segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A SENTENÇA DA OUTRA




POR LIANDRA LANGA



INTRODUÇÃO


A vida é feita de momentos de alegria, conquistas, lágrimas, perdas, desafios e recomeços. Em meio a tudo isso, aprendemos que ser vencedor não significa viver sem problemas, mas permanecer de pé mesmo quando as circunstâncias parecem querer derrubar-nos.

Foi com esse pensamento que nasceu esta história.

Uma família pode ser construída com muito amor, sacrifício, oração e dedicação. Pais podem educar os seus filhos segundo princípios cristãos, ensinando-lhes a importância da fidelidade, do respeito, da honestidade e do temor a Deus. Porém, quando chegam à vida adulta, cada pessoa precisa decidir por si mesma que caminho seguirá.

Maria Coana acreditava ter construído uma família sólida. Desde cedo aprendera a valorizar o casamento e a colocar Deus no centro da sua vida.

Muitas vezes, diante das dificuldades, repetia para si mesma:

“Posso todas as coisas naquele que me fortalece.” Filipenses 4:13


Ela acreditava que, com Deus, conseguiria enfrentar qualquer situação.

Mas ninguém imagina o que pode acontecer quando a pessoa que prometeu caminhar ao nosso lado decide seguir por outro caminho.

O adultério é uma ferida profunda. Ele não destrói apenas a confiança entre duas pessoas; pode atingir filhos, famílias e até relações construídas durante muitos anos.

A Bíblia é clara ao condenar o adultério:

“Não adulterarás.” Deuteronómio 5:18

E Jesus ensinou:

“Assim já não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.” Mateus 19:6

Mas o que acontece quando um casamento é atingido pela infidelidade?

O que acontece quando a pessoa traída, em vez de procurar cura, decide procurar vingança?

Até onde pode chegar alguém ferido pela traição?

E o que acontece quando, na tentativa de recuperar aquilo que perdeu, a pessoa abandona os princípios que um dia dizia defender?

Esta é a história de Maria Coana, uma mulher que acreditava conhecer o caminho da sua vida, mas que, depois de descobrir a traição do marido, entrou num caminho de dor, revolta e vingança.

É também a história de António, um homem que, apesar de conhecer a sua responsabilidade dentro do casamento, permitiu que uma escolha errada colocasse em risco tudo o que havia construído.

E é a história de Katy, uma mulher cuja vida difícil a ensinou a lutar pela sobrevivência, mas que também tomou decisões capazes de ferir outras pessoas.

Nenhum dos personagens é simplesmente vítima ou vilão. Cada um carrega uma história, escolhas, fraquezas e consequências.


A SENTENÇA DA OUTRA é uma história de traição, dor, tradição, fé, escolhas e consequências.

Os nomes utilizados são fictícios, e alguns acontecimentos foram inspirados em situações que podem ser encontradas na realidade.

Que esta história sirva não apenas para entreter, mas também para provocar reflexão.

Porque, algumas vezes, aquilo que pensamos ser uma vitória pode ser apenas o começo de uma grande batalha.



CAPÍTULO I

UMA FAMÍLIA, UMA ROTINA E UMA TENTAÇÃO

Maria Coana tinha 36 anos e era conhecida no bairro pela sua dedicação à família.

Estava casada com António, de 45 anos, havia seis anos. Juntos tinham quatro filhos.

Maria era dona de casa e, para ajudar nas despesas, vendia alguns produtos básicos no quintal. António era funcionário público e passava grande parte do dia no trabalho. Viviam em Inhagoia, na cidade de Maputo.

Maria nascera e crescera em Gaza, numa família tradicional. Desde pequena, aprendera que uma mulher deveria respeitar profundamente o marido e cuidar da casa.

A mãe ensinara-lhe muitas coisas.

Quando o marido chegasse, deveria encontrar a casa organizada. Quando fosse tomar banho, Maria preparava a água. Quando chegasse a hora da refeição, a comida deveria estar pronta.

Maria cresceu acreditando que aquilo era uma das principais formas de demonstrar amor e respeito.

Todos os dias repetia a mesma rotina.

António chegava do trabalho, tomava banho, jantava e, por volta das 20 horas, sentava-se para assistir ao Jornal Nacional.

Depois, os filhos queriam assistir às suas novelas e programas preferidos. António, cansado, retirava-se para descansar. Maria ficava.

Ainda precisava arrumar a cozinha, cuidar das crianças, organizar a casa e resolver as pequenas tarefas que pareciam nunca terminar.

