terça-feira, 20 de outubro de 2026

QUANDO A DÚVIDA VOLTA

 

CAPÍTULO 6


QUANDO A DÚVIDA VOLTA


Matilde acreditava que, depois da conversa com Marcos e da descoberta de que os seus medos estavam ligados às feridas do passado, finalmente conseguiria descansar o coração.


Durante alguns dias, sentiu-se mais tranquila. Já não observava cada movimento do marido com a mesma desconfiança, e começou a esforçar-se para não transformar pequenos acontecimentos em grandes suspeitas.


Contudo, a tranquilidade nem sempre permanece quando as feridas ainda estão em processo de cura.


Numa noite, depois de colocar o filho de dois anos a dormir, Matilde encontrou Marcos sentado na sala, com o telemóvel numa mão e alguns papéis espalhados sobre a mesa. Ele parecia preocupado.


— Está tudo bem, amor? — perguntou ela, aproximando-se.


Marcos levantou os olhos, tentou sorrir e respondeu:


— Está tudo bem. Só estou a resolver algumas coisas do trabalho.


Matilde olhou para os papéis, mas não insistiu. Foi para o quarto, embora a expressão preocupada do marido continuasse na sua mente.


Mais tarde, quando Marcos entrou no quarto, ela percebeu que ele continuava pensativo.


— Marcos, aconteceu alguma coisa que ainda não me contaste?


Ele ficou em silêncio por alguns segundos.


— Matilde, há uma situação no trabalho que me está a preocupar. A empresa não está a atravessar um bom momento, e existe a possibilidade de eu perder o emprego.


As palavras atingiram Matilde como um balde de água fria.


— Perder o emprego? — perguntou, levando a mão à barriga. — E há quanto tempo sabes disso?


— Recebi algumas informações há uns dias. Ainda não é uma decisão definitiva. Queria compreender melhor a situação antes de te preocupar, principalmente porque estás grávida e já tens passado por momentos de ansiedade.


Matilde baixou os olhos.


Uma parte dela compreendia a intenção do marido. Outra parte sentia-se magoada por não ter sido informada desde o início.


— Marcos, eu sei que querias proteger-me, mas esconder de mim uma coisa tão importante não me ajuda a sentir-me segura. Sou tua esposa. Também preciso de saber o que está a acontecer na nossa vida.


— Tens razão — respondeu ele. — Talvez eu tenha tentado carregar tudo sozinho. Fiquei com medo de não conseguir sustentar a família e de te ver sofrer.


Pela primeira vez naquela conversa, Matilde percebeu que a preocupação de Marcos não estava relacionada com outra mulher, mas com o futuro da família.


Mesmo assim, a dúvida voltou a tentar encontrar espaço na sua mente.


Será que ele está a contar-me tudo? Será que existe alguma outra coisa que ainda não sei?


Matilde reconheceu aquele caminho. Era o mesmo tribunal interior onde, tantas vezes, os seus medos se transformavam em acusações antes de existirem provas.


Respirou fundo.


— Marcos, estou com medo — confessou. — Não apenas por causa do emprego, mas porque, quando descubro que não sei alguma coisa, começo a imaginar tantas possibilidades. Às vezes, tenho dificuldade em distinguir aquilo que está realmente a acontecer daquilo que tenho medo que aconteça.


Marcos aproximou-se e segurou-lhe a mão.


— Não precisamos de resolver tudo hoje. Mas quero que saibas que podes falar comigo. Também preciso de aprender a partilhar contigo as minhas preocupações, em vez de tentar resolver tudo sozinho.


Matilde sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.


Naquela noite, os dois conversaram sobre as despesas da casa, as necessidades do filho e a chegada do bebé. Falaram sobre a possibilidade de reduzir alguns gastos e de Marcos procurar outras oportunidades de trabalho, caso a situação se agravasse.


Não tinham todas as respostas. Não sabiam se Marcos perderia o emprego, quanto tempo duraria aquela fase ou como enfrentariam as dificuldades.


Mas, pela primeira vez, Matilde compreendeu que a segurança de uma família não depende de nunca enfrentar problemas. Também depende da capacidade de os enfrentar em conjunto.


