CAPÍTULO 7
QUANDO NÃO TEMOS TODAS AS RESPOSTAS
Havia perguntas para as quais Matilde não encontrava respostas.
Como pagariam as despesas da casa se Marcos perdesse o emprego? Como garantiriam tudo de que os filhos precisavam? E como enfrentaria ela aquela fase, estando grávida de oito meses e emocionalmente tão sensível?
Durante os dias seguintes, essas perguntas acompanhavam-na por toda a parte.
Enquanto preparava o pequeno-almoço, pensava nas contas. Quando brincava com o filho, preocupava-se com o futuro. À noite, quando se deitava ao lado de Marcos, tentava imaginar como seria a vida da família se o pior acontecesse.
Certa manhã, encontrou o marido sentado à mesa, com o olhar fixo numa folha de papel.
— Voltaste a receber notícias do trabalho? — perguntou.
Marcos pousou a folha e respirou fundo.
— Sim. A situação está mais complicada do que eu esperava. Ainda não me confirmaram nada definitivamente, mas estão a reduzir algumas despesas e há trabalhadores que poderão ser dispensados.
Matilde sentiu o coração apertar.
— E se fores um deles?
— Não sei, Matilde. Estou a tentar preparar-me para qualquer possibilidade.
Ela ficou em silêncio. Queria dizer alguma coisa que demonstrasse força, mas, por dentro, sentia-se assustada.
— Tenho medo, Marcos. Não sei como vamos conseguir.
Ele aproximou-se dela.
— Eu também tenho medo. Talvez não demonstre da mesma maneira, mas também penso nos nossos filhos, nas despesas e em tudo o que precisamos de garantir.
Matilde olhou para o marido com surpresa. Durante muito tempo, tinha imaginado que precisava de ser ela a manter-se emocionalmente preparada para qualquer dificuldade. Não tinha percebido que Marcos também carregava preocupações que nem sempre sabia expressar.
— Porque não me disseste isso antes? — perguntou.
— Acho que estava habituado a resolver os problemas sozinho. Cresci a acreditar que precisava de encontrar uma solução antes de falar das dificuldades. Mas estou a perceber que, ao fazer isso, acabo por te deixar de fora de uma parte importante da minha vida.
Matilde segurou-lhe a mão.
— Não preciso que tenhas todas as respostas, Marcos. Preciso que sejamos sinceros um com o outro. Não quero descobrir as coisas apenas quando já não houver alternativa.
— Tens razão. Vamos enfrentar isto juntos.
Naquele dia, os dois decidiram analisar as despesas da família. Fizeram uma lista das necessidades essenciais, identificaram alguns gastos que poderiam reduzir e conversaram sobre as possibilidades de Marcos procurar outro emprego, caso a situação se agravasse.
A realidade não mudou imediatamente. As contas continuavam a existir, o bebé estava prestes a nascer e o futuro permanecia incerto.
Mas, pelo menos, já não estavam a enfrentar aquela preocupação separadamente.
A NOITE DAS PERGUNTAS
Apesar da conversa, Matilde continuou a sentir-se inquieta.
Nessa noite, depois de Marcos adormecer, ela levantou-se cuidadosamente e foi até à sala. Sentou-se no sofá, abriu a Bíblia e começou a ler.
Queria encontrar uma palavra que afastasse todo o medo. Desejava uma promessa que lhe garantisse que Marcos não perderia o emprego, que as despesas seriam pagas e que nada de mau aconteceria à sua família.
Mas, enquanto lia, compreendeu que a fé não era uma garantia de que todas as circunstâncias aconteceriam exactamente como desejava.
A fé também era aprender a permanecer firme quando ainda não conhecia o resultado.
Abriu no livro de Provérbios e leu:
“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.” — Provérbios 3:5.
Matilde releu aquelas palavras.
Não se tratava de deixar de pensar, abandonar o planeamento ou esperar que tudo se resolvesse sem esforço. Tratava-se de reconhecer que a sua compreensão era limitada e que, mesmo sem controlar o futuro, podia procurar a orientação de Deus para dar o próximo passo.
