância de Biba.

Não era apenas a falta de uma pessoa dentro de casa.

Era a ausência de uma presença que ela desejava conhecer.

Havia perguntas que nunca receberam respostas.

Quem era ele?

Por que não ficou com a sua mãe ?

Porque nunca a procurou?

Será que algum dia pensou nela?

Será que ela era importante para ele?

À medida que Biba crescia, essas perguntas também cresciam.

Uma criança pode aprender a viver sem aquilo que não tem, mas isso não significa que a ausência não deixe marcas.

Biba aprendeu a seguir em frente.

Mas, dentro dela, continuava existindo um espaço que desejava ser preenchido.

E, mais tarde, quando começou a relacionar-se com homens, talvez não estivesse apenas à procura de um companheiro.

Talvez procurasse também, sem perceber, a sensação de segurança e aceitação que lhe faltara.

Queria alguém que ficasse.

Alguém que dissesse:

“Eu estou aqui.”

Mas nem sempre encontrou isso.

Algumas relações trouxeram decepções.

Outras trouxeram abandono.

E algumas deixaram feridas ainda mais profundas.

A ausência do pai não determinava quem Biba seria.

Mas influenciou a forma como ela passou a olhar para o amor, para o abandono e para o seu próprio valor.

“Pai dos órfãos e juiz das viúvas é Deus, no seu lugar santo.”
  Salmos 68:5


A ausência humana não significa ausência de Deus.

Mas Biba ainda precisaria de tempo para descobrir isso.




CAPÍTULO 4


OS RELACIONAMENTOS


Biba queria ser amada.

Queria ter alguém ao seu lado.

Queria sentir que finalmente pertencia a uma família onde houvesse segurança e permanência.

Por isso, os relacionamentos passaram a ocupar um espaço importante na sua vida.

Ela acreditava que talvez, através de uma relação, encontrasse aquilo que sempre procurara.

Mas algumas das pessoas em quem depositou confiança acabaram por feri-la.

Vieram decepções.

Vieram traições.

Vieram momentos de violência.

Vieram promessas que não foram cumpridas.

E, depois de cada partida, permanecia a mesma pergunta:

“O que há de errado comigo?”

Quando alguém nos abandona repetidamente, podemos começar a acreditar que o problema está no nosso próprio valor.

Biba começou a carregar essa sensação.

Ela queria amor, mas encontrava instabilidade.

Queria segurança, mas encontrava medo.

Queria uma família, mas encontrava relações que não permaneciam.

E, com o passar do tempo, a situação tornou-se ainda mais complexa.

Biba tornou-se mãe.

Agora já não estava apenas a lutar pelas próprias necessidades.

Existiam outras vidas que dependiam dela.

E algumas necessidades não podiam esperar.


“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.”
Provérbios 4:23


Mas como guardar um coração que já tinha sido ferido tantas vezes?

Biba ainda precisaria aprender isso.

E a próxima fase da sua vida traria uma responsabilidade ainda maior.




CAPÍTULO 5


OS FILHOS


Biba tornou-se mãe de quatro filhos.

Cada criança trouxe consigo uma nova responsabilidade, mas também uma razão para continuar.

A maternidade não lhe trouxe apenas momentos de alegria.

Trouxe também preocupações.

Havia alimentação.

Havia roupa.

Havia educação.

Havia cuidados.

Havia protecção.

Havia tantas necessidades que, muitas vezes, pareciam maiores do que os recursos disponíveis.

Os relacionamentos não lhe tinham proporcionado a estabilidade que esperava. Alguns homens partiram, mas as responsabilidades permaneceram.

Os filhos continuavam a precisar dela.

E Biba precisava encontrar uma forma de continuar.

Ser mãe significava que não podia simplesmente desistir.

Mesmo cansada, precisava levantar-se.

Mesmo sem respostas, precisava procurar soluções.

Mesmo ferida, precisava continuar.

A maternidade tornou-se uma das maiores responsabilidades da sua vida.

Mas, ao mesmo tempo, as necessidades foram crescendo e as possibilidades diminuindo.

E chegou um momento em que Biba precisou tomar decisões difíceis para conseguir dinheiro.

Foi nesse contexto que a sobrevivência começou a falar mais alto.


“Eis que os filhos são herança do Senhor.”
    Salmos 127:3


Biba ainda cometeria escolhas que trariam consequências.

Mas, antes de julgarmos essas escolhas, precisamos conhecer o caminho que a levou até elas.




CAPÍTULO 6


QUANDO A SOBREVIVÊNCIA FALOU MAIS ALTO


As necessidades não paravam.

Biba precisava de dinheiro.

As responsabilidades aumentavam e as oportunidades pareciam cada vez mais limitadas. tentava encontrar alternativas e nada dava certo. 

Foi nesse contexto que começou a prostituir-se.

No início, aquilo podia parecer apenas uma forma de conseguir dinheiro.

Uma solução para uma necessidade imediata.

Mas aquilo que começa como uma tentativa de sobrevivência pode, com o tempo, transformar-se numa rotina.

E a rotina pode começar a parecer uma identidade.

Biba passou a conviver com olhares, comentários e julgamentos.

Algumas pessoas viam apenas a mulher que se prostituía.

Mas por trás daquela mulher existia uma história.

Existia uma infância marcada por carência.

Existia a ausência de um pai.

Existiam relações dolorosas.

Existiam responsabilidades.

Existiam escolhas.

E existiam consequências.

Isso não significa dizer que todas as suas escolhas estavam certas.

Significa reconhecer que as escolhas humanas acontecem dentro de histórias concretas.

Biba havia chegado a um lugar que talvez, anos antes, jamais tivesse imaginado.

E agora precisava aprender a viver dentro daquela realidade.




CAPÍTULO 7


A ROTINA DE BIBA


Todos os dias tinham praticamente o mesmo começo.

Biba saía e dirigia-se para uma zona próxima de restaurantes e bares, onde procurava clientes.

À volta do meio-dia, o movimento começava a aumentar.

Alguns homens apareciam sozinhos.

Outros chegavam acompanhados.

Alguns demonstravam interesse imediatamente.

Outros simplesmente passavam.

Havia dias em que conseguia vários clientes.

Havia dias em que conseguia apenas alguns.

E havia dias em que não conseguia nenhum.

Mas mesmo quando não havia dinheiro, as necessidades continuavam.

O dia terminava, mas as preocupações não.

Biba precisava continuar a procurar uma maneira de sustentar a casa.

Foi assim que aquela rotina se tornou parte da sua vida.

Até que, num determinado dia, algo aconteceu.

Um homem que já a conhecia aproximou-se.

Biba pensou que ele fosse mais um cliente.

Mas aquele encontro seria diferente.

Muito diferente.




CAPÍTULO 8


O ENCONTRO QUE A FEZ FALAR


Naquele dia, Biba estava cansada.

Precisava de dinheiro e esperava conseguir algum cliente.

Foi então que viu aquele homem aproximar-se.

Ela já o conhecia de vista.

Por isso, quando ele se aproximou, imaginou que sabia o motivo.

Depois de conversarem, Biba levou-o consigo.

Quando ele perguntou o preço, ela respondeu.

Precisava daquele dinheiro.

Precisava inclusive de comprar comida.

Mas, inesperadamente, o homem disse:

— Eu não vim aqui para aquilo que estás a pensar.

Biba ficou confusa.

— Então vieste fazer o quê?

Ele respondeu que queria conversar com ela.

Queria ajudá-la.

Queria mostrar-lhe que a vida podia ser diferente.

Falou-lhe sobre Deus.

Falou-lhe sobre dignidade.

Falou-lhe sobre a possibilidade de recomeçar.

Biba não estava preparada para ouvir aquilo.

Durante muito tempo, as pessoas tinham olhado para ela como uma profissão.

Aquele homem estava a olhar para ela como pessoa.

E, pela primeira vez em muito tempo, Biba sentiu que alguém queria ouvir a sua história antes de condená -la.

Os olhos encheram-se de lágrimas.

— Tu não sabes a minha história — disse ela.

Ele respondeu:

— Então conta-me.

E Biba começou a falar.

Naquele momento, uma porta foi aberta.

Não era a porta de um quarto.

Era a porta da sua história.




CAPÍTULO 9


A CONFISSÃO DE BIBA


Biba respirou fundo.

Durante anos, tinha aprendido a esconder muita coisa.

Mas naquele momento sentiu que podia falar.

Contou sobre a infância.

Falou da ausência do pai.

Falou da relação difícil com a mãe.

Falou dos relacionamentos que não deram certo.

Falou das traições.

Falou da violência.

Falou dos homens que partiram.

Falou dos filhos.

Falou das dificuldades.

E falou da prostituição.

Não tentou apresentar-se como vítima perfeita.

Também reconheceu que tinha feito escolhas.

Mas explicou que muitas dessas escolhas aconteceram quando se sentia sem alternativas.

— Eu estou cansada — disse.

O homem permaneceu em silêncio.

Ela continuou:

— As pessoas olham para mim e acham que conhecem a minha vida. Mas ninguém sabe o que eu vivi.

Naquele dia, Biba percebeu uma coisa importante:

ser ouvida pode ser o início de uma mudança.

Ela ainda não sabia como mudaria.

Ainda não sabia se conseguiria.

Mas, pela primeira vez, começou a imaginar que talvez existisse outro caminho.


“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.”
— 1 Pedro 5:7

 

A história que Biba escondia começava finalmente a ser colocada diante de alguém.

E, depois de contar a sua história, surgiu uma pergunta:

Quem era, afinal, a mulher por trás daquela profissão?




CAPÍTULO 10


A MULHER POR TRÁS DA PROSTITUTA


Antes de ser prostituta, Biba tinha sido uma criança.

Antes de ser mãe, tinha sido filha.

Antes de aprender a sobreviver, tinha sido uma menina que precisava de amor.

Antes de usar o corpo para ganhar dinheiro, tinha aprendido a lidar com feridas emocionais.

Isso não apaga as escolhas que fez.

Mas ajuda a compreender a pessoa por trás delas.

Biba não era apenas aquilo que fazia.

Era também aquilo que tinha vivido.

Era uma mulher marcada por experiências difíceis, mas ainda capaz de escolher novos caminhos.

Compreender a história de alguém não significa aprovar todas as suas decisões.

Significa reconhecer que seres humanos são mais complexos do que os rótulos que colocamos sobre eles.