Muitas vezes, só conseguia comer depois de todos terem terminado. Com o passar do tempo, o casamento começou a perder algumas das pequenas atenções que existiam no início. Maria estava cansada.

Entre os filhos, a casa e o pequeno negócio, sentia que não tinha tempo nem energia para si mesma.

António, por outro lado, sentia falta da proximidade que existia entre eles nos primeiros anos.

O problema não era apenas físico. Era emocional. Os dois estavam cada vez mais distantes, embora continuassem vivendo debaixo do mesmo teto. António era conhecido como um homem reservado. Ia à igreja, trabalhava e gostava de permanecer em casa. Tinha poucos amigos.

O seu amigo mais próximo era Raul, conhecido desde os tempos de infância. Mas tudo começou a mudar depois de algumas conversas no trabalho.

Certo dia, durante o almoço, António estava com dois colegas, Crimildo e Salomão.

A conversa acabou chegando aos relacionamentos.

Crimildo falava abertamente sobre a sua vida conjugal.

— Lá em casa, eu e a minha esposa conversamos sobre tudo — dizia ele. — Até sobre aquilo que cada um espera do casamento.

Salomão tinha uma opinião diferente.

— Mulher não deve tomar muita iniciativa — comentou.

António permanecia calado, apenas ouvindo.

A conversa ficou na sua cabeça durante todo o dia.

Quando chegou a casa, olhou para Maria de uma maneira diferente.

Pensou que talvez precisasse fazer alguma coisa para aproximá-los novamente.

No dia seguinte, comprou uma peça de roupa íntima vermelha para oferecer à esposa.

Queria surpreendê-la.

À noite, entregou-lhe o presente.

Maria olhou para a peça e ficou constrangida.

— António, onde arranjaste isso?

— Comprei para ti.

Ela ficou em silêncio.

— Não gosto dessas coisas — respondeu.

António tentou explicar que queria apenas quebrar a rotina e aproximar-se dela.

Mas Maria, influenciada pelos ensinamentos tradicionais que recebera, respondeu:

— A minha mãe sempre me ensinou que esse tipo de roupa não era para uma mulher casada usar.

António ficou frustrado.

A conversa transformou-se numa discussão.

Depois daquela noite, algo mudou dentro dele.

No trabalho, José percebeu que António estava diferente.

— O que se passa contigo?

— Nada.

— Não parece. Estás sempre distraído.

José insistiu.

— Talvez precises sair um pouco. Conhecer pessoas. Distrair-te.

António recusou inicialmente.

— Não preciso disso. Tenho a minha família.

Mas José não desistiu.

Numa sexta-feira, conseguiu convencê-lo a sair.

Foram para uma zona de barracas na região do Museu, onde havia movimento, música e muita gente.

António sentia-se deslocado.

Não era o seu ambiente.

Foi então que conheceu Katy.

Ela aproximou-se com um sorriso.

Conversaram.

Inicialmente, nada parecia perigoso.

Mas, pouco a pouco, António começou a sentir-se atraído por aquela mulher.

Katy percebeu.

E também percebeu outra coisa:

António era casado.



CAPÍTULO II

QUANDO A CONFIANÇA COMEÇA A MORRER


Katy era uma jovem bonita, comunicativa e determinada.

A sua vida, porém, não tinha sido fácil.

Perdera os pais ainda jovem e precisou assumir responsabilidades muito cedo. Tinha irmãos mais novos para ajudar e pouca oportunidade de estudar.

A pobreza obrigou-a a amadurecer rapidamente.

Entrou em relacionamentos muito cedo e teve filhos de pais diferentes. Duas uniões não deram certo.

Para sobreviver e sustentar os filhos, começou a relacionar-se com homens mais velhos e financeiramente estáveis.

Foi assim que conheceu João, um empresário de origem asiática.

João nunca escondeu que era casado.

Disse-lhe desde o início que amava a esposa, mas queria manter uma relação fora do casamento.

Katy aceitou.

Com o tempo, João ajudou-a a abrir uma pequena boutique de roupas femininas.

A partir daí, a sua vida melhorou.

Katy passou a morar numa casa arrendada em Maputo, tinha uma empregada doméstica e conseguia sustentar melhor os filhos.

Nas sextas-feiras, costumava frequentar lugares onde podia conhecer homens com capacidade financeira.

Foi num desses lugares que encontrou António.

Ela percebeu rapidamente que ele era diferente dos homens que normalmente conhecia.