Pela primeira vez naquela fase, deixou de pedir apenas que o problema desaparecesse.
Começou a pedir sabedoria para enfrentá-lo.
— Senhor — orou baixinho —, eu não sei o que vai acontecer. Não sei se o Marcos vai perder o emprego, não sei como serão os próximos meses e não sei se terei forças para enfrentar tudo. Mas não quero que o medo me impeça de viver o presente. Ajuda-me a fazer o que está ao meu alcance e a confiar em Ti naquilo que não consigo controlar.
Enquanto orava, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.
Não eram lágrimas de quem tinha encontrado todas as respostas. Eram lágrimas de alguém que começava a admitir que não precisava de fingir que era forte o tempo todo.
QUANDO A FRAQUEZA SE TORNA UM LUGAR DE APRENDIZAGEM
No dia seguinte, Matilde decidiu conversar com a mãe. Pegou no seu celular e fez uma chamada de Vídeo .
Helena ao ouvir o seu celular tocando percebeu que era sua filha e atendeu imediatamente. Ouviu atentamente enquanto a filha explicava a situação do trabalho de Marcos e o medo que sentia de não conseguirem sustentar a família.
— Minha filha — disse Helena, olhando nos seus olhos através do ecrã do seu telemóvel —, há momentos em que a vida nos coloca diante de situações que não conseguimos controlar. Nesses momentos, precisamos de fazer a nossa parte, procurar soluções e aprender a esperar.
— Mãe, às vezes sinto que, se eu não me preocupar com tudo, alguma coisa terrível vai acontecer.
Helena ficou pensativa antes de responder.
— Lembras-te de quando eras adolescente e me encontravas a chorar por causa dos problemas que eu enfrentava no casamento com o teu pai?
Matilde baixou os olhos.
— Lembro-me, mãe.
— Talvez tenhas aprendido, sem perceber, que precisavas de estar sempre alerta para evitar que a dor voltasse. Mas viver em constante alerta também é uma forma de sofrimento. Não consegues impedir todas as dificuldades por antecipares cada possibilidade.
As palavras da mãe tocaram num lugar profundo do coração de Matilde.
Durante muitos anos, ela tinha confundido preocupação com preparação. Acreditava que imaginar o pior a ajudaria a evitar o sofrimento.
Agora começava a compreender que pensar continuamente em tudo o que poderia correr mal não lhe dava controlo sobre o futuro. Apenas lhe roubava a tranquilidade do presente.
— Então, mãe, o que devo fazer quando o medo voltar?
Helena sorriu com ternura.
— Primeiro, reconhece que estás com medo. Depois, pergunta a ti mesma: “O que sei realmente? O que posso fazer agora? E o que preciso de entregar a Deus?” Não precisas de resolver amanhã todos os problemas de hoje.
Matilde sorriu e agradeceu a mãe pela sabedoria.
Aquela conversa não eliminou a sua ansiedade, mas ofereceu-lhe uma maneira diferente de lidar com ela.
UM PASSO DE CADA VEZ
Naquela semana, Marcos começou a procurar novas oportunidades profissionais. Actualizou o seu currículo, contactou antigos colegas e enviou candidaturas.
Matilde, por sua vez, ajudou a organizar o orçamento familiar e preparou algumas coisas para a chegada do bebé. Também procurou reservar momentos para descansar, conversar com o marido e brincar com o filho sem estar sempre a pensar no que poderia acontecer.
Nem todos os dias eram fáceis.
Houve manhãs em que acordou confiante e outras em que o medo voltou a apertar-lhe o peito. Houve momentos em que uma simples expressão preocupada de Marcos quase a levou a imaginar uma nova tragédia.
Mas agora ela tentava parar antes de tirar conclusões.
Quando o medo surgia, respirava fundo, identificava os factos e conversava com o marido sempre que precisava de esclarecer alguma coisa.
Estava a aprender que confiar não significava nunca sentir insegurança. Significava não entregar todas as decisões à insegurança.
