ENTRE A DÚVIDA E A FÉ
Quando o coração não sabe o que acreditar
Por Liandra Langa
CAPÍTULO 4
A CONVERSA DIFÍCIL
1. A coragem de começar
Matilde passou boa parte daquela manhã a pensar na conversa que precisava de ter com Marcos.
Desde que decidiu falar abertamente com Marcos, começou o ensaio mental das palavras. Por vezes, imaginava que ele compreenderia a sua preocupação. Noutras ocasiões, receava que ele interpretasse as perguntas como uma acusação.
Ainda que estivesse cansada de guardar tudo dentro de si, ainda não sabia como começar.
Enquanto organizava as roupas do bebé, ouviu o telefone tocar. Era Marcos.
— Meu amor, como estás? — perguntou ele.
— Estou bem. E tu?
— Estou bem. Só queria saber como estão as minhas duas pessoas favoritas.
Matilde sorriu.
— Duas? E o nosso menino?
Marcos riu-se.
— Ele é o chefe da equipa. Tu e o bebé são as minhas duas pessoas favoritas.
A conversa terminou com algumas brincadeiras, mas Matilde continuou pensativa.
Aquele era o homem com quem construíra uma família. Não queria magoá-lo com acusações injustas, mas também não queria continuar a fingir que estava tudo bem.
Decidiu que, quando ele regressasse a casa, falaria com sinceridade.
Não procuraria palavras perfeitas. Procuraria apenas falar com respeito e ouvir com atenção.
2. Uma pergunta que demorou a sair
Ao fim do dia, Marcos chegou a casa. Depois de saudar a família, tomou banho e ajudou a preparar o jantar.
Durante a refeição, conversaram sobre o filho, as despesas da casa e os preparativos para o nascimento doutro bebé. Tudo parecia normal.
Mas Matilde sabia que não conseguiria continuar a adiar aquela conversa.
Quando terminaram de jantar, pediu-lhe que se sentasse um pouco com ela.
— Marcos, podemos conversar?
Ele olhou para ela com atenção.
— Claro, meu amor. Aconteceu alguma coisa?
Matilde respirou fundo.
— Quero falar sobre aquela chamada que recebeste enquanto tomavas banho.
Marcos pareceu tentar recordar-se.
— A chamada de que estás a falar?
— Aquela em que saíste depressa da casa de banho 🧼 para atender. Desde esse dia, tenho pensado muito nisso, você me entende 😔.
Ele ficou em silêncio, à espera que ela continuasse.
Matilde sentiu o coração acelerar.
— Não quero acusar-te de nada. Mas aquela situação deixou-me inquieta. Fiquei com perguntas e, em vez de falar contigo, comecei a imaginar várias coisas.
Marcos franziu ligeiramente a testa.
— Estás a pensar que te estou a esconder alguma coisa?
— Não sei, Marcos. É precisamente isso que me preocupa. Eu não sei. Não tenho provas de nada, mas também não consegui ficar tranquila.
Pela primeira vez, Matilde tinha conseguido colocar em palavras aquilo que vinha a carregar sozinha.
Agora precisava de ouvir.
3. A resposta de Marcos
Marcos passou a mão pelo rosto e respirou fundo.
— Matilde, aquela chamada era do meu chefe. Precisava de falar comigo sobre um assunto do trabalho. Saí do quarto porque estava com pressa de perceber o que ele queria.
Matilde permaneceu calada.
A resposta era simples. Não envolvia nenhuma mulher desconhecida, nenhum segredo amoroso ou qualquer das histórias que a sua mente tinha construído.
Marcos continuou:
— Não percebi que isso te tinha deixado tão preocupada. Se soubesse, teria explicado naquela noite.
Matilde sentiu algum alívio, mas, ao mesmo tempo, ficou envergonhada por ter passado tantos dias a imaginar o pior.
— Desculpa — disse ela. — Eu sei que não devia ter criado tantas histórias na minha cabeça.
Marcos aproximou-se um pouco.
— Não precisas de pedir desculpa por sentires alguma coisa, Matilde, meu amor. Mas gostaria de pedir que me fales quando algo te preocupa. Não quero que fiques sozinha a imaginar coisas que podemos esclarecer juntos.
Ela olhou para o marido.
— E se eu tiver medo de te perguntar?
— Então diz-me que tens medo. Podemos conversar sobre isso. Não temos de resolver tudo de uma vez.
Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
Durante vários dias, tinha imaginado que aquela conversa poderia terminar numa discussão. Afinal, Marcos estava disposto a ouvi-la.
No entanto, uma pergunta continuava dentro dela.
Se a chamada tinha uma explicação tão simples, por que razão ela tinha ficado tão perturbada?
A resposta de Marcos esclarecia o acontecimento, mas não explicava completamente a intensidade do seu medo.
4. O que uma conversa revelou
Os dois ficaram algum tempo sentados, sem pressa de terminar a conversa.
Matilde decidiu partilhar algo que ainda não tinha conseguido explicar bem.
— Marcos, acho que tenho de te contar uma coisa. Às vezes, quando acontece algo que não compreendo, começo a pensar em tudo o que pode correr mal. Mesmo quando não tenho provas, tenho dificuldade em parar.
Marcos ouviu com atenção.
— Não sabia que estavas a passar por isso.
— Eu também não compreendia a dimensão do problema. Pensava que bastava dizer a mim mesma para não ter medo. Mas não é tão simples.
Marcos segurou-lhe a mão.
— Quero que te sintas segura comigo. Sei que não sou perfeito e que nem sempre percebo aquilo de que precisas. Mas quero que possamos falar sobre as coisas, mesmo quando são difíceis.
