ENTRE A DÚVIDA E A FÉ
Quando o coração não sabe o que acreditar
Por Liandra Langa
CAPÍTULO 3
O TRIBUNAL DENTRO DA MINHA CABEÇA
1. Uma acusação sem provas
Nos dias que se seguiram àquela chamada, Matilde tentou retomar a sua rotina. Cuidava do filho, organizava a casa, preparava as coisas para a chegada do bebé e procurava dar atenção ao marido.
Por fora, tudo parecia normal.
Por dentro, porém, havia um tribunal em funcionamento.
Na sua mente, as perguntas transformavam-se em acusações, e as acusações começavam a parecer verdades.
Por que saiu tão depressa para atender?
Será que já fez isso outras vezes e eu nunca reparei?
Será que sou a única pessoa que não sabe o que realmente acontece nesta relação?
Matilde não tinha respostas. Ainda assim, a sua imaginação construía cenários cada vez mais assustadores.
Por vezes, olhava para Marcos e tentava descobrir alguma coisa diferente no seu comportamento. Se ele sorria enquanto lia uma mensagem, perguntava-se com quem estaria a conversar. Se ficava calado, imaginava que talvez estivesse a esconder alguma preocupação. Se chegava cansado do trabalho, perguntava-se se havia alguma razão que não lhe estava a contar.
O que antes parecia normal começava a despertar suspeitas.
Certa tarde, enquanto Marcos brincava com o filho, Matilde ficou a observá-lo. Ele ria, fazia cócegas à criança e fingia que o pequeno o tinha derrotado numa luta de almofadas.
A cena era bonita. Era a família que ela desejava proteger.
Mesmo assim, uma pergunta atravessou-lhe a mente:
E se tudo isto não for aquilo que parece?
Matilde sentiu um aperto no peito.
Ficou incomodada consigo mesma. Como podia estar a olhar para um momento tão simples e, ainda assim, sentir medo?
Não queria viver daquela maneira. Não queria transformar o marido num suspeito permanente, nem passar os dias à procura de sinais de uma coisa que ainda não sabia se existia.
Mas também não sabia como parar os pensamentos.
2. Quando o silêncio parece uma resposta
Numa manhã, Marcos recebeu uma mensagem enquanto se preparava para sair. Olhou para o telefone, respondeu rapidamente e guardou-o no bolso.
Matilde reparou no gesto.
— Quem era? — perguntou, tentando parecer natural.
— Uma mensagem do trabalho — respondeu ele.
— Ah, está bem.
Marcos continuou a preparar-se, sem perceber que aquela resposta simples tinha provocado uma nova discussão dentro da cabeça da esposa.
Será mesmo do trabalho?
Matilde repreendeu-se imediatamente por pensar assim. Afinal, Marcos já lhe tinha explicado que a chamada anterior estava relacionada com o trabalho? Não. Na verdade, ainda não tinham conversado sobre isso.
Ela continuava a adiar a conversa que prometia ter.
Queria respostas, mas tinha medo de perguntar. Queria sentir segurança, mas interpretava os pequenos acontecimentos através da insegurança. Desejava confiar, mas começava a procurar provas de que talvez não devesse confiar.
Era como tentar sair de um quarto escuro sem acender a luz.
Mais tarde, quando Marcos se aproximou para saber qual seria o almoço hoje? Matilde respondeu de forma fria.
— Qualquer coisa.
Ele olhou para ela.
— Estás chateada comigo?
— Não.
— Tens a certeza?
— Marcos, eu disse que não!
O marido ficou em silêncio, surpreendido com a reacção.
Matilde percebeu que tinha falado de maneira injusta, mas o orgulho impediu-a de pedir desculpas imediatamente.
Marcos afastou-se para continuar as suas tarefas.
Quando ficou sozinha, ela sentiu-se pior.
A dúvida que ainda não conseguia explicar começava a afectar a forma como tratava alguém que amava.
Naquele momento, Matilde começou a compreender que o problema já não estava apenas naquela chamada. Estava também na maneira como o medo estava a influenciar as suas atitudes.
3. A conversa com a mãe
Naquela tarde, Matilde decidiu ligar à mãe, Helena.
As duas sempre tiveram uma relação próxima. Helena era uma mulher determinada, trabalhadora e habituada a enfrentar dificuldades sem demonstrar facilmente as suas fragilidades. Mesmo quando a vida se tornava pesada, procurava manter-se firme diante da filha.
Depois de conversarem sobre a gravidez e os preparativos para o nascimento do bebé, Helena percebeu que Matilde estava preocupada.