Foi por isso que aquele encontro começou a produzir uma pergunta dentro dela:


“Será que ainda posso tornar-me uma pessoa diferente?”

Talvez essa fosse a primeira pergunta de um novo capítulo.


“Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.”
— João 7:24

 

Biba ainda tinha muito a enfrentar.

E uma das maiores preocupações dizia respeito aos seus filhos.




CAPÍTULO 11


E OS FILHOS DE BIBA?


Até aqui, conhecemos a história de Biba.

Mas existe uma parte da história que não pode ser ignorada:

as crianças que cresceram ao lado dela.

Os filhos de Biba não escolheram as circunstâncias em que nasceram.

Não escolheram as dificuldades económicas.

Não escolheram os relacionamentos dos pais.

Não escolheram os julgamentos da sociedade.

E não escolheram o passado da mãe.

Ainda assim, cresceram dentro dessa realidade.

Uma criança precisa de alimento, educação, protecção e afecto.

Precisa também de oportunidades para construir o próprio futuro.

As dificuldades vividas dentro de uma família podem deixar marcas.

Mas uma história difícil não precisa determinar para sempre a história de uma nova geração.

Ciclos podem ser interrompidos.

Feridas podem ser tratadas.

Padrões podem ser quebrados.

E Biba ainda podia fazer escolhas diferentes.

Não podia apagar o passado.

Mas podia procurar ajuda.

Podia buscar novas oportunidades.

Podia aprender novas formas de educar.

Podia ensinar aos filhos valores diferentes.

Podia mostrar-lhes que dificuldades não determinam quem eles serão.


Um dia, talvez os seus filhos olhassem para trás e perguntassem:

“Que mulher foi a nossa mãe?”

A resposta não precisaria ser apenas sobre aquilo que ela tinha sido.

Poderia também falar sobre aquilo em que ela se tornou.


“Eis que os filhos são herança do Senhor.”
— Salmos 127:3

 

A mudança de Biba não seria apenas sobre ela.

Poderia alcançar a geração que vinha depois dela.




CAPÍTULO 12


UM NOVO CAPÍTULO


Depois daquele encontro, Biba começou a pensar de maneira diferente.

Talvez a vida pudesse mudar.

Talvez existisse uma oportunidade.

Talvez Deus ainda tivesse algo para fazer na sua história.

Mas pensar diferente não era suficiente.

Ela precisaria tomar decisões diferentes.

Precisaria enfrentar os próprios medos.

Precisaria procurar oportunidades.

Precisaria reconstruir a sua vida pouco a pouco.

O homem que conversara com ela não prometeu que seria fácil.

Também não disse que as pessoas esqueceriam imediatamente o passado.

Disse apenas que um novo caminho podia começar.

Biba tinha 28 anos.

Ainda havia muito que aprender.

Ainda havia muito que reconstruir.


Mas também havia tempo para escrever novas páginas.


“Eis que faço uma coisa nova; agora sairá à luz.”
— Isaías 43:19

 

Biba começou a compreender que recomeçar não significa fingir que o passado nunca aconteceu.

Significa decidir que o passado não terá a última palavra.

Mas logo descobriria que querer mudar e conseguir que os outros acreditassem nessa mudança eram duas coisas diferentes.




CAPÍTULO 13


AFINAL, QUEM É BIBA?


Quem é Biba?

É fácil responder olhando apenas para aquilo que ela fazia.

Mas a história mostrou que existe muito mais.

Biba é uma mulher que teve uma infância difícil.

É uma filha que cresceu sem a presença do pai.

É uma mulher que procurou amor em relacionamentos que lhe trouxeram dor.

É mãe de quatro filhos.

É alguém que tomou decisões difíceis.

É alguém que enfrentou consequências.

É alguém que sobreviveu.

E é também alguém que começou a desejar uma mudança.

A sua história não pode ser reduzida a uma única palavra.

Porque nenhuma pessoa é apenas o seu pior momento.

Compreender Biba não significa dizer que tudo o que ela fez estava certo.

Significa reconhecer que, por trás das escolhas, existem experiências, necessidades, feridas e responsabilidades.

E talvez a pergunta mais importante não seja apenas:

“O que Biba fez?”

Mas também:

“Quem Biba ainda pode tornar-se?”


“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.”
— Romanos 3:23

 

Se todos precisamos de graça, então talvez também precisemos aprender a olhar para os outros com mais humanidade.

A mudança de Biba estava apenas a começar.

E o primeiro grande teste viria quando ela tentasse reconstruir a própria vida diante de uma sociedade que ainda se lembrava do seu passado.




CAPITULO  14 

QUANDO O PASSADO NAO QUER DEIXAR IR

Biba decidiu que precisava mudar.

Depois daquele encontro, alguma coisa dentro dela havia despertado.

Ela sabia que não seria fácil. Sabia que o passado não desapareceria de um dia para o outro. Sabia também que precisava encontrar outra forma de sustentar os seus quatro filhos.

Por isso, começou a procurar trabalho.

Certo dia, ouviu falar de uma vaga numa pequena empresa.

Não era um trabalho dos seus sonhos.

Mas, para Biba, aquela oportunidade significava muito mais do que um salário.

Significava uma porta.

Uma possibilidade de começar novamente.

Na noite anterior à entrevista, Biba separou cuidadosamente a roupa que usaria.

Olhou para si mesma no espelho.

Durante alguns segundos, ficou em silêncio.

Talvez aquela fosse uma das primeiras vezes em muito tempo que se olhava não como a mulher que as pessoas conheciam nas ruas, mas como a mulher que desejava tornar-se.

— Eu vou conseguir — disse baixinho.

No dia seguinte, levantou-se cedo.

Arrumou os filhos e saiu.

Durante o caminho, imaginava como seria receber aquele emprego.

Pensava no primeiro salário.

Pensava na comida dos filhos.

Pensava em deixar para trás as noites difíceis.

Pensava em poder dizer:

“Eu consegui mudar.”

Quando chegou ao local da entrevista, sentou-se e esperou.

O coração batia forte.

Finalmente chamaram o seu nome.

Biba entrou.

Respondeu às perguntas.

Falou das suas capacidades.

Falou da sua disposição para trabalhar.

Falou que precisava daquela oportunidade e que estava disposta a aprender.

Por alguns minutos, tudo parecia correr bem.

Até que uma das pessoas que estava na sala fez uma pergunta que Biba não esperava:

— Você é a Biba que trabalha naquela zona?

Ela ficou imóvel.

O sorriso desapareceu lentamente do seu rosto.

Biba sabia exatamente do que aquela pessoa estava falando.

— Sim... sou eu.

O ambiente mudou.

Houve silêncio.

A pessoa olhou para os outros e depois voltou a olhar para Biba.

— Nós ouvimos algumas coisas sobre você.

Biba baixou os olhos.

— Eu sei que tenho um passado — respondeu.

— A questão é que precisamos de alguém em quem possamos confiar.

Aquelas palavras atingiram Biba profundamente.

Confiar.

Era exatamente isso que ela estava tentando reconstruir.

— Eu posso trabalhar — disse ela. — Eu realmente quero trabalhar. Estou tentando mudar a minha vida.

Mas a decisão parecia já estar tomada.

— Sentimos muito, mas decidimos não seguir com a sua candidatura.

Biba ficou alguns segundos sem saber o que dizer.

Levantou-se.

Agradeceu pela oportunidade.

Saiu.

E só conseguiu manter-se firme até atravessar a porta.

Depois, caminhou sem destino.

As lágrimas começaram a cair.

Não chorava apenas porque tinha perdido um emprego.

Chorava porque tinha perdido algo muito maior:

a esperança de que alguém acreditasse que ela podia ser diferente.

Sentou-se num lugar afastado e levou as mãos ao rosto.

— Até quando? — perguntou entre lágrimas.

— Até quando vão me julgar pelo que eu fui?

Naquele momento, percebeu que mudar de vida seria muito mais difícil do que imaginava.

Ela podia decidir abandonar o passado.

Mas não podia obrigar as pessoas a esquecê-lo.

Podia pedir uma oportunidade.

Mas não podia obrigar ninguém a oferecê-la.

Podia demonstrar arrependimento.

Mas não podia exigir confiança imediata.

E essa talvez fosse uma das partes mais dolorosas do recomeço:

quando você muda, algumas pessoas continuam tratando você como a pessoa que você era.

Biba voltou para casa naquele dia com as mãos vazias.

Os filhos estavam na expectativa de ouvir novidades sobre a candidatura que a mãe fez. Daí perguntaram:

— Mamã, conseguiu o trabalho?

Ela olhou para eles.

Tentou sorrir.

Mas não conseguiu.

— Ainda não.

Entrou no quarto.

Fechou a porta.

E chorou.

Naquele momento o passado falou mais alto. Por alguns minutos, pensou em voltar para aquilo que conhecia.

Pensou que talvez fosse inútil tentar. As pessoas não a entendiam.

Pensou que talvez as pessoas tivessem razão.

Mas então ouviu os filhos brincando do lado de fora.

Levantou-se.

Olhou para eles.

E percebeu que não podia desistir.

Talvez ninguém acreditasse nela ainda.

Mas ela precisava começar acreditando em si mesma.

Daí teve a coragem de abrir a Bíblia que recebeu.

Enquanto folheava a bíblia, seus olhos encontraram estas palavras:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” 2 Coríntios 5:17

Biba ficou olhando para o versículo.

As coisas velhas tinham passado?

Talvez, para algumas pessoas, ainda não.

Mas para ela, aquele precisava ser o começo de uma nova caminhada.

Ela compreendeu que o recomeço não seria provado por uma entrevista.

Nem por uma única decisão.

Seria provado pelos dias seguintes.

Pelas escolhas.

Pela perseverança.

Pela maneira como trataria os filhos.

Pela maneira como enfrentaria as dificuldades.

Pela maneira como continuaria caminhando quando ninguém acreditasse nela.

Biba enxugou as lágrimas.

Naquele dia, não conseguiu o emprego.

Mas também não desistiu do recomeço.

Porque descobriu uma verdade difícil:

às vezes, as pessoas precisam de tempo para acreditar na mudança que Deus já começou a fazer dentro de nós.

E Biba decidiu dar tempo.

Não para convencer todos.

Mas para permitir que a sua nova vida falasse mais alto do que o seu antigo passado.

O emprego tinha sido recusado.

Mas o recomeço, não.

 



CAPITULO 15


UMA NOVA CAMINHADA – A CURA DA ALMA

 

Biba decidiu que precisava de mais do que uma mudança exterior.