Matilde apertou-lhe a mão.
— Eu também quero isso. Não quero que sintas que tens de provar constantemente que não fizeste nada de errado. Mas preciso de aprender a falar sobre o que sinto sem transformar o medo numa acusação.
Marcos concordou.
Os dois perceberam que, nos últimos tempos, as conversas entre eles tinham ficado demasiado concentradas nas responsabilidades diárias. Falavam das contas, das compras, da gravidez, do filho e do trabalho. Quase nunca paravam para perguntar um ao outro como estavam emocionalmente.
Tinham aprendido a organizar uma casa, mas precisavam de continuar a aprender a cuidar da relação.
Naquela noite, decidiram reservar algum tempo para conversarem com mais frequência, sem telefones nem outras distracções. Não fizeram promessas impossíveis. Apenas concordaram em tentar escutar-se melhor e não deixar que os problemas se acumulassem no silêncio.
Matilde sentiu-se mais tranquila.
Mas sabia que precisava de compreender a origem daquela insegurança. Não queria que o mesmo medo voltasse a controlar as suas reacções sempre que surgisse uma situação inesperada.
5. Uma paz que ainda precisava de crescer
Mais tarde, já deitada, Matilde recordou a conversa.
Sentia gratidão por Marcos a ter ouvido e por ter conseguido falar sem transformar a sua inquietação numa discussão.
Mesmo assim, percebeu que a paz que sentia ainda era frágil.
Uma parte dela continuava a querer garantias de que nunca seria enganada, nunca seria abandonada e nunca teria de enfrentar uma desilusão.
Mas quem poderia garantir-lhe que a vida nunca traria sofrimento?
Matilde compreendeu que não podia controlar todas as circunstâncias nem conhecer antecipadamente tudo o que aconteceria no seu casamento. Podia, porém, aprender a comunicar melhor, observar a realidade com equilíbrio e procurar ajuda quando as suas emoções se tornassem difíceis de gerir.
Também podia entregar os seus medos a Deus, sem esperar que uma oração apagasse instantaneamente todas as suas inseguranças.
Pegou na Bíblia e leu algumas palavras sobre o amor.
Pensou na importância da paciência, da verdade e da confiança. Percebeu que amar não significava nunca sentir medo. Significava também aprender a lidar com esse medo sem ferir injustamente a pessoa amada.
Fechou os olhos e fez uma pequena oração.
— Senhor, obrigada porque consegui conversar. Ajuda-me a compreender o que ainda existe dentro de mim e ensina-me a amar sem permitir que o medo controle as minhas atitudes.
Naquela noite, Matilde adormeceu com mais tranquilidade.
A chamada tinha sido esclarecida. A conversa tinha aproximado o casal. Mas uma pergunta permanecia no fundo do seu coração:
Por que tenho tanto medo de ser enganada, mesmo quando não tenho motivos concretos para acreditar que isso está a acontecer?
A resposta não estava apenas no presente.
Estava ligada a uma história antiga, a experiências que Matilde aprendeu a observar em silêncio e a uma dor que ainda não reconhecia completamente como parte da sua própria vida.
Chegou o momento de olhar para trás.
Não para viver presa ao passado, mas para compreender como algumas experiências antigas podem continuar a influenciar as nossas escolhas, mesmo quando pensamos que já as deixámos para trás.
---
UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
Palavra bíblica — Efésios 4:15
“Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.”
REFLEXÃO
Matilde percebeu que o silêncio estava a aumentar a sua inquietação. Quando finalmente conversou com Marcos, teve a oportunidade de esclarecer a situação e de expressar o que sentia sem o acusar injustamente.
A comunicação saudável exige coragem para falar e humildade para ouvir. Não significa que todas as conversas terão respostas agradáveis ou que todos os problemas serão resolvidos imediatamente. Significa que devemos procurar a verdade com respeito, evitando transformar suspeitas em acusações.
A fé cristã ensina-nos a valorizar a verdade e o amor. Um não deve ser usado para destruir o outro: a verdade sem amor pode ferir desnecessariamente, enquanto o amor sem sinceridade pode manter problemas escondidos.
Conversar com amor não é esconder aquilo que nos preocupa. É encontrar uma maneira respeitosa e honesta de o expressar.
REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. O que impedia Matilde de conversar abertamente com Marcos desde o início?
2. Como a resposta de Marcos ajudou a esclarecer a situação?
3. Por que razão o esclarecimento da chamada não eliminou imediatamente todos os medos de Matilde?
4. O que o casal descobriu sobre a comunicação dentro do casamento?
5. Como podes aplicar o princípio de falar a verdade em amor nas tuas relações familiares ou pessoais?
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
Uma conversa sincera pode esclarecer uma situação; compreender as nossas emoções pode ajudar-nos a mudar a maneira como enfrentamos situações futuras.
Não tenhas medo de comunicar aquilo que te preocupa. Procura falar com respeito, ouvir sem preconceitos e reconhecer quando os teus sentimentos precisam de ser compreendidos com mais profundidade.
ORAÇÃO FINAL
Senhor, ensina-me a comunicar com amor e sinceridade. Dá-me coragem para expressar as minhas preocupações sem ferir, e humildade para ouvir sem tirar conclusões precipitadas.
Ajuda-me a construir relações onde a verdade, o respeito e a confiança tenham lugar. Mostra-me também as áreas do meu coração que ainda precisam de cura, para que eu não permita que experiências antigas determinem todas as minhas atitudes no presente.
Que a Tua Palavra me ajude a crescer em sabedoria, equilíbrio e amor.
Em nome de Jesus, amém.
Nenhum comentário:
Postar um comentário