— Filha, o que se passa? A tua voz está diferente.
Matilde hesitou, mas acabou por contar à mãe sobre a chamada e sobre os pensamentos que a vinham perturbando.
Helena ouviu com atenção.
— E o teu marido explicou-te quem ligou? — Questionou.
— Ainda não lhe perguntei directamente.
— Então, como chegaste à conclusão de que pode haver alguma coisa errada?
Matilde ficou em silêncio.
— Mãe, eu não disse que tenho a certeza. Só sinto que há alguma coisa que não consigo compreender.
Helena demorou alguns segundos a responder.
— Filha, os sentimentos merecem ser ouvidos, mas também precisam de ser compreendidos. Sentires medo não significa que aquilo que temes esteja realmente a acontecer.
Matilde respirou fundo.
— Mas e se eu confiar e acabar por sofrer?
A pergunta saiu-lhe com uma intensidade que surpreendeu até a própria Matilde.
Helena percebeu que havia algo mais profundo naquela preocupação, mas não insistiu.
— Não posso prometer-te que nunca vais sofrer. Ninguém pode. Mas também não podes viver todos os dias a tentar evitar uma dor que ainda não aconteceu. Conversa com o teu marido. Procura compreender o que se passa. Não construas uma sentença antes de conheceres os factos.
Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
— Tenho medo de descobrir alguma coisa que mude tudo.
A mãe respondeu com ternura:
— Eu compreendo, filha. Mas lembra-te de que a verdade não se torna menos importante por termos medo dela. E, seja qual for a situação, é melhor enfrentá -la com clareza do que viver prisioneira de perguntas.
Depois de desligar, Matilde permaneceu sentada durante algum tempo.
As palavras da mãe faziam sentido. Ainda assim, despertavam nela um desconforto que não conseguia explicar completamente.
Por que razão tinha tanto medo de ser enganada?
A pergunta ficou suspensa na sua mente, mas uma lembrança antiga começou a aproximar-se. Uma lembrança que Matilde aprendeu a guardar num lugar silencioso do coração.
Ainda não estava preparada para a enfrentar.
4. O peso de imaginar o pior
Naquela noite, Marcos chegou a casa e encontrou Matilde mais calada do que o habitual.
Durante o jantar, falou sobre algumas dificuldades no trabalho e comentou que a empresa estava a passar por um período de incerteza. Matilde ouviu, mas estava tão ocupada com os próprios pensamentos que quase não prestou atenção ao que ele dizia.
— Estás a ouvir-me, Matilde?
Ela despertou.
— Sim, estou.
— O que achas do que te contei?
Matilde não sabia o que responder. Pediu-lhe que repetisse, e Marcos explicou novamente.
Depois do jantar, ele tratou de algumas coisas do filho, enquanto Matilde arrumava a cozinha.
Quando ficaram sozinhos, Marcos aproximou-se dela.
— Tenho sentido que estás distante. Fiz alguma coisa que te magoou?
Matilde abriu a boca para responder, mas voltou a hesitar.
Queria dizer-lhe tudo. Queria falar sobre a chamada, sobre o medo, sobre os pensamentos que a perseguiam. Mas não queria que ele pensasse que ela já o tinha condenado.
— Estou apenas cansada — respondeu.
Marcos observou-a por alguns segundos.
— Sei que a gravidez não tem sido fácil. Mas, se houver alguma coisa que te preocupe, podes falar comigo.
Ele tocou-lhe suavemente no ombro e afastou-se.
Matilde ficou imóvel.
Aquele convite para conversar deveria tê-la tranquilizado. No entanto, ela percebeu que era a própria pessoa que estava a impedir a conversa de acontecer.
Mais tarde, deitada na cama, começou a imaginar como seria a sua vida se descobrisse uma traição.
Pensou no filho. Pensou no bebé que estava prestes a nascer. Pensou na possibilidade de ter de criar duas crianças sem o apoio do marido. Imaginou a vergonha, a dor e a desilusão.
Os olhos encheram-se de lágrimas.
Mas, de repente, fez uma pergunta a si mesma:
Estou a sofrer por alguma coisa que aconteceu ou por tudo aquilo que imagino que pode acontecer?
A pergunta não resolveu o conflito, mas interrompeu por alguns instantes a sequência de pensamentos.
Matilde reconheceu que estava a sofrer antecipadamente por uma situação que não tinha sido confirmada.
Não significava que devia ignorar as suas preocupações. Significava que precisava de separar os factos dos medos e procurar esclarecimento em vez de continuar a construir cenários sozinha.