Precisava de ser transformada por dentro.

Depois da entrevista, compreendeu que não bastava abandonar os lugares, os hábitos e as pessoas do passado. Havia feridas na sua alma que ainda precisavam de ser tratadas. Havia pensamentos que precisavam de ser renovados. Havia lembranças que ainda tentavam dizer-lhe quem era.

Biba queria ser uma nova criatura.

Mas percebeu que não conseguiria fazê-lo sozinha.

Certo dia enquanto fazia limpeza na sua casa, chegou uma vizinha que acompanhava a transformação da Biba em silêncio. Nunca havia lhe dirigido sequer uma palavra. Mas naquele dia convidou-a para participar numa reunião na sua  igreja.

— Biba se você quiser podemos ir  a igreja hoje — disse ela. — Talvez encontre ali a força de que precisa. Tenho acompanhado tudo e vejo que você precisa de ajuda para conseguir avançar. Sozinha você não vai conseguir.

Biba hesitou.

Durante muito tempo, sentira-se distante de Deus.

Achava que não era digna de entrar numa igreja.

Pensava que as pessoas a julgariam da mesma forma que todas as outras.

— Não sei se aquele é o meu lugar — respondeu.

A vizinha sorriu.

— A igreja não é um lugar para pessoas perfeitas. É um lugar para pessoas que precisam de Deus.

Aquelas palavras ficaram no coração de Biba, mas não afastaram imediatamente o medo. Pelo contrário, fizeram-na pensar em tudo o que carregava. E se Deus realmente a visse como ela era? E se, ao entrar naquela igreja, todas as suas culpas se tornassem ainda mais evidentes? Parte dela desejava acreditar que ainda podia recomeçar; outra parte dizia-lhe que já tinha ido longe demais para ser recebida.

Naquela noite, Biba ficou acordada durante algum tempo, olhando para o teto. Pensou na sua vida, nas escolhas que fizera e nas consequências que ainda enfrentava. Perguntou-se se uma pessoa como ela poderia realmente aproximar-se de Deus sem ser rejeitada. Não tinha respostas. Apenas uma inquietação profunda e uma pequena esperança, quase tímida, que começava a nascer dentro dela.

No domingo seguinte, depois de arrumar os filhos, vestiu uma roupa simples e saiu.

Caminhou até à igreja com o coração apertado.

A cada passo, pensava em voltar. Sentia as mãos frias e o estômago contraído. Imaginava que todos reparariam nela, que perceberiam imediatamente que não pertencia àquele lugar. Por alguns instantes, chegou a pensar que talvez fosse melhor continuar sozinha, sem correr o risco de ser novamente julgada.

Mas continuou.

Quando entrou, os irmãos que estavam na porta sorriram e desejaram boas vindas.

Outras cumprimentaram-na normalmente como uma irmã na casa do Senhor.

Alguns conheciam a sua vida na prostituição mas ninguém lhe perguntou sobre isso.

Ninguém a fez sentir que precisava de esconder quem era.

Biba sentou-se no último banco.

Queria passar despercebida.

Sentou-se com os ombros tensos, mantendo os olhos baixos. Ainda esperava que alguém se aproximasse para lhe fazer perguntas ou para medir a sua vida pelos seus erros. Cada sorriso que recebia deixava-a desconfiada, porque não estava habituada a ser acolhida sem que lhe exigissem nada em troca. Mesmo assim, havia algo naquele ambiente que não conseguia explicar. Não se sentia completamente segura, mas também já não se sentia tão sozinha.

Durante o louvor, ficou em silêncio.

As pessoas cantavam, levantavam as mãos e oravam.

Ela limitava-se a observar.

As palavras dos cânticos pareciam falar de entrega, perdão e confiança. Biba conhecia algumas delas, mas não conseguia cantá-las. Como poderia dizer que confiava em Deus quando ainda tremia diante do futuro? Como poderia falar de paz quando dentro dela havia tantas lembranças, medos e perguntas? Preferiu permanecer calada, sentindo-se quase uma intrusa entre pessoas que pareciam saber exatamente como se aproximar de Deus.

Mas, pouco a pouco, sentiu algo diferente dentro de si.

Não era uma emoção passageira.

Era como se uma paz começasse a tocar num lugar da sua alma que há muito tempo estava ferido.

A princípio, Biba tentou resistir àquela sensação. Disse a si mesma que talvez fosse apenas o ambiente, a música ou o cansaço. Mas, enquanto ouvia as pessoas orarem, sentiu os olhos arderem. Havia anos que não permitia que ninguém se aproximasse das partes mais dolorosas do seu coração. Naquele momento, sem que ninguém lhe tocasse, sentiu como se Deus estivesse a aproximar-se justamente dessas feridas.

Quando chegou o momento da pregação da Palavra, Biba começou a prestar atenção e ouvia atentamente a mensagem.

O pastor falou sobre a graça de Deus.

Falou sobre arrependimento.

Falou sobre recomeços.

Falou sobre pessoas que carregavam culpas antigas e acreditavam que nunca poderiam ser transformadas.

Biba sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.

Parecia que aquelas palavras tinham sido preparadas para ela.

Enquanto ouvia, lutava contra a vontade de chorar. Cada frase parecia alcançar uma lembrança que ela tentava manter escondida. Pensou nas vezes em que se sentira indigna, nas portas que se fecharam e nas pessoas que a reduziram ao seu passado. Perguntou-se se seria possível que Deus conhecesse tudo aquilo e, ainda assim, não a abandonasse.

— Deus não olha apenas para aquilo que você foi — disse o pastor. — Ele também vê aquilo em que você pode tornar-se quando entrega a sua vida a Ele.

Biba baixou a cabeça.

Durante anos, acreditara que o seu passado era uma sentença.

Naquele momento, começou a compreender que, nas mãos de Deus, o passado podia tornar-se um testemunho.

Ainda não conseguia acreditar completamente. A esperança parecia grande demais para alguém que se habituara a esperar o pior. Mas, pela primeira vez, permitiu-se imaginar que talvez a sua história não terminasse nos erros que cometera. Talvez Deus não estivesse a ignorar o seu passado, mas a mostrar-lhe que ele não precisava de ser o seu destino.

No final do culto, uma irmã aproximou-se dela.

— É a sua primeira vez aqui?

Biba assentiu.

— Sim.

— Seja bem-vinda. Como se chama?

— Biba.

A mulher segurou-lhe as mãos.

— Biba, saiba que Deus a ama.

Aquelas palavras pareciam simples.

Mas, para Biba, significavam muito.

Estava acostumada a ser lembrada pelos seus erros.

Naquele lugar, alguém estava a lembrar-lhe que também era amada.

Por alguns segundos, Biba não conseguiu responder. Sentiu a garganta apertar e as lágrimas descerem pelo rosto. Quis dizer que não merecia aquele amor, que havia coisas sobre si que aquela mulher não conhecia. Mas percebeu que, talvez, fosse precisamente isso que tornava aquelas palavras tão importantes. Não eram baseadas no que ela conseguira fazer ou provar. Eram oferecidas antes de qualquer explicação.

Ao sair da igreja, Biba caminhou devagar. O mundo à sua volta parecia o mesmo, mas algo dentro dela tinha mudado. Os problemas continuavam à espera em casa, as dificuldades não tinham desaparecido e o passado não fora apagado. Ainda assim, levava consigo uma pergunta que não a abandonava: e se Deus realmente pudesse fazer uma obra na sua vida?

A partir daquele dia, Biba começou a frequentar a igreja.

No início, sentava-se sempre no mesmo lugar.

Chegava calada e saía calada.

Mas continuava a voltar.

A cada reunião, aprendia algo novo.

Aprendeu que confiar em Deus não significava deixar de enfrentar problemas.

Significava não os enfrentar sozinha.

Aprendeu que a fé não era a ausência de medo.

Era continuar a caminhar mesmo quando o medo aparecia.

Aprendeu que Deus não exigia que tivesse todas as respostas.

Apenas pedia que desse o passo seguinte.

Mesmo assim, havia dias em que Biba entrava na igreja cheia de dúvidas. Às vezes, perguntava-se se estava realmente a mudar ou se apenas procurava um alívio momentâneo. Outras vezes, sentia vergonha por ainda ter pensamentos antigos e por continuar a lutar com sentimentos que julgava já dever ter vencido. Mas começava a compreender que Deus não se afastava dela por causa das suas lutas. Talvez a transformação não fosse provar que já não tinha fraquezas, mas aprender a levá-las para Deus.

Certa noite, depois de deitar os filhos, Biba sentou-se à mesa.

Sentiu uma forte necessidade de visitar as sagradas escrituras. 

Abriu a Bíblia novamente, não sabia por onde começar.

As palavras pareciam difíceis de compreender.

Alguns textos pareciam distantes da sua realidade.

Mesmo assim, decidiu continuar.

Leu algumas linhas.

Depois, leu um capítulo.

No dia seguinte, voltou a ler.

Aos poucos, a Bíblia começou a tornar-se parte da sua rotina.

Biba acordava cedo, antes dos filhos, e reservava alguns minutos para ler a Palavra.

Depois, fechava os olhos e orava.

No começo, as suas orações eram curtas.

— Deus, ajuda-me.

— Dá-me força.

— Protege os meus filhos.

— Ensina-me a confiar em Ti.

Por vezes, depois de dizer aquelas palavras, ficava em silêncio, sem saber o que acrescentar. Sentia-se estranha a falar com alguém que não podia ver. Também tinha medo de estar a orar de forma errada, de não usar as palavras certas ou de não ter fé suficiente. Mas, pouco a pouco, percebeu que Deus não parecia exigir discursos perfeitos. Bastava que fosse sincera.

Com o tempo, começou a falar com Deus sobre tudo.

Falava sobre os seus medos.

Falava sobre a rejeição.

Falava sobre a culpa.

Falava sobre a vontade de desistir.

Falava sobre o desejo de ser uma boa mãe.

Falava sobre a necessidade de encontrar trabalho.

E, pela primeira vez, sentia que podia abrir completamente o coração sem ser condenada.

Nas suas orações, Biba começou a dizer coisas que nunca tivera coragem de dizer a ninguém. Confessava que ainda sentia raiva, que tinha medo de falhar novamente e que, em alguns dias, não conseguia ver esperança. Às vezes, chorava antes de terminar. Outras vezes, ficava apenas sentada, com as mãos juntas, sem encontrar palavras. Mesmo nesses momentos, sentia que o silêncio também podia ser uma oração.

