Quando o coração não sabe o que acreditar
Por Liandra Langa
CAPÍTULO 8
A PORTA QUE SE FECHA
A manhã começou como tantas outras.
Matilde preparou o pequeno-almoço, ajudou o filho a vestir-se e organizou algumas coisas para a chegada do bebé. Marcos estava mais calado do que o habitual. Olhava repetidamente para o telemóvel, como se esperasse uma notícia que pudesse mudar o rumo daquele dia.
Matilde percebeu a sua inquietação, mas decidiu não tirar conclusões precipitadas.
— Estás à espera de alguma chamada? — perguntou.
— Sim. Disseram-me que hoje comunicariam a decisão sobre a situação da empresa.
Ela sentiu um aperto no peito.
— Espero que tudo corra bem.
Marcos segurou-lhe a mão.
— Seja qual for a decisão, vamos enfrentar juntos.
Aquelas palavras trouxeram-lhe algum conforto. Ainda assim, Matilde sabia que, por mais que tentasse preparar-se, ouvir uma notícia difícil seria doloroso.
Pouco depois, o telemóvel tocou.
Marcos atendeu. Do outro lado, uma voz explicou que, devido às dificuldades financeiras da empresa e à redução de pessoal, o seu posto de trabalho seria encerrado.
Ele ouviu em silêncio, fez algumas perguntas e agradeceu a informação antes de desligar.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel.
Matilde aproximou-se devagar.
— Marcos, o que aconteceu?
Ele olhou para ela. Os seus olhos revelavam uma tristeza que tentava esconder.
— Perdi o emprego, Matilde.
As palavras ficaram suspensas no ar.
Matilde sentiu as pernas enfraquecerem. A notícia que tanto temia tinha-se tornado realidade. Pensou nas despesas da casa, nas necessidades do filho, no bebé que estava prestes a nascer e em todas as responsabilidades que pareciam aumentar de repente.
O primeiro impulso foi perguntar por que razão aquilo estava a acontecer justamente naquele momento.
Mas, antes de falar, lembrou-se das conversas que tinham tido. Recordou-se de que não precisava de resolver tudo naquele instante e de que o medo não deveria decidir as suas palavras.
Aproximou-se do marido e abraçou-o.
— Sinto muito, Marcos.
Ele baixou a cabeça.
— Não sei o que fazer. Fiz o meu trabalho com responsabilidade, tentei dar o meu melhor, mas não foi suficiente para impedir esta decisão.
Matilde percebeu que, por trás da preocupação com o dinheiro, existia também uma ferida na autoestima do marido. Marcos não tinha perdido apenas o salário. Estava a lidar com a sensação de que os seus esforços não tinham sido suficientes para manter a estabilidade da família.
— O facto de teres perdido o emprego não significa que deixaste de ser capaz — disse ela. — Esta situação é difícil, mas não define o teu valor como homem, marido ou pai.
Marcos apertou-a nos braços. Pela primeira vez desde que recebeu a notícia, permitiu-se chorar.
Matilde também chorou.
Não tentou fingir que tudo estava bem. Não prometeu que seria fácil nem afirmou que a solução apareceria imediatamente. Naquele momento, ambos precisavam de reconhecer a dor antes de começarem a procurar uma saída.
QUANDO O MEDO TENTA VOLTAR
Naquela tarde, depois de Marcos sair para tratar de alguns documentos relacionados com o trabalho, Matilde ficou sozinha em casa.
O silêncio parecia mais pesado do que antes.
Começou a fazer contas mentalmente. O dinheiro que tinham guardado, as despesas com alimentação, a renda, os cuidados de saúde e as necessidades das crianças.
Pouco a pouco, a preocupação transformou-se em ansiedade.
E se não conseguirmos pagar as despesas?
E se o Marcos demorar muito tempo a encontrar outro emprego?
E se a nossa relação não resistir a esta pressão?
A última pergunta surpreendeu-a.
Por que razão estava a associar uma dificuldade financeira à possibilidade de a relação fracassar? Será que estava novamente a permitir que o medo de perder a segurança a conduzisse para cenários que ainda não tinham acontecido?
Matilde sentou-se e respirou fundo.
A situação era real. Marcos tinha perdido o emprego. As dificuldades financeiras poderiam surgir, e era necessário preparar-se.
Mas a ideia de que aquela perda destruiria a família ainda era uma previsão, não um facto.
Pegou no seu caderno e escreveu:
O que sei:
- Marcos perdeu o emprego.
- As nossas despesas continuam a existir.
- Precisamos de reorganizar o orçamento familiar.
- Ainda não sabemos quanto tempo demorará até surgir outra oportunidade.
O que temo:
- Que não consigamos superar esta fase.
- Que a pressão financeira nos afaste.
- Que os meus medos antigos voltem a controlar as minhas decisões.
Ao terminar, Matilde percebeu que precisava de levar a sério os problemas reais sem transformar cada possibilidade negativa numa certeza.
A fé não apagaria as contas nem faria desaparecer as responsabilidades. Mas poderia ajudá-la a enfrentar aquela fase sem perder a esperança.
UMA CONVERSA NECESSÁRIA
Quando Marcos regressou, encontrou Matilde sentada à mesa, com o caderno aberto.
— Estiveste a fazer contas? — perguntou.
— Sim. Precisamos de compreender a nossa situação e decidir o que podemos fazer.
Marcos sentou-se diante dela.
— Tenho medo de não conseguir sustentar a família.
— Eu também tenho medo — respondeu Matilde. — Mas não quero que comecemos a esconder as nossas preocupações um do outro. Se a situação ficar difícil, precisamos de conversar. Não quero que sintas que tens de carregar tudo sozinho, nem quero voltar a imaginar coisas por não saber o que se passa.