Antes de dormir, pegou na Bíblia e leu uma passagem que conhecia, mas que naquela noite parecia falar directamente ao seu coração:


“Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente.” — Tiago 1:5.


Matilde fechou os olhos e orou:


— Senhor, dá-me sabedoria para não confundir o medo com a verdade. Ajuda-me a não julgar antes de compreender. Ensina-me a falar quando estiver magoada, a ouvir quando estiver assustada e a confiar em Ti enquanto procuro fazer a minha parte. Cura em mim aquilo que ainda me faz sofrer e ajuda-me a construir uma família onde exista verdade, diálogo e amor. Amém.


Naquela noite, Matilde não acordou com todas as suas dúvidas resolvidas. A possibilidade de perderem o emprego continuava a preocupá-la, e a antiga ferida ainda precisava de tempo para sarar.


Mas uma coisa tinha mudado: ela já não queria fugir de cada medo nem permitir que todos os seus pensamentos se transformassem em certezas.


Estava a aprender a parar, observar, conversar e procurar sabedoria antes de tirar conclusões.


A dúvida tinha voltado. Mas, desta vez, Matilde estava a aprender a responder-lhe de maneira diferente.


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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


A dúvida pode voltar, mas não precisa de governar a nossa vida.


Palavra bíblica — Tiago 1:5

“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente.”


A cura interior nem sempre acontece de uma só vez. Existem momentos em que pensamos ter ultrapassado um medo, mas uma nova situação desperta sentimentos antigos.


Isso não significa necessariamente que falhámos ou que não temos fé. Pode significar que ainda estamos a aprender a responder às nossas emoções de forma mais saudável.


A fé não nos obriga a ignorar os problemas, a fingir que não sentimos medo ou a aceitar tudo sem perguntas. Ela pode ajudar-nos a procurar sabedoria, a enfrentar a realidade com coragem e a não permitir que as experiências dolorosas do passado determinem todas as nossas decisões presentes.


Matilde ainda tinha dúvidas, mas começou a perceber que podia escolher o que fazer com elas.


Não é a ausência de medo que demonstra crescimento, mas a capacidade de não deixar que o medo decida tudo por nós.


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REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA


1. Matilde sentiu-se magoada quando descobriu que Marcos estava preocupado com a possibilidade de perder o emprego. Achas que ela tinha motivos para conversar com ele sobre a falta de comunicação? Porquê?

2. Marcos tentou proteger Matilde, mas não partilhou imediatamente a sua preocupação. Que consequências podem surgir quando, num relacionamento, alguém esconde informações importantes com a intenção de proteger o outro?

3. Quando Matilde pensou que talvez existisse outra coisa que Marcos não lhe estava a contar, o que estava a acontecer dentro dela? Como poderia distinguir os factos dos seus receios?

4. O que aprendemos com a decisão de Matilde de conversar, em vez de transformar imediatamente os seus pensamentos em acusações?

5. Se estivesses no lugar de Matilde, como enfrentarias a possibilidade de o teu companheiro perder o emprego enquanto esperas a chegada de outro filho?


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PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


- Nem todo o pensamento assustador corresponde à realidade.

- As feridas do passado podem influenciar o presente, mas não precisam de determinar o nosso futuro.

- O diálogo honesto ajuda a construir confiança.

- A fé não elimina a necessidade de agir com responsabilidade.

- Pedir sabedoria a Deus também significa ter coragem para conversar, ouvir e procurar soluções.


Lembra-te: não precisas de ter todas as respostas para dar o próximo passo. Podes confiar em Deus e, ao mesmo tempo, enfrentar a realidade com sabedoria.


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ORAÇÃO FINAL

Senhor meu Deus, quando os medos antigos voltarem a bater à porta do meu coração, ajuda-me a não agir precipitadamente. Ensina-me a distinguir os factos das minhas suposições e a procurar a verdade com amor e sabedoria. Cura as feridas que ainda influenciam as minhas decisões e ajuda-me a construir relacionamentos saudáveis, baseados no respeito, no diálogo e na confiança. Que a minha fé seja mais forte do que a ansiedade e que eu encontre em Ti a sabedoria necessária para enfrentar cada desafio. Em nome de Jesus, amém.

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