A oração tornou-se o lugar onde Biba conseguia respirar.

Era como se, a cada palavra, retirasse um pouco do peso que carregava.

Começou a perceber que a sua alma precisava de ser lavada.

Não apenas das lembranças dolorosas, mas também da vergonha, da amargura, da raiva e das mentiras em que tinha acreditado acerca de si mesma.

Durante muito tempo, pensara:

“Eu não tenho valor.”

“Eu nunca vou mudar.”

“Ninguém vai acreditar em mim.”

“Deus não pode querer alguém como eu.”

Mas a Palavra começou a substituir aquelas vozes.

No início, Biba não conseguia aceitar facilmente aquilo que lia. Quando encontrava promessas de perdão, perguntava-se se poderiam realmente aplicar-se a ela. Quando lia sobre amor, lembrava-se de todas as vezes em que fora rejeitada. Quando lia sobre uma nova vida, sentia medo de criar expectativas e voltar a dececionar-se. Ainda assim, continuava a ler. Cada verdade precisava de tempo para criar raízes num coração acostumado a acreditar no contrário.

Biba aprendeu que não era definida pelos seus erros.

Aprendeu que o arrependimento podia abrir caminho para uma nova vida.

Aprendeu que Deus podia restaurar aquilo que parecia perdido.

Aprendeu que a transformação não acontecia de uma só vez.

Acontecia todos os dias.

Em cada escolha.

Em cada oração.

Em cada pensamento entregue a Deus.

Em cada tentação vencida.

Em cada atitude diferente daquelas que costumava ter.

Certa manhã, enquanto lia, encontrou estas palavras:

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus  
(Romanos 12:2)

Biba ficou em silêncio.

Compreendeu que Deus não queria apenas mudar aquilo que as pessoas viam.

Queria renovar a sua mente.

Queria limpar o seu coração.

Queria ensinar-lhe uma nova maneira de viver.

Leu o versículo várias vezes. Pensou em quantas ideias sobre si mesma tinham sido repetidas durante anos, até parecerem verdades impossíveis de questionar. Talvez a renovação da mente começasse justamente ali: aprendendo a desconfiar das vozes que sempre a condenaram e dando espaço à voz de Deus. Ainda não sabia como fazer isso todos os dias, mas desejou aprender.

A velha Biba ainda tentava aparecer.

Às vezes, quando era contrariada, sentia vontade de responder com agressividade.

Quando enfrentava dificuldades, pensava em voltar aos antigos caminhos.

Quando alguém a julgava, sentia a raiva crescer dentro dela.

Mas agora havia algo diferente.

Antes de agir, lembrava-se daquilo que estava a aprender.

Respirava.

Orava.

Buscando discernimento.

Pedia sabedoria.

Nem sempre conseguia vencer.

Mas já não desistia quando falhava.

Voltava para Deus.

Pedia perdão.

Levantava-se.

E continuava.

Depois de cada falha, Biba sentia vergonha e perguntava-se se tinha estragado tudo. Por vezes, pensava que Deus se cansaria dela, tal como tantas pessoas se tinham cansado. Mas, ao voltar à oração, descobria que ainda podia aproximar-se. Deus a escutava e as respostas fluiam em sua mente. Essa descoberta não eliminava o arrependimento, mas impedia que a culpa a afastasse novamente. Começava a entender que pedir perdão não era voltar ao ponto de partida; era continuar o caminho com mais humildade.

Na igreja, o pastor viu o esforço que a Biba fazia para se tornar efectivamente em uma nova criatura e abriu portas para ela fazer algum trabalho social. Biba começou a servir.

Ajudava a organizar as cadeiras.

Participava nas reuniões de oração.

Levava os filhos aos cultos.

Conversava com outras mulheres.

Aos poucos, deixou de se sentar sempre no último banco.

Começou a sentir que pertencia àquele lugar.

Não porque fosse perfeita.

Mas porque estava a ser transformada.

Nas reuniões de oração, Biba ainda se sentia insegura. Quando ouvia outras pessoas orarem com confiança, comparava-se e pensava que as suas próprias palavras eram pobres. Algumas vezes, limitava-se a ouvir, com os olhos fechados, tentando acompanhar as orações. Outras vezes, sentia vontade de chorar sem saber exatamente porquê. Havia dores que ainda não conseguia explicar, mas que pareciam encontrar espaço quando estava na presença de Deus.

Um dia, depois de uma reunião, uma das irmãs disse-lhe:

— Biba, vejo algo diferente em si.

Ela sorriu, sem saber o que responder.

— Ainda tenho muito para mudar.

— Todos nós temos — respondeu a irmã. — Mas Deus já começou uma obra na sua vida.

Biba guardou aquelas palavras no coração.

Naquela noite, ao chegar a casa, olhou para os filhos.

Eles estavam a brincar no chão.

A casa era simples.

As dificuldades ainda existiam.

Ainda não tinha conseguido o emprego que procurava. Mas já fazia pequenos negócios para conseguir suprir as necessidades básicas.

Continuava a enfrentar olhares desconfiados.

Ainda carregava marcas do passado.

Mas já não era a mesma mulher.

Agora, quando o medo batia à porta, orava.

Quando a tristeza chegava, lia a Palavra.

Quando a culpa tentava dominá-la, lembrava-se da graça.

Quando pensava em desistir, lembrava-se de que Deus ainda estava a trabalhar nela.

Biba compreendeu que a desintoxicação da alma não acontecia de um dia para o outro.

Era um processo.

Assim como o corpo precisava de tempo para eliminar aquilo que lhe fazia mal, a alma também precisava de tempo para se libertar das velhas dores, dos velhos pensamentos e dos velhos caminhos.

A cada dia, Deus lavava um pouco mais do seu coração.

Lavava a culpa.

Lavava a vergonha.

Lavava a amargura.

Lavava o medo.

E, no lugar dessas coisas, começava a colocar paz, esperança, fé e amor.

Biba sabia que a velha vida ainda tentaria chamá-la.

Mas agora conhecia uma verdade:

a velha criatura não precisava de controlar a nova vida que Deus estava a formar nela.

Não seria transformada apenas pela força da sua vontade.

Seria transformada pela presença de Deus, pela oração e pela Palavra.

Naquela noite, Biba ajoelhou-se ao lado da cama.

Os filhos já dormiam.

Começou a orar profundamente:

— Senhor, lava a minha alma. Tira de mim tudo aquilo que ainda pertence à velha vida. Ensina-me a confiar em Ti. Ajuda-me a viver como uma nova criatura. Não permitas que o meu passado comprometa aquilo que estás a fazer em mim.

Depois de dizer aquelas palavras, Biba permaneceu ajoelhada. Sentia vontade de pedir muitas outras coisas, mas também sentia medo de encarar tudo o que ainda precisava de ser entregue. Pensou na culpa que continuava a carregar, nas pessoas que talvez nunca acreditassem na sua mudança e nas partes de si mesma que ainda não conseguia perdoar. Por alguns instantes, perguntou-se se Deus teria paciência para esperar por ela.

Então, em vez de tentar esconder as dúvidas, falou com sinceridade:

— Senhor, eu quero confiar, mas ainda tenho medo. Quero mudar, mas às vezes não sei como. Ajuda-me a não voltar atrás quando me sentir fraca.

Depois, ficou alguns minutos em silêncio.

Nesse silêncio, não encontrou respostas para todas as perguntas. Os problemas continuavam presentes, e o futuro permanecia incerto. Mas sentiu que já não precisava de resolver tudo naquela noite. Pela primeira vez em muito tempo, conseguiu descansar sem exigir de si mesma uma força que ainda não possuía.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu paz.

Não porque todos os problemas tivessem desaparecido.

Mas porque já não precisava de os carregar sozinha.

Biba levantou-se.

Abriu a Bíblia mais uma vez.

E leu:

Cria em mim um coração puro, ó Deus,
e renova dentro de mim um espírito estável.
(Salmos 51:10)

Sorriu entre lágrimas.

A sua história ainda não estava terminada.

O passado ainda existia.

Mas já não era o seu senhor.

Biba estava a aprender a confiar em Deus.

Estava a aprender a orar.

Estava a aprender a viver pela Palavra.

E, dia após dia, a sua alma era lavada.

A velha criatura ainda tentava falar.

Mas a nova vida começava a falar mais alto.

Biba não estava apenas a mudar de caminho.

Estava a ser transformada por Deus.




CAPITULO 16 

O PERDÃO

A caminhada de Biba com Deus começava a mudar muitas coisas dentro dela.

Ela já não era a mesma mulher que havia entrado naquela igreja pela primeira vez.

Estava aprendendo a orar.

Estava aprendendo a confiar.

Estava aprendendo a ler a Palavra.

Estava aprendendo que Deus podia dar-lhe uma nova vida.

Mas havia uma área do seu coração que Biba ainda não conseguia entregar completamente.

O perdão.

Ela conseguia falar sobre Deus.

Conseguia orar.

Conseguia pedir perdão pelos próprios erros.

Mas quando se lembrava das pessoas que a tinham ferido, algo dentro dela endurecia.

Havia nomes que ainda doíam.

Nomes que traziam lembranças.

Nomes que despertavam lágrimas.

Nomes que ela preferia nunca mais ouvir.

Entre eles estava o nome da sua própria mãe.

E também estavam os pais dos seus filhos.

Pessoas que, de diferentes maneiras, tinham deixado marcas profundas na sua história.

Certo domingo, durante o culto, o pastor anunciou um propósito especial.

O tema seria:

PERDÃO.

A proposta era simples, mas desafiadora.

Cada pessoa deveria escrever os nomes daqueles que mais a tinham magoado.

Depois, durante um período de oração, deveria apresentar essas pessoas a Deus e liberar perdão.

Não se tratava de dizer que o que aconteceu estava certo.

Não significava esquecer.

Também não significava necessariamente voltar a conviver com pessoas que poderiam continuar a fazer mal.

Era entregar a Deus aquilo que ainda prendia o coração.

E, para aqueles que se sentissem preparados, havia um desafio ainda maior:

procurar a pessoa pessoalmente ou fazer uma ligação para dizer:

“Eu escolho perdoar-te.”

Biba ouviu tudo em silêncio.

Quando recebeu o papel, segurou a caneta.

Olhou para a folha.

Mas não escreveu nada.

Seu coração começou a acelerar.

Como poderia escrever aqueles nomes?