Certa noite, enquanto organizavam as roupas do bebé, Marcos olhou para Matilde e perguntou:
— Ainda estás com medo?
Ela sorriu ligeiramente.
— Estou. Não vou mentir. Mas já não sinto que preciso de ter uma resposta para tudo antes de conseguir descansar.
— E o que mudou?
Matilde pensou por alguns instantes.
— Estou a aprender que não controlo o futuro. Posso preparar-me, trabalhar, conversar contigo e orar. Mas não posso obrigar a vida a acontecer exactamente como quero. Preciso de confiar em Deus e fazer a minha parte.
Marcos beijou-lhe a testa.
— Vamos continuar juntos, um dia de cada vez.
Matilde encostou a cabeça ao ombro do marido. Ainda não sabia como aquela história terminaria. O emprego de Marcos continuava em risco, e novas dificuldades poderiam surgir.
Mas começava a perceber que a sua paz não precisava de depender de conhecer antecipadamente todas as respostas.
Às vezes, Deus não nos mostra o caminho inteiro. Dá-nos sabedoria e força para dar o próximo passo.
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UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
Confiar em Deus mesmo quando o futuro é incerto.
Versículo bíblico — Provérbios 3:5
“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.”
Existem fases da vida em que queremos compreender tudo antes de avançar. Procuramos garantias, tentamos antecipar problemas e imaginamos diferentes cenários para evitar sermos surpreendidos pela dor.
Contudo, nem sempre teremos todas as respostas.
Matilde estava a aprender que a fé não significa saber antecipadamente o que vai acontecer. Significa procurar a orientação de Deus, agir com responsabilidade e continuar a caminhar mesmo quando existem perguntas sem resposta.
Também precisamos de compreender que a preocupação constante não é a mesma coisa que preparação. Podemos planear, procurar soluções e conversar sobre os nossos receios sem permitir que a ansiedade domine todos os nossos dias.
Deus não nos pede que finjamos ser fortes em todas as circunstâncias. Podemos reconhecer os nossos medos, pedir ajuda e encontrar força na Sua presença.
A confiança começa quando reconhecemos os limites do nosso controlo e escolhemos agir com sabedoria naquilo que está ao nosso alcance.
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REFLETINDO SOBRE A HISTÓRIA
1. Matilde acreditava que precisava de antecipar todos os problemas para evitar o sofrimento. Que consequências essa maneira de pensar trouxe para a sua vida?
2. O que mudou quando ela percebeu que Marcos também sentia medo e precisava de apoio?
3. Qual é a diferença entre preparar-se para uma dificuldade e viver constantemente preocupada com aquilo que poderá acontecer?
4. Como podemos demonstrar confiança em Deus sem deixar de tomar decisões práticas e responsáveis?
5. Quando enfrentas uma situação incerta, procuras imediatamente imaginar o pior ou tentas compreender os factos e dar um passo de cada vez? O que podes aprender com Matilde?
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PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
- Não precisas de conhecer todo o caminho para dar o próximo passo.
- Reconhecer o medo não significa falta de fé.
- A preocupação constante não impede que as dificuldades aconteçam.
- O diálogo e a união ajudam a enfrentar as incertezas.
- Confiar em Deus também significa agir com responsabilidade e procurar sabedoria.
Lembra-te: não tens de resolver hoje tudo aquilo que te preocupa em relação ao amanhã. Faz o que está ao teu alcance, procura a orientação de Deus e aprende a caminhar um dia de cada vez.
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ORAÇÃO FINAL
Senhor meu Deus, há momentos em que o futuro me assusta e as perguntas parecem maiores do que as minhas forças. Ajuda-me a confiar em Ti mesmo quando não compreendo o que está a acontecer. Dá-me sabedoria para tomar decisões, coragem para enfrentar as dificuldades e humildade para pedir ajuda quando precisar. Ensina-me a não viver prisioneira das possibilidades negativas e a valorizar as bênçãos que ainda tenho no presente. Que a minha fé não seja apenas uma palavra, mas uma força que me ajude a agir com amor, responsabilidade e esperança. Em nome de Jesus, amém.
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