5. O primeiro passo para sair do tribunal
Matilde levantou-se, pegou num caderno e começou a escrever.
Na primeira linha, colocou:
O que realmente sei?
Escreveu que Marcos tinha recebido uma chamada enquanto tomava banho, que acabou saíndo do quarto para atender e que ainda não tinham conversado abertamente sobre o assunto.
Na segunda linha, escreveu:
O que estou a imaginar?
Ali, a lista era maior. Imaginava uma possível traição, uma pessoa desconhecida, segredos e uma família prestes a desmoronar.
Ao comparar as duas listas, ficou surpreendida.
Os factos eram poucos. Os cenários criados pela sua mente eram muitos.
Matilde pousou a caneta e fechou os olhos.
— Meu Deus, ajuda-me a pensar com clareza — sussurrou.
Lembrou-se de uma parte em que a Palavra de Deus fala sobre a importância de renovar a mente. Talvez a transformação de que precisava começasse precisamente ali: não em controlar tudo o que acontecia à sua volta, mas em aprender a responder de maneira diferente ao que não compreendia.
Pegou novamente no caderno e escreveu uma última frase:
Não preciso de acreditar em todos os meus pensamentos. Preciso de procurar a verdade e aprender a agir com sabedoria.
Na manhã seguinte, decidiu que falaria com Marcos.
Não queria interrogá - lo, vigiar o telefone ou procurar sinais escondidos em cada gesto. Queria ter uma conversa sincera, explicar o que sentia e ouvir a resposta dele.
Ainda tinha medo. Ainda havia perguntas sem resposta. E a origem daquela insegurança continuava parcialmente escondida, mesmo para ela própria.
Mas, pela primeira vez, Matilde começava a perceber que não precisava de deixar o medo ocupar o lugar da verdade.
O tribunal dentro da sua cabeça ainda não estava fechado.
Contudo, a mulher que ali vivia começava a questionar as suas próprias acusações.
E esse era um primeiro passo.
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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
Palavra bíblica — Romanos 12:2
“E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento...”
REFLEXÃO
Matilde estava a descobrir que os pensamentos influenciam os sentimentos e que os sentimentos podem influenciar as nossas atitudes. Quando alimentamos continuamente uma possibilidade assustadora, podemos começar a reagir como se ela já fosse uma realidade.
Havendo necessidade de Renovar a mente. Mas o que isso significa?
Renovar a mente não significa fingir que os problemas não existem, nem aceitar cegamente tudo o que os outros dizem. Significa aprender a examinar os nossos pensamentos, reconhecer aquilo que não sabemos e procurar uma resposta equilibrada.
A fé em Deus pode ajudar-nos nesse processo, dando-nos sabedoria para distinguir o medo da realidade, coragem para conversar e humildade para reconhecer quando precisamos de mudar a nossa maneira de pensar.
Não precisas de obedecer a todos os pensamentos que surgem na tua mente. Podes examiná-los à luz da verdade, da sabedoria e da Palavra de Deus.
REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. Que atitudes de Matilde mostram que a dúvida estava a começar a afectar o seu relacionamento com Marcos?
2. Por que razão Matilde tinha medo de perguntar directamente ao marido sobre a chamada?
3. Qual é a diferença entre reconhecer um sentimento e tratar esse sentimento como se fosse uma prova?
4. O exercício de separar os factos das suposições poderia ajudar-te numa situação semelhante? Como?
5. O que significa, na prática, renovar a mente e permitir que Deus transforme a nossa maneira de pensar?
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
O medo pode levantar perguntas, mas não deve escrever sozinho as respostas.
Antes de tirares conclusões, examina os factos, reconhece os teus sentimentos e procura agir com sabedoria. Deus pode ajudar-te a enfrentar aquilo que não compreendes sem que percas o equilíbrio, a dignidade ou a capacidade de amar.
ORAÇÃO FINAL
Senhor meu Deus, ajuda-me a reconhecer os pensamentos que me roubam a paz. Ensina-me a distinguir aquilo que realmente sei daquilo que apenas temo.
Renova a minha mente e dá-me sabedoria para não agir por impulso, coragem para conversar com sinceridade e humildade para reconhecer as minhas falhas.
Se existem feridas antigas a influenciar a maneira como vejo as pessoas e interpreto as situações, ajuda-me a identificá-las no tempo certo e a encontrar em Ti o caminho da cura.
Que eu não seja governada pelo medo, mas conduzida pela verdade, pelo amor e pelo discernimento que vêm de Ti.
Em nome de Jesus, amém.
Continua
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