Como poderia perdoar pessoas que tinham causado algumas das suas maiores dores?

Pensou na mãe.

Lembrou-se da infância.

Lembrou-se da sensação de rejeição.

Lembrou-se de todas as vezes em que desejou receber carinho e sentiu que não o tinha recebido da maneira que precisava.

Depois pensou nos pais dos seus filhos.

Vieram à memória as promessas quebradas, as decepções, os abandonos e as responsabilidades que acabaram ficando sobre os seus ombros.

Biba apertou a caneta.

Não conseguiu escrever.

Dobrou o papel e colocou-o dentro da Bíblia.

Naquele dia, decidiu não participar do propósito.

Mas o pastor percebeu que alguma coisa estava acontecendo.

No final do culto, aproximou-se dela.

— Biba, posso conversar contigo?

Ela assentiu.

Sentaram-se num lugar mais reservado.

— Eu percebi que este propósito mexeu contigo.

Biba ficou alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu:

— Pastor, eu não consigo.

— O quê?

— Perdoar.

As lágrimas começaram a aparecer.

— O senhor não sabe o que fizeram comigo.

O pastor não a interrompeu.

Biba continuou:

— Eu passei anos tentando sobreviver. Passei anos carregando coisas que não escolhi. E agora querem que eu simplesmente perdoe?

Ela enxugou o rosto.

— Eu não consigo esquecer.

O pastor respondeu com calma:

— Biba, ninguém está a pedir que finjas que não aconteceu.

Ela levantou os olhos.

— Então o que significa perdoar?

— Significa deixar de permitir que aquilo que fizeram contigo continue a controlar o teu coração.

Biba permaneceu em silêncio.

O pastor continuou:

— Perdoar não é dizer que fizeram o certo. Não é negar a dor. Não é necessariamente voltar a confiar na pessoa. E também não significa permitir que alguém volte a ferir-te.

Fez uma pausa.

— Perdoar é entregar a Deus aquilo que já não queres continuar carregando.

Biba respirou profundamente.

Ainda não estava convencida.

Então o pastor falou de Jesus.

Falou sobre a cruz.

Falou daquele momento em que Jesus foi crucificado, mesmo sem ter cometido pecado.

E lembrou-lhe das palavras:

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” 
Lucas 23:34

Biba ficou em silêncio.

Pensou na cruz.

Pensou em Jesus.

Pensou no quanto havia sido ferida.

E, pela primeira vez, percebeu que o perdão não seria apenas um desafio para aquelas pessoas.

Seria um desafio para ela.

— Pense nisso — disse o pastor. — Não precisa responder agora. Ore. Converse com Deus. Deixe que Ele trate o seu coração.

Biba assentiu.

— Eu vou pensar.

Naquela noite, Biba entrou no quarto.

Fechou a porta.

Os filhos já dormiam.

A casa estava silenciosa.

Ela sentou-se na cama.

Durante alguns minutos, ficou apenas olhando para o chão.

Depois começou a chorar.

Não era um choro comum.

Era como se todas as dores que ela havia guardado durante anos tivessem encontrado uma saída.

Biba começou a falar com Deus.

— Senhor...

A voz falhou.

Ela respirou fundo.

— Eu não sei se consigo.

Começou a lembrar-se da infância.

Falou da mãe.

Falou da rejeição.

Falou dos momentos em que se sentiu sozinha.

Falou do pai que não esteve presente.

Falou dos relacionamentos.

Falou dos homens que entraram na sua vida e depois foram embora.

Falou dos pais dos seus filhos.

Falou da raiva.

Falou da tristeza.

Falou de tudo aquilo que nunca conseguira dizer sem chorar.

— Senhor, por que eu passei por tudo isso?

Biba chorava.

— Eu só queria ser amada.

Fez uma pausa.

Depois disse:

— Eu só queria ter tido uma família.

As lágrimas continuavam a cair.

Mas, no meio daquele desabafo, Biba lembrou-se das palavras do pastor.

 

Perdoar não significa dizer que não doeu.

Então respirou fundo.

— Senhor...

Dessa vez, sua voz saiu mais firme.

— Eu não consigo fazer isso sozinha.

Fechou os olhos.

— Mas eu quero obedecer-Te.

Silêncio.

Então pronunciou as palavras que durante tanto tempo pareciam impossíveis:

— Senhor, ajuda-me a liberar perdão para a minha mãe.

Biba começou a chorar novamente.

— Eu perdoo a minha mãe.

Parou.

Respirou.

— Eu perdoo a minha mãe pela dor que senti.

Mais lágrimas.

— Eu perdoo pela rejeição.

A voz tremia.

— Eu perdoo pelas coisas que não recebi quando era criança.

Biba colocou a mão sobre o peito.

— Eu não quero mais carregar isso.

Por alguns instantes, ficou em silêncio.

Não aconteceu nada extraordinário ao redor dela.

Nenhuma luz apareceu.

Nenhuma voz audível falou.

Mas dentro de Biba começou a acontecer algo.

Uma paz.

Pequena no início.

Depois mais profunda.

Como se um peso que ela carregara durante anos começasse lentamente a ser retirado.

Biba continuou:

— Senhor, eu entrego a minha mãe nas Tuas mãos.

Depois pensou nos pais dos seus filhos.

Os nomes vieram um após outro.

As lembranças voltaram.

A dor também.

Mas, desta vez, Biba não fugiu delas.

Começou a liberar perdão.

— Eu perdoo.

— Eu perdoo.

— Eu perdoo.

Para cada um, repetia aquelas palavras.

Não porque tivesse esquecido.

Não porque tudo estivesse resolvido.

Mas porque não queria mais permitir que aquelas pessoas continuassem a ocupar um espaço de amargura dentro dela.

A Bíblia diz:

“Suportai-vos uns aos outros, e perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.”
Colossenses 3:13

Naquela noite, Biba compreendeu que o perdão era um processo.

Talvez algumas feridas ainda doessem.

Talvez algumas lembranças ainda provocassem lágrimas.

Mas algo havia mudado.

Ela já não queria vingança.

Já não queria passar a vida inteira revivendo aquilo que lhe fizeram.

Queria liberdade.

Queria paz.

Queria continuar a sua caminhada com Deus.

Quando terminou de orar, Biba ficou alguns minutos em silêncio.

Depois sorriu entre lágrimas.

— Obrigada, Senhor.

Na manhã seguinte, tomou uma decisão.

Pegou o telefone.

Olhou para o contacto da mãe.

Ficou alguns segundos parada.

O coração batia forte.

Pensou em desligar.

Mas respirou fundo e fez a chamada.

A mãe atendeu.

— Alô?

Biba não conseguiu falar imediatamente.

Sua garganta apertou.

— Mãe...

Do outro lado, silêncio.

— Sou eu.

Mais alguns segundos.

Então Biba disse:

— Eu queria dizer uma coisa.

Respirou fundo.

— Eu amo-te.

Foi a primeira vez que disse aquelas palavras à mãe daquela maneira.

Sem cobrança.

Sem acusação.

Sem exigir explicações.

Apenas:

“Eu amo-te.”

As lágrimas começaram a cair.

Talvez aquela ligação não resolvesse todos os problemas entre as duas.

Talvez ainda houvesse conversas que precisariam acontecer.

Talvez algumas feridas precisassem de tempo.

Mas, naquele momento, Biba tinha dado um passo.

Ela havia escolhido não continuar prisioneira daquilo que a feriu.

Quanto aos pais dos seus filhos, Biba não fez ligações.

Ainda não estava preparada para isso.

Mas continuou a orar por eles.

Sempre que os seus nomes surgiam em seus pensamentos, dizia:

— Senhor, eu já os entreguei a Ti.

E continuava a caminhar.

Biba finalmente compreendeu uma coisa:

perdoar não é apagar o passado.

É impedir que o passado continue a governar o futuro.

Ela não precisava voltar para pessoas que a feriram.

Não precisava permitir novos abusos.

Não precisava fingir que nada aconteceu.

Mas podia escolher não viver alimentando a mágoa.

Naquela noite, antes de dormir, Biba ajoelhou-se novamente.

E agradeceu a Deus.

Ainda havia muito para aprender.

Ainda havia muito para reconstruir.

Mas uma porta havia sido aberta.

A porta do perdão.

E, ao atravessá-la, Biba percebeu que talvez existissem outras portas que Deus queria abrir.

Porque algumas vezes o maior obstáculo para um novo começo não está à nossa frente.

Está dentro de nós.

E Biba acabava de dar um passo para se libertar dele.




CAPÍTULO 17

ESPIRITO SANTO, TRANSFORMA - ME

A caminhada de Biba com Deus continuava a produzir mudanças profundas no seu interior.

No capítulo anterior, começara a compreender o caminho do perdão. Ainda havia feridas, lembranças e situações que precisavam de tempo, mas algo já não era como antes.

Biba não queria apenas conhecer Deus.

Queria permitir que Ele transformasse completamente a sua vida.

E, pouco a pouco, começou a perceber que essa transformação não acontecia apenas através dos seus próprios esforços.

Havia uma presença dentro dela.

Uma presença que a ensinava.

Que a corrigia.

Que a consolava.

Que a fortalecia.

Era o Espírito Santo.

Biba ainda estava a aprender a compreender quem Ele era, mas começava a perceber que não caminhava sozinha.

O Espírito Santo estava presente nas suas decisões, nas suas conversas, nas suas reações e até nos momentos em que ninguém via o que acontecia dentro do seu coração.

Foi nesse período que a relação com a mãe começou a mudar.

No início, a mãe achou estranho quando Biba começou a dizer que a amava.

Depois de tudo o que havia acontecido entre as duas, aquelas palavras pareciam inesperadas.

Talvez a mãe se tivesse habituado à distância.

Talvez tivesse aprendido a conviver com o silêncio.

Talvez não soubesse como reagir perante aquela nova postura da filha.

Certa vez, depois de uma conversa, a mãe perguntou:

— Biba, porque estás a dizer isso agora?

Biba ficou em silêncio durante alguns segundos.

Não queria responder com palavras ensaiadas.

Queria falar com sinceridade.

— Porque percebi que não quero continuar a viver presa ao que aconteceu entre nós.

A mãe olhou para ela.

— Mas depois de tudo?

Biba respirou fundo.

— Depois de tudo. Ainda há coisas que me doem, mãe. Ainda existem lembranças difíceis. Mas Deus está a ensinar-me a perdoar e a amar sem fingir que nada aconteceu.