António tinha emprego, família e estabilidade.

Para Katy, aquilo representava uma oportunidade.

Para António, Katy representava uma fuga.

E foi assim que começou uma relação que nenhum dos dois deveria ter iniciado.

A aproximação tornou-se cada vez maior.

António começou a esconder mensagens, chamadas e encontros.

Até que, numa noite, ultrapassou definitivamente os limites do casamento.

Quando regressou a casa, já era tarde.

Maria estava acordada, esperando por ele.

Ele entrou cansado, com sinais de ter bebido.

Maria aproximou-se.

Foi então que percebeu algo estranho.

Havia perfume de mulher na roupa dele.

E uma marca de batom.

Maria ficou imóvel.

Não perguntou imediatamente.

Preferiu esperar.

Talvez estivesse enganada.

Talvez houvesse uma explicação.

Mas aquela dúvida começou a consumir-lhe o coração.

Na manhã seguinte, António só voltou para casa por volta das nove horas.

Maria não aguentou.

— Onde estiveste?

— No serviço.

— Desde ontem?

António ficou irritado.

— Já disse que estava fora.

Maria olhou para ele.

— E esse perfume?

Ele não respondeu.

— E o batom?

Silêncio.

Maria sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.

— Onde foi que eu errei?

António continuou calado.

— O que fiz para merecer isso? Dei-te quatro filhos. Nunca te traí. Sempre cuidei desta casa. Sempre procurei respeitar-te.

A voz dela tremia.

— Quem é essa mulher? O que ela tem que eu não tenho?

António perdeu a paciência.

— Para de fazer perguntas!

Maria recuou.

Não porque tivesse entendido a situação, mas porque naquele momento percebeu que o homem que conhecia já não estava diante dela da mesma maneira.

Mais tarde, uma vizinha chamada Joana apareceu.

Joana era conhecida no bairro por saber de tudo o que acontecia.

Durante a conversa, começou a contar histórias sobre uma mulher chamada Lúcia e sobre homens casados que frequentavam determinados lugares.

Maria ouvia em silêncio.

As palavras de Joana pareciam confirmar os seus maiores medos.

Naquela noite, António recebeu uma mensagem.

Era Katy.

“Oi, amor. Senti a tua falta.”

António levantou-se discretamente e foi para a sala.

Maria estava deitada, mas ainda não dormia.

Ouviu-o falar baixinho.

— Também sinto a tua falta.

Maria fechou os olhos.

As lágrimas começaram a escorrer.

Naquele momento, a sua dor deixou de ser apenas uma suspeita.

Ela sabia que havia outra mulher.



CAPÍTULO III

A DOR QUE SE TRANSFORMA EM VINGANÇA

Eram duas horas da madrugada.

Maria levantou-se.

Encontrou António sentado na sala, segurando o telemóvel.

— Estás a falar com ela?

António levantou os olhos.

— Com quem?

— Não mintas.

Ele ficou em silêncio.

Maria sentiu uma mistura de vergonha, raiva e humilhação.

Durante anos, acreditara que o seu casamento era protegido pela fé.

Agora, sentia que tudo estava a desmoronar.

Voltou para o quarto.

Naquela noite não conseguiu dormir.

Pensou nos filhos.

Pensou nos anos de casamento.

Pensou em todas as vezes que sacrificara os próprios desejos pela família.

E então surgiu dentro dela um pensamento perigoso:

vingança.

Queria que António sentisse a mesma dor.

Queria que ele voltasse para casa.

Queria que aquela outra mulher desaparecesse da vida dele.

Maria lembrou-se de uma conversa antiga, na qual ouvira alguém falar sobre formas tradicionais de prender emocionalmente um homem.

O pensamento ficou na sua cabeça.

Na manhã seguinte, ligou para Madalena, uma amiga de infância.

— Preciso de falar contigo.

— O que aconteceu?

Maria contou tudo.

Madalena ficou em silêncio por alguns segundos.

— Conheço alguém que talvez possa ajudar.

— Quem?

— Avó Guida.

Maria hesitou.

Madalena explicou que Avó Guida era conhecida por pessoas que procuravam soluções tradicionais para problemas familiares.

— Dizem que ela resolve casos difíceis — contou.

Maria respirou fundo.

— Quero o meu marido de volta.

— Tens a certeza?

— Tenho.

No dia seguinte, antes do amanhecer, Maria dirigiu-se à casa de Avó Guida.

