Quando o coração não sabe o que acreditar
Prólogo
Há batalhas que ninguém vê.
Acontecem em silêncio, no interior de um coração que sorri diante dos outros, mas que, quando fica sozinho, enfrenta perguntas que parecem não ter fim.
Existem pessoas que desejam amar tranquilamente, construir uma família e viver em paz, mas que carregam dentro de si o medo de perder aquilo que mais amam. Não porque necessariamente estejam a viver uma traição, mas porque, em algum momento da vida, aprenderam que o amor também pode trazer sofrimento.
Matilde era uma dessas pessoas.
Aos trinta anos, tinha motivos para agradecer. Era casada com Marcos, um homem trabalhador, e juntos tinham um filho de dois anos. Além disso, esperavam a chegada do segundo bebé, uma nova vida que prometia encher a casa de alegria.
Aos olhos de quem observava a família, Matilde tinha tudo para ser feliz.
Mas nem sempre aquilo que vemos no exterior corresponde àquilo que alguém enfrenta no interior.
Dentro de Matilde existia uma inquietação que, por vezes, nem ela própria conseguia explicar. Uma chamada telefónica, uma resposta diferente, um silêncio inesperado ou uma expressão preocupada do marido eram suficientes para despertar perguntas que se multiplicavam na sua mente.
Será que ele está a esconder alguma coisa?
Será que posso confiar plenamente no homem que amo?
E se um dia eu descobrir que tudo aquilo em que acredito é uma mentira?
Matilde nem sempre tinha provas para as suas suspeitas. Muitas vezes, tinha apenas perguntas, sensações e cenários que a sua própria mente construía. Ainda assim, os pensamentos pareciam tão reais que, por vezes, era difícil distinguir o que estava realmente a acontecer daquilo que temia que acontecesse.
O mais doloroso era que ela não queria viver assim.
Queria amar sem estar constantemente à procura de sinais de perigo. Queria ouvir o marido sem imaginar significados escondidos em cada palavra. Queria desfrutar da sua família sem sentir que precisava de estar sempre preparada para uma possível desilusão.
Mas como se abandona um medo que parece ter criado raízes no coração?
Como se aprende a confiar quando as experiências do passado nos ensinaram a esperar pelo pior?
E como se permite que Deus transforme aquilo que durante tanto tempo nos fez sofrer?
Matilde estava prestes a descobrir que nem todas as batalhas começam no presente. Algumas têm raízes em acontecimentos antigos, em dores que observámos, em palavras que ouvimos e em promessas silenciosas que fizemos a nós mesmos para nunca sofrermos da mesma maneira.
Sem perceber, ela tinha levado para o casamento mais do que os seus sonhos. Também tinha levado os seus receios.
E, enquanto tentava proteger o coração de uma possível traição, corria o risco de não conseguir desfrutar plenamente do amor que já existia na sua vida.
Contudo, esta não é apenas uma história sobre dúvida. É também uma história sobre consciência, diálogo, fé e transformação.
Ao longo do caminho, Matilde terá de aprender que sentir medo não significa que aquilo que teme seja verdade; que confiar não significa ignorar a realidade; e que ter fé não significa nunca fazer perguntas.
Terá de olhar para as feridas que evitou durante tantos anos, reconhecer os pensamentos que a aprisionam e descobrir que o passado pode explicar algumas das suas reacções, mas não precisa de escrever todo o seu futuro.
Acima de tudo, terá de compreender que a cura não acontece simplesmente porque desejamos deixar de sofrer. Exige coragem para reconhecer a dor, sabedoria para procurar ajuda, disposição para mudar e fé para continuar a caminhar mesmo quando ainda não temos todas as respostas.
Talvez, ao acompanhar Matilde, reconheças alguma parte da tua própria história.
Talvez também tenhas sentido medo de perder alguém, dificuldade em confiar ou necessidade de encontrar respostas para perguntas que nunca te deram descanso.
Se assim for, esta história é também um convite para olhares para dentro de ti com honestidade e compaixão.
Porque, por vezes, aquilo de que precisamos não é de mais provas para alimentar os nossos medos, mas de sabedoria para compreender o que sentimos, coragem para enfrentar a verdade e fé para não permitir que as feridas antigas determinem as nossas escolhas.
Matilde ainda não sabia, mas a maior batalha que enfrentaria não seria apenas contra as circunstâncias da sua vida.
Seria também contra os pensamentos que a faziam duvidar, contra as memórias que ainda a magoavam e contra o medo de voltar a viver uma dor que nunca tinha sido verdadeiramente sua.
Entre a dúvida e a fé, ela teria de descobrir um caminho.
Um caminho em que confiar não significasse fechar os olhos, amar não significasse viver em constante vigilância e acreditar em Deus não significasse fingir que tudo estava bem.
Um caminho de verdade, maturidade e recomeço.
Porque, às vezes, a maior transformação começa quando deixamos de perguntar apenas “E se eu voltar a sofrer?” e começamos a perguntar “Senhor, como posso aprender a viver sem deixar que o medo governe o meu coração?”
Esta é a história de Matilde. Uma mulher entre a dúvida e a fé, entre as feridas do passado e a esperança de um futuro diferente.

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