A mãe não respondeu imediatamente.

Biba percebeu que talvez ela também não soubesse como lidar com aquela mudança.

Durante muito tempo, a relação entre as duas fora marcada por mágoas, incompreensões e palavras que ficaram por dizer.

Agora, Biba aproximava-se de uma maneira diferente.

Não se aproximava para cobrar.

Não se aproximava para acusar.

Não se aproximava para exigir que a mãe reconhecesse tudo o que havia feito.

Aproximava-se porque o Espírito Santo estava a trabalhar no seu coração.

No início, a mãe desconfiou.

Pensou que aquela mudança pudesse durar pouco.

Talvez Biba estivesse apenas emocionada com a igreja.

Talvez fosse uma fase.

Talvez, depois de algum tempo, voltasse a ser como antes.

Mas os dias passaram.

E Biba continuou diferente.

Quando surgia uma discussão, já não respondia da mesma maneira.

Quando se sentia magoada, procurava orar antes de falar.

Quando percebia que estava prestes a agir por impulso, parava e perguntava a si mesma:

— Espírito Santo, o que queres ensinar-me nesta situação?

A insegurança que durante tantos anos dominara Biba começou a desaparecer.

Já não precisava de provar o seu valor o tempo todo.

Já não precisava de agradar a todos.

Já não precisava de responder a cada crítica.

Já não precisava de viver com medo de ser rejeitada.

Biba começou a compreender que a sua identidade não dependia da opinião das pessoas.

Era filha de Deus.

E essa certeza começou a trazer segurança ao seu coração.

A Bíblia ensina que o domínio próprio é um dos frutos do Espírito Santo.

 

Biba começou a experimentá -lo na prática.

Antes, qualquer palavra podia fazê-la perder o controlo.

Uma crítica podia tirar-lhe a paz.

Uma lembrança podia fazê-la reagir com raiva.

Uma desilusão podia levá-la a tomar decisões precipitadas.

Mas agora havia algo diferente dentro dela.

Continuava a sentir emoções.

Ainda se entristecia.

Ainda se irritava.

Ainda enfrentava dias difíceis.

A diferença era que já não permitia que cada emoção decidisse por ela.

Biba estava a aprender a sentir sem ser governada pelo que sentia.

Estava a aprender a esperar antes de responder.

A pensar antes de agir.

A orar antes de decidir.

A ouvir antes de julgar.

 

A Bíblia diz:

“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.”   

Gálatas 5:22-23

 

Biba leu esse texto várias vezes.

Percebeu que o domínio próprio não significava tornar-se uma pessoa fria ou sem sentimentos.

Significava permitir que o Espírito Santo conduzisse as suas reações.

Era aprender a não ser escrava da raiva.

A não ser controlada pelo medo.

A não ser dominada pela ansiedade.

A não agir sempre de acordo com os impulsos.

Biba começou a entender que o Espírito Santo era seu amigo, seu professor e seu consolador.

Como amigo, estava sempre presente.

Como professor, ensinava-lhe o caminho certo.

Como consolador, permanecia com ela nos momentos de dor.

Quando Biba se sentia sozinha, lembrava-se de que não estava abandonada.

Quando não sabia o que fazer, pedia direção.

Quando se sentia fraca, buscava força em Deus.

Começou a entregar a sua vida ao Espírito Santo.

Não apenas as grandes decisões, mas também as pequenas.

Entregava-Lhe as palavras que iria dizer.

As pessoas com quem iria conversar.

Os lugares que frequentaria.

As escolhas que faria.

Os pensamentos que alimentaria.

Certa manhã, antes de sair de casa, Biba ajoelhou-se junto à cama.

— Espírito Santo, entrego-Te este dia. Influencia as minhas decisões. Ensina-me a falar. Ensina-me a ouvir. Não permitas que eu seja guiada pelo medo ou pela raiva. Quero que a minha vida reflita a Tua presença.

Depois daquela oração, Biba não se tornou perfeita.

Ainda enfrentou tentações.

Ainda teve vontade de responder mal.

Ainda houve momentos em que se sentiu insegura.

Mas agora reconhecia a voz de Deus, chamando-a a uma atitude diferente.

Certa tarde, a mãe ligou-lhe, preocupada.

— Biba, aconteceu uma coisa aqui em casa.

Antes, talvez Biba tivesse ficado nervosa ou reagido com desespero.

Mas, dessa vez, ouviu com atenção.

— Conta-me o que aconteceu, mãe.

A mãe explicou a situação.

Biba fez algumas perguntas, pensou durante alguns instantes e respondeu:

— Vamos resolver isso com calma. Não precisamos de entrar em pânico.

A mãe ficou em silêncio.

Depois perguntou:

— Tu estás diferente.

Biba sorriu.

— Deus está a transformar-me.

A partir daquele momento, a mãe começou a contar com ela.

Tudo o que acontecia em casa era comunicado a Biba.

Se havia um problema, ligava-lhe.

Se precisava de ajuda, procurava-a.

Se alguém da família estava doente, Biba era uma das primeiras pessoas a saber.

A mãe começou a perceber que a filha não estava apenas a falar sobre mudança.

Estava realmente transformada.

Biba já não era conhecida apenas pelas dificuldades que havia enfrentado.

Agora era reconhecida pela maneira como reagia perante elas.

A mãe começou a confiar nela.

E essa confiança aproximou as duas.

Não aconteceu tudo de uma vez.

Ainda existiam assuntos delicados.

Ainda havia conversas que precisavam de cuidado.

Ainda havia momentos em que discordavam.

 

Mas agora havia respeito.

Havia disposição para ouvir.

Havia vontade de permanecerem próximas.

Biba passou a visitar a mãe com mais frequência.

Às vezes, sentavam-se juntas para conversar.

Outras vezes, apenas partilhavam uma refeição.

Nem sempre falavam sobre o passado.

Nem sempre precisavam de explicar tudo.

A presença uma da outra começou a ser suficiente.

Certa noite, enquanto estavam sentadas na sala, a mãe perguntou:

— Biba, o que aconteceu contigo?

Biba olhou para ela.

— O que queres dizer?

— Estás mais calma. Mais segura. Parece que tens uma força diferente.

Biba sorriu.

— Eu não fiz isso sozinha.

— Então quem fez?

— O Espírito Santo.

A mãe ficou pensativa.

Biba continuou:

— Ainda tenho muito para aprender. Ainda erro. Ainda tenho dias difíceis. Mas agora não estou a tentar mudar apenas com a minha força. Entreguei a minha vida a Deus e deixei que o Espírito Santo influenciasse as minhas decisões.

A mãe baixou os olhos.

— Eu não sabia que era possível mudar tanto.

— Eu também não sabia — respondeu Biba. — Mas Deus faz coisas que nós não conseguimos fazer sozinhos.

A transformação de Biba também começou a alcançar o restante da família.

Ela tornou-se uma intercessora.

Orava pela mãe.

Orava pelos filhos.

Orava pelos irmãos.

Orava pelos pais dos seus filhos.

Orava pelos familiares que estavam distantes.

Orava por aqueles que enfrentavam problemas.

Orava até por pessoas que um dia a tinham julgado.

No início, algumas orações eram difíceis.

Havia nomes que ainda despertavam lembranças dolorosas.

Mas Biba continuava:

— Senhor, abençoa essa pessoa. Cura o coração dela. Dá-lhe sabedoria. Ajuda-a a encontrar-Te.

Às vezes, depois de orar, chorava.

Não porque quisesse voltar a viver o passado, mas porque percebia que Deus a estava a libertar da necessidade de vingança.

Já não queria que as pessoas sofressem apenas porque a tinham feito sofrer.

Queria que Deus transformasse todos os corações.

Certa madrugada, Biba acordou preocupada com um dos seus filhos.

Sentou-se na cama e começou a orar:

— Senhor, guarda o meu filho. Protege os seus passos. Dá-lhe sabedoria. Livra-o de más companhias e de decisões que possam destruí-lo.

Depois orou pelos outros filhos.

Orava pela saúde deles.

Pela vida emocional.

Pelo futuro.

Pelas escolhas.

Pelos relacionamentos.

Também orava pelos pais dos seus filhos.

— Senhor, dá-lhes sabedoria para serem bons pais. Cura as feridas deles. Ajuda-os a cumprir as responsabilidades que lhes cabem.

Biba percebeu que orar por eles não significava negar os erros que haviam cometido.

Significava entregar a Deus aquilo que ela não conseguia controlar.

Não podia mudar o coração de ninguém.

Mas podia interceder.

Podia pedir que Deus agisse.

Podia escolher não alimentar o ódio.

Aos poucos, Biba tornou-se uma mulher sábia.

Não porque soubesse todas as respostas.

Não porque nunca errasse.

Mas porque aprendera a buscar a direção de Deus antes de tomar decisões.

As pessoas começaram a notar.

Algumas perguntavam:

— Como é que a Biba se tornou aquela mulher?

Outras queriam saber:

— O que aconteceu contigo?

— Como conseguiste mudar tanto?

— O que fizeste para alcançar essa transformação?

Biba não respondia dizendo que era forte.

Não dizia que tinha conseguido sozinha.

Não atribuía a mudança à sua própria capacidade.

Respondia:

— Foi a presença do Espírito Santo.

Algumas pessoas queriam saber mais.

— Mas o que fizeste?

— Comecei a entregar a minha vida a Deus. Aprendi a ouvir a Sua voz e a permitir que o Espírito Santo influenciasse as minhas decisões.

— E isso foi suficiente para mudar tudo?

Biba pensava durante alguns segundos.

— Não aconteceu tudo de uma vez. Precisei de aprender, obedecer, pedir perdão, recomeçar e confiar. Mas a presença do Espírito Santo começou a transformar aquilo que eu não conseguia transformar sozinha.

Algumas pessoas começaram a perguntar sobre a igreja.

— Onde congregas?

— Quem te ensinou?

— O que existe naquele lugar que mudou a tua vida?

Biba aproveitava cada oportunidade para falar de Deus.

Não queria que as pessoas admirassem apenas a sua mudança.

Queria que conhecessem Aquele que a havia transformado.

— A igreja ajudou-me a ouvir a Palavra — dizia ela. — Mas foi Deus quem começou a trabalhar dentro de mim. O Espírito Santo mostrou-me quem eu era, quem podia tornar-me e quem Deus queria que eu fosse.

Biba já não precisava de esconder a sua história.

Não tinha vergonha de dizer que fora insegura.