Ele concordou.
Os dois começaram a analisar as despesas. Identificaram aquilo que era indispensável, o que poderia ser reduzido e as pequenas reservas de que dispunham. Marcos decidiu actualizar o currículo, contactar antigos colegas e procurar novas oportunidades profissionais.
Matilde pensou também naquilo que poderia fazer para contribuir, respeitando as suas condições durante a gravidez.
Não encontraram uma solução imediata. O dinheiro continuava limitado, e não havia garantia de que Marcos conseguiria um novo emprego rapidamente.
Ainda assim, aquela conversa trouxe-lhes uma sensação de direcção.
Não controlavam todas as circunstâncias, mas podiam tomar decisões em conjunto.
— Marcos — disse Matilde, depois de terminarem as contas —, talvez não consigamos manter tudo exactamente como antes. Mas quero que saibas que não precisas de enfrentar esta fase sozinho.
Ele olhou para ela com gratidão.
— Obrigado por estares comigo. Eu também quero aprender a falar contigo, mesmo quando não tenho respostas.
UMA PORTA FECHADA NÃO É O FIM DA HISTÓRIA
Naquela noite, Matilde procurou um momento de oração.
Abriu a Bíblia e leu o Salmo 37:5
“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará.”
Leu a passagem mais uma vez.
Durante muito tempo, tinha imaginado que confiar em Deus significava que as coisas acabariam por acontecer da maneira que desejava. Agora começava a compreender que a confiança também precisava de espaço para a espera, para o esforço e para as mudanças inesperadas.
Ela não sabia quando Marcos voltaria a trabalhar. Não sabia como seriam os meses seguintes. Não podia garantir que a família não enfrentaria momentos de escassez.
Mas podia escolher não permitir que o medo destruísse a união que estavam a construir.
— Senhor — orou —, esta não era a notícia que desejávamos receber. Estamos preocupados e não sabemos exactamente como será o nosso futuro. Ajuda-nos a agir com sabedoria, a não perder o respeito um pelo outro e a reconhecer as oportunidades que surgirem. Dá-nos força para enfrentar esta fase sem esquecer o que realmente importa.
Depois da oração, Matilde foi até ao quarto e observou o filho a dormir. Colocou a mão sobre a barriga, sentindo o bebé mexer-se.
A vida continuava a crescer dentro dela, mesmo quando tantas coisas pareciam incertas.
Naquele instante, compreendeu que a perda do emprego era uma realidade difícil, mas não precisava de se transformar numa sentença sobre o futuro da família.
A porta do trabalho de Marcos tinha-se fechado. Outras oportunidades ainda não eram visíveis, e o caminho seguinte exigiria esforço, paciência e coragem.
Matilde apagou a luz e deitou-se ao lado do marido.
Não tinha todas as respostas. Ainda sentia medo. Mas já não acreditava que precisava de prever todas as dores para conseguir sobreviver a elas.
Estava a aprender que a esperança não consiste em negar a realidade. Consiste em olhar para a realidade com coragem e continuar a procurar caminhos.
Naquela noite, Matilde não sabia quando outra porta se abriria. Mas decidiu que não permitiria que uma porta fechada apagasse a esperança que ainda existia dentro da sua casa.
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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
Tema: Quando uma porta se fecha, não percas a esperança.
Palavra bíblica — Salmo 37:5
“Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará.”
Existem perdas que nos obrigam a reorganizar a vida. A perda de um emprego, uma oportunidade que não se concretiza ou um plano que falha podem despertar medo, tristeza e insegurança.
Matilde e Marcos descobriram que a fé não os dispensava de enfrentar a realidade. Precisavam de rever as despesas, procurar oportunidades e conversar honestamente sobre as suas preocupações.
Confiar em Deus não significa esperar sem agir. Significa procurar a Sua orientação enquanto fazemos aquilo que está ao nosso alcance.
Também aprendemos que uma dificuldade não define o valor de uma pessoa. Marcos perdeu o emprego, mas não perdeu a sua dignidade, as suas capacidades nem o seu papel na família.
Não confundas uma fase difícil com o fim da tua história. O que estás a viver hoje merece atenção, mas não determina, por si só, tudo o que ainda poderás viver amanhã.
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REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. Como reagiu Matilde ao receber a notícia de que Marcos tinha perdido o emprego? O que revela essa reacção sobre o seu crescimento emocional?
2. Por que foi importante distinguir os problemas reais dos medos que ainda não tinham acontecido?
3. Como a perda do emprego poderia afectar a autoestima de Marcos? De que forma Matilde o ajudou?
4. O que significa confiar em Deus e, ao mesmo tempo, tomar medidas práticas para enfrentar uma dificuldade?
5. Se estivesses no lugar deste casal, que três medidas tomarias primeiro para enfrentar a perda de rendimento?
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PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
- Uma perda não define o valor de uma pessoa.
- Enfrentar a realidade é diferente de entregar-se ao desespero.
- A união não elimina os problemas, mas ajuda a enfrentá-los.
- A fé pode caminhar ao lado do planeamento e da responsabilidade.
- Uma porta fechada não significa que todas as possibilidades desapareceram.
ORAÇÃO FINAL
Senhor, fortalece o meu coração nos dias em que as notícias não são aquelas que eu esperava. Ajuda-me a não confundir uma perda com o fim da minha história. Dá-me sabedoria para reorganizar a minha vida, humildade para pedir ajuda e coragem para procurar novas oportunidades. Ensina-me a preservar o amor e o respeito dentro da minha família, mesmo quando as dificuldades aumentarem. Que eu não perca a esperança nem deixe que o medo me impeça de agir. Em nome de Jesus, amém.
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