Que muitas vezes reagira mal.

Que tomara decisões erradas.

Que carregara mágoas.

Que vivera momentos de medo e confusão.

A sua história não era perfeita.

Mas agora tinha um novo sentido.

As feridas que antes eram motivo de vergonha tornaram-se testemunho da graça de Deus.

Certa vez, uma mulher que conhecia parte do seu passado aproximou-se dela.

— Ouvi dizer que estás diferente.

Biba sorriu.

— Estou a aprender.

— Mas como conseguiste deixar tudo aquilo para trás?

Biba respondeu com sinceridade:

— Eu não deixei tudo para trás sozinha. Levei tudo a Deus. E o Espírito Santo começou a tratar o meu coração.

A mulher ficou em silêncio.

— Eu também preciso dessa transformação — disse ela.

Biba segurou-lhe a mão.

— Então começa por falar com Deus com sinceridade. Não precisas de fingir que está tudo bem. Ele conhece a tua dor. Entrega-Lhe a tua vida e permite que Ele te ensine.

Biba não se considerava superior a ninguém.

Sabia que ainda estava em processo.

Todos os dias precisava de escolher confiar.

Todos os dias precisava de vigiar os seus pensamentos.

Todos os dias precisava de permitir que o Espírito Santo conduzisse as suas atitudes.

Mas agora havia uma diferença fundamental:

Biba já não queria viver de acordo com a antiga natureza.

Queria viver de acordo com a vontade de Deus.

Quando sentia vontade de responder com agressividade, lembrava-se da mansidão.

Quando queria desistir, lembrava-se da fidelidade.

Quando a ansiedade surgia, buscava a paz.

Quando se sentia fraca, lembrava-se de que o Espírito Santo era o seu consolador.

Quando precisava de tomar uma decisão, pedia sabedoria.

E, pouco a pouco, a sua vida começou a refletir o fruto do Espírito.

O amor começou a substituir a indiferença.

A paz começou a ocupar o lugar da confusão.

A paciência começou a vencer a impulsividade.

A bondade começou a aparecer nas suas atitudes.

A fidelidade começou a fortalecer os seus compromissos.

A mansidão começou a mudar a maneira como respondia.

E o domínio próprio começou a governar as suas escolhas.

Certa noite, Biba voltou para casa depois de um dia cansativo.

Havia enfrentado problemas, recebido críticas e ouvido palavras que poderiam tê-la ferido profundamente.

Mas, em vez de reagir como antes, entrou no quarto, fechou a porta e ajoelhou-se.

— Espírito Santo, preciso de Ti.

Ficou em silêncio.

Depois continuou:

— Não quero voltar a ser quem era. Não quero que a raiva decida por mim. Não quero que o medo conduza a minha vida. Ensina-me a responder de acordo com a Tua vontade.

Biba permaneceu ali durante alguns minutos.

Não ouviu uma voz audível.

Não viu nada de extraordinário.

Mas sentiu paz.

Uma paz que não dependia das circunstâncias.

Uma paz que lhe dizia que Deus estava presente.

Levantou-se e decidiu não responder naquele momento às mensagens que havia recebido.

Esperaria até estar tranquila.

No dia seguinte, respondeu com respeito e firmeza.

Não permitiu que a ferissem novamente, mas também não respondeu com ódio.

Naquele momento, percebeu que o domínio próprio não era fraqueza.

Era força sob controlo.

Era a capacidade de escolher uma resposta diferente.

Era permitir que o Espírito Santo tivesse a última palavra.

A aproximação com a mãe continuou a crescer.

Certa manhã, a mãe ligou-lhe apenas para conversar.

Não havia nenhum problema.

Não precisava de ajuda.

Queria apenas ouvir a voz da filha.

— Biba, como estás?

— Estou bem, mãe. E tu?

— Também estou.

Conversaram durante algum tempo.

Depois, a mãe disse:

— Queria dizer-te uma coisa.

— Diz.

— Ainda não entendo completamente o que aconteceu contigo. Mas percebo que estás diferente.

Biba ficou em silêncio.

— Vejo a maneira como tratas os teus filhos. Vejo como te preocupas com os teus irmãos. Vejo como oras pelas pessoas. E percebo que não estás a fingir.

As lágrimas começaram a aparecer nos olhos de Biba.

— Obrigada, mãe.

— Eu também quero aprender a aproximar-me de Deus.

Biba respirou fundo.

— Posso orar contigo.

A mãe aceitou.

Naquele dia, as duas fizeram uma oração juntas.

Não foi uma oração longa.

Não foi perfeita.

Mas foi sincera.

Biba agradeceu a Deus pela vida da mãe.

Pediu cura para as feridas do passado.

Pediu sabedoria para as duas.

Pediu que o amor fosse reconstruído entre elas.

Quando terminaram, ficaram alguns segundos em silêncio.

Depois, a mãe disse:

— Eu amo-te, Biba.

Biba fechou os olhos.

Durante muitos anos, desejara ouvir aquelas palavras.

Agora, ao ouvi-las, não sentiu necessidade de cobrar o passado.

Apenas respondeu:

— Eu também te amo, mãe.

A relação entre as duas não se tornou perfeita.

Mas tornou-se verdadeira.

Havia espaço para conversar.

Para pedir perdão.

Para recomeçar.

Para aprender a amar de uma maneira nova.

Biba compreendeu que o Espírito Santo não transformava apenas as suas palavras.

Transformava a maneira como via as pessoas.

A mãe já não era apenas a pessoa que a havia ferido.

Era também uma mulher que precisava de cura.

Os pais dos seus filhos já não eram apenas pessoas que a haviam desiludido.

Eram pessoas que também precisavam de Deus.

Os irmãos já não eram apenas parte da sua história.

Eram vidas pelas quais podia interceder.

Até aqueles que a tinham julgado passaram a ser incluídos nas suas orações.

Biba não justificava o que haviam feito.

Mas já não queria carregar o peso da condenação.

Aprendera que o Espírito Santo podia dar-lhe amor sem ingenuidade, perdão sem ausência de limites e sabedoria sem orgulho.

Certa vez, alguém perguntou:

— Biba, nunca mais ficas insegura?

Ela sorriu.

— Às vezes ainda sinto insegurança. A diferença é que agora não permito que ela governe a minha vida.

— E quando sentes medo?

— Oro.

— E quando tens vontade de desistir?

— Lembro-me de que o Espírito Santo está comigo.

— E quando não sabes o que fazer?

— Peço sabedoria.

A pessoa ficou pensativa.

— Então a transformação não significa nunca mais ter problemas?

— Não. Significa não enfrentar os problemas da mesma maneira. Deus não prometeu que eu nunca teria lutas. Prometeu que estaria comigo no meio delas.

Biba aprendera que a presença do Espírito Santo não eliminava todos os desafios.

Mas mudava a maneira como os enfrentava.

Continuava a ter responsabilidades.

Ainda precisava de cuidar dos filhos.

Ainda enfrentava dificuldades financeiras.

Ainda lidava com pessoas complicadas.

Ainda tinha dias de cansaço.

Mas agora não estava sozinha.

O Espírito Santo era seu amigo nas caminhadas difíceis.

Seu professor nas decisões.

Seu consolador nas lágrimas.

Seu guia nos momentos de dúvida.

Seu ajudador nas tentações.

Seu defensor quando era injustamente acusada.

Seu companheiro em todos os momentos.

Biba entregava a sua vida diariamente.

— Espírito Santo, transforma-me.

Essa tornou-se uma das suas orações mais frequentes.

Não pedia apenas que Deus mudasse as circunstâncias.

Pedia que mudasse o seu coração.

— Transforma a minha maneira de pensar.

Transforma a minha maneira de falar.

Transforma a minha maneira de amar.

Transforma a minha maneira de perdoar.

Transforma a minha maneira de decidir.

Transforma a minha maneira de reagir.

Transforma-me por completo.

E Deus continuava a trabalhar.

Não de forma apressada.

Não de maneira superficial.

Mas profundamente.

Biba percebeu que a verdadeira transformação não era tornar-se alguém que nunca enfrentava problemas.

Era tornar-se alguém que, mesmo enfrentando problemas, continuava a escolher Deus.

Já não era a mulher insegura que precisava da aprovação de todos.

Já não era a mulher dominada pela raiva.

Já não era a mulher presa ao passado.

Já não era a mulher que tomava decisões apenas para sobreviver.

Agora era uma mulher guiada pelo Espírito Santo.

Uma mulher que sabia pedir ajuda.

Uma mulher que sabia esperar.

Uma mulher que sabia dizer não.

Uma mulher que sabia perdoar sem negar a verdade.

Uma mulher que sabia amar sem abandonar a prudência.

Uma mulher que sabia orar por aqueles que a tinham ferido.

Uma mulher que aprendera a viver com domínio próprio.

E, acima de tudo, uma mulher que compreendera que a transformação não vinha dela.

Vinha da presença de Deus.

Naquela noite, Biba ajoelhou-se junto à cama.

A casa estava silenciosa.

Os filhos dormiam.

A mãe estava bem.

A família continuava a enfrentar desafios, mas agora havia esperança.

Biba fechou os olhos e orou:

— Espírito Santo, obrigada porque não desististe de mim. Obrigada porque me ensinaste a amar, a perdoar e a confiar. Obrigada porque foste meu amigo quando me senti sozinha, meu professor quando não sabia o que fazer e meu consolador quando chorei. Continua a transformar-me. Não permitas que eu volte a viver como antes. Guia as minhas decisões e usa a minha vida para abençoar a minha família.

 

Depois ficou em silêncio.

Sentiu paz.

Não porque tudo estivesse resolvido.

Mas porque sabia que Deus estava presente.

Biba aprendera que a transformação era um processo diário.

Todos os dias precisava de se entregar novamente.

Todos os dias precisava de ouvir.

Todos os dias precisava de obedecer.

Todos os dias precisava de permitir que o Espírito Santo produzisse o Seu fruto dentro dela.

E, enquanto fazia isso, a sua vida continuava a mudar.

A mãe aproximava-se.

A família encontrava nela uma intercessora.

Os filhos viam uma mulher mais segura.

Os irmãos reconheciam a sua sabedoria.

Alguns que a haviam julgado começaram a perguntar como tinha mudado.

E Biba continuava a responder:

— Foi a presença do Espírito Santo.

 

Porque sabia que, sem Ele, talvez ainda estivesse presa ao medo, à raiva e à insegurança.

Mas, com Ele, encontrara uma nova maneira de viver.

Uma vida de amor.

De paz.

De domínio próprio.

De sabedoria.

De perdão.

De esperança.

Biba não era perfeita.

Mas estava a ser transformada.

E essa transformação não era apenas para ela.

Era também para a sua mãe.

Para os seus filhos.

Para os seus irmãos.

Para os pais dos seus filhos.

Para a sua família.

Para aqueles que um dia a julgaram.

Para todos os que Deus colocasse no seu caminho.

Porque, quando o Espírito Santo entra verdadeiramente numa vida, não transforma apenas o interior.

Começa a alcançar tudo à sua volta.

E Biba finalmente compreendeu:

não precisava de tentar transformar-se sozinha.

Precisava apenas de se entregar ao Espírito Santo e permitir que Ele dissesse:

“Eu transformo-te.”



CAPÍTULO 18


QUANDO DEUS MUDA A HISTÓRIA 


Durante muito tempo, Biba olhou para a sua própria história e enxergou fracassos.

Havia capítulos que preferia não recordar. Havia escolhas que ainda lhe causavam vergonha, feridas que demoraram a cicatrizar e consequências que precisaria carregar por muito tempo.

Mas agora havia algo diferente.

Biba começava a perceber que uma história difícil não significa uma história terminada.

Deus estava escrevendo novas páginas.

Ela já não era a mulher que vivia apenas tentando sobreviver. Estava aprendendo a viver com propósito.

Biba continuava preocupada com os seus quatro filhos. Queria vê-los crescer de uma maneira diferente daquela que ela própria havia crescido. Queria trabalhar, construir uma vida digna e mostrar-lhes, através das suas atitudes, que era possível recomeçar.

E havia outra coisa que começava a ocupar um lugar importante na sua vida: Servir a Deus .

Biba continuava frequentando a igreja. Participava das orações, dos estudos bíblicos e, sempre que podia, envolvia-se em pequenos trabalhos sociais.

Às vezes ajudava alguém com alimentos.

Outras vezes visitava uma pessoa que estava passando por dificuldades, visitava doentes no hospital e dava uma palavra de fé e esperança.

Quando encontrava alguém triste, procurava uma palavra de encorajamento.

Ela não tinha muito para oferecer, mas havia aprendido que nem sempre precisamos ter muito para fazer o bem.

Uma palavra pode levantar alguém.

Uma oração pode fortalecer um coração.

Um gesto de amor pode lembrar a uma pessoa que ela não está sozinha.

Biba estava começando a perceber que Deus também podia usar a sua história para alcançar outras pessoas.

Ela, que um dia precisou tanto de alguém que a escutasse, agora estava aprendendo a escutar.

Ela, que um dia precisou de uma palavra de esperança, agora começava a oferecer esperança aos outros.

Sem perceber, a mulher que havia sido tão marcada pelas suas próprias feridas começava a tornar-se instrumento de consolo para pessoas feridas.

Foi nesse período que apareceu Mateus.

Ele não chegou à vida de Biba procurando uma mulher.

Também carregava uma história.

Mateus havia perdido a esposa num acidente trágico. A perda tinha deixado dentro dele um vazio difícil de explicar.

Havia dias em que conseguia seguir normalmente. Trabalhava, conversava com as pessoas e tentava manter a rotina.

Mas, quando ficava sozinho, a saudade voltava.

Havia perguntas sem respostas.

Havia lembranças.

Havia silêncio.

E, acima de tudo, havia uma dor que ele ainda estava tentando compreender.

Mateus também estava numa jornada de transformação.

Precisava de cura para a alma, consolo para o coração e alguém que pudesse ouvi-lo sem julgá-lo.

Foi assim que, através da igreja e das atividades que Biba realizava, os dois acabaram se conhecendo.

No início, não havia qualquer intenção de romance.

Biba não estava procurando um parceiro.

Depois de tudo o que havia vivido, ela tinha aprendido a não entregar o seu coração simplesmente porque alguém demonstrava interesse.

Agora queria primeiro cuidar da sua vida, dos seus filhos e da sua caminhada com Deus.

Mateus, por sua vez, precisava de tempo para reconstruir a própria vida depois da perda.

Certa vez, durante uma conversa, Mateus falou sobre a dificuldade que sentia desde a morte da esposa.

Biba ouviu atentamente.

Não tentou dar respostas para aquilo que nem ela mesma conseguiria explicar.

Apenas disse:

— Às vezes, não entendemos por que certas coisas acontecem. Mas podemos pedir a Deus que nos sustente enquanto atravessamos aquilo que não conseguimos compreender.

Mateus ficou em silêncio.

Aquelas palavras tocaram-lhe profundamente.

Biba continuou:

— Eu também já passei por momentos em que pensei que a minha história tinha acabado. Mas descobri que Deus pode começar algo novo justamente quando pensamos que não há mais esperança.

Mateus perguntou:

— E como conseguimos continuar quando a dor é muito grande?

Biba respondeu:

— Um dia de cada vez. E com Deus.

A partir daquele momento, começaram a conversar mais.

Uma palavra levou a outra.

Uma conversa levou a uma oração.

Uma oração levou a um estudo bíblico.

E, pouco tempo depois, surgiu a ideia de criarem um pequeno grupo de estudo da Bíblia e oração.

Não era um grupo para falar apenas de doutrina.

Era um espaço para pessoas compartilharem lutas, aprenderem a confiar em Deus e orarem umas pelas outras.

Biba percebeu que Mateus estava encontrando naquele grupo algo de que precisava: esperança.

E Mateus começou a perceber algo que talvez ainda não estivesse pronto para admitir.

Ele admirava Biba.

Não pela mulher que ela havia sido.

Mas pela mulher que estava se tornando.

Via nela uma força diferente.

Via alguém que conhecia a dor, mas não queria permanecer prisioneira dela.

Via uma mulher que havia aprendido a perdoar.

Uma mãe que lutava pelos seus filhos.

Uma pessoa que, apesar de tudo o que havia vivido, ainda conseguia oferecer esperança aos outros.

E, pouco a pouco, o sentimento começou a crescer.

Mateus começou a gostar de Biba.

Mas havia uma pergunta que precisava ser respondida:

Biba estava preparada para abrir novamente o seu coração?

Ela havia aprendido a perdoar, mas ainda precisava aprender a confiar.

Havia aprendido a amar a si mesma, mas ainda precisava compreender que um novo relacionamento não deveria nascer da carência, do medo ou da necessidade de ser salva.

Agora ela sabia que não precisava de alguém para completar a sua vida.

Precisava continuar caminhando com Deus.

Se algum dia abrisse novamente o coração para alguém, queria que fosse diferente.

Queria que houvesse respeito.

Amizade.

Propósito.

Fé.

Maturidade.

E, acima de tudo, queria que Deus estivesse no centro.

Naquela noite, depois de uma reunião do grupo de oração, Biba chegou em casa, entrou no quarto e ficou alguns minutos em silêncio.

Pensou em Mateus.

Pensou no passado.

Pensou nos homens que haviam passado pela sua vida e deixado feridas.

Depois olhou para o teto e fez uma oração simples:

— Senhor, eu não quero voltar a escolher apenas porque tenho medo de ficar sozinha. Se houver um novo capítulo para mim, escreve Tu. Se não houver, ensina-me também a ficar em paz.

Biba havia aprendido uma coisa que antes não compreendia:

Nem toda porta aberta deve ser atravessada.

Algumas precisam de oração.

Algumas precisam de tempo.

E outras precisam simplesmente ser fechadas.

Ela não sabia o que aconteceria com Mateus.

Mas, pela primeira vez, não estava desesperada para descobrir.

Estava aprendendo a confiar.

Porque agora sabia que a sua história não estava mais nas mãos das circunstâncias.

Estava nas mãos de Deus.

E quando Deus muda uma história, Ele não precisa apagar o passado.

Ele pode transformar o significado dele.

A mulher que um dia pensou que seria conhecida apenas pelos seus fracassos começava a descobrir que poderia ser conhecida também pela sua transformação.

E talvez Mateus não tivesse chegado por acaso.

Talvez fosse apenas mais uma página que Deus estava colocando diante dela.

Mas uma coisa Biba já havia decidido:

desta vez, antes de abrir o coração para alguém, ela abriria o coração diante de Deus.

 


O RECOMEÇO


A história de Biba começou marcada por rejeição.

Passou pela ausência.

Conheceu a carência.

Encontrou relacionamentos dolorosos.

Conheceu a maternidade.

Enfrentou dificuldades.

Fez escolhas.

Sofreu consequências.

Foi julgada.

Mas também encontrou uma oportunidade de recomeçar.

A sua transformação não aconteceu de um dia para o outro.

Foi um caminho.

Houve lágrimas.

Houve dúvidas.

Houve quedas.

Houve momentos de medo.

Houve portas fechadas.

Houve pessoas que demoraram a acreditar.

Mas houve também fé.

Houve perdão.

Houve cura.

Houve mudança.

E houve Deus.

A história de Biba ensina-nos que não devemos definir uma pessoa apenas pelo capítulo que encontramos.

Talvez alguém esteja a viver hoje o capítulo mais difícil da sua vida.

Mas isso não significa que esse seja o último.

Por isso, antes de julgarmos, precisamos ouvir.

Antes de condenarmos, precisamos compreender.

Antes de desistirmos de alguém, precisamos lembrar que ainda pode existir um processo acontecendo dentro daquela pessoa.

E, acima de tudo, precisamos lembrar:

há pessoas que precisam de uma oportunidade para recomeçar.

Biba não pode voltar ao passado.

Não pode apagar as escolhas que fez.

Não pode mudar as pessoas que a abandonaram.

Mas pode escolher o que fará com as páginas que ainda tem pela frente.

E talvez essa seja a maior mensagem desta história:

 O passado pode fazer parte da nossa história sem ser o dono do nosso futuro.

 

Para reflectir

Que parte da tua história ainda estás a permitir que determine quem és?

Talvez hoje seja o momento de entregar essa página a Deus.

Porque, quando Deus muda uma história, Ele não apaga o passado.

Ele transforma o significado do que virá depois.



Liandra Langa


Escritora, Mentora e Palestrante


PODEMOS FALAR DE RECOMEÇOS?

Dia 091026 🌱 PALAVRA QUE TRANSFORMA PODEMOS ENTÃO FALAR DE RECOMEÇOS E se o seu passado não fosse o fim da sua história, mas apenas o...