Era uma pequena palhota afastada.

Quando chegou, ouviu:

Nguena, mwananga. A kaya yi kola.

Maria entrou.

Avó Guida olhou para ela atentamente.

— Senta-te.

Maria explicou o que estava acontecendo.

Avó Guida fez perguntas sobre o marido e sobre a outra mulher.

Depois disse:

— O teu marido está envolvido com uma mulher mais jovem. Mas ainda existe uma ligação entre vocês.

Maria agarrou-se àquelas palavras.

— Pode ajudá-lo a voltar?

— Existe uma maneira.

Maria ficou esperançosa.

Avó Guida explicou que precisaria de alguns objetos pessoais de António e de dinheiro para realizar o trabalho.

Falou também num valor elevado.

Maria ficou assustada quando ouviu:

— Vinte mil meticais.

Era muito dinheiro.

Mas Maria estava desesperada.

— Eu vou conseguir.

Antes de sair, recebeu instruções gerais sobre aquilo que deveria trazer.

Maria voltou para casa com uma única coisa na cabeça:

António tinha de voltar para ela.

Naquele momento, ela ainda não percebia que, ao procurar controlar o marido por meios que contrariavam a sua fé, estava a afastar-se cada vez mais dos princípios que um dia defendera.



CAPÍTULO IV

A OUTRA

Maria precisava de dinheiro.

Ligou para a madrinha.

— Madrinha, preciso de ajuda.

— Para quê?

Maria hesitou.

Não contou a verdade.

Disse que precisava comprar alguns móveis que seriam trazidos da África do Sul e que devolveria o dinheiro através do xitiqui.

A madrinha acreditou.

Enviou-lhe o dinheiro através do e-Mola.

Maria recebeu.

Mas não estava a comprar móveis.

Estava a preparar-se para uma batalha que acreditava poder vencer através da vingança.

Enquanto isso, António estava cada vez mais distante.

Passava menos tempo em casa.

Katy ocupava cada vez mais espaço na sua vida.

Ela sabia que António era casado, mas acreditava que poderia conquistar definitivamente o lugar de Maria.

Começou a falar sobre futuro.

António também começou a pensar numa possibilidade que antes nunca tinha considerado seriamente:

levar Katy para conhecer a sua família em Gaza.

Um dia, ligou para casa.

— Vou viajar para Gaza por causa do trabalho.

Maria ouviu.

— Quando vais?

— Amanhã.

Ela preparou a mala dele.

Não sabia que estava a preparar a mala do homem que viajaria para apresentar outra mulher à família.

Em Gaza, a família recebeu António com alegria.

Quando perceberam que ele não estava sozinho, começaram as perguntas.

Katy foi apresentada.

Alguns familiares receberam-na com naturalidade.

Em determinados contextos tradicionais, a ideia de um homem ter mais de uma mulher ainda pode ser encarada por algumas pessoas como sinal de estatuto ou capacidade.

Mas nem todos concordaram.

Uma das cunhadas de António ficou profundamente incomodada.

Ela conhecia Maria e sabia que aquela situação lhe causaria sofrimento.

Por isso, decidiu telefonar-lhe.

— Maria, preciso contar-te uma coisa.

— O que foi?

— O António não veio sozinho.

Maria ficou em silêncio.

— Trouxe uma mulher.

O telefone quase caiu das mãos de Maria.

Ela não chorou.

Desta vez, sentiu raiva.

Uma raiva profunda.

Enquanto isso, Katy procurava conquistar a família.

Era simpática, conversava com todos e prometia ajudar no que pudesse.

Levou presentes e mostrou-se disponível.

A mãe de António começou a gostar dela.

Katy parecia saber exatamente como conquistar as pessoas.

Mas havia uma contradição dentro dela.

Apesar de frequentar uma igreja evangélica e falar sobre Deus, também acreditava que precisava recorrer a práticas tradicionais para garantir que António permanecesse ao seu lado.

No fundo, tanto Maria quanto Katy estavam procurando controlar uma situação que nenhuma delas conseguia controlar.

Uma buscava segurança.

A outra buscava estabilidade.

Uma tinha medo de perder o marido.

A outra tinha medo de voltar à pobreza.

E António, entre as duas, continuava fazendo escolhas.

O problema é que escolhas sempre produzem consequências.

Maria recebeu a notícia de Gaza e tomou uma decisão:

voltaria a procurar Avó Guida.

Desta vez, não queria apenas conselhos.

Queria uma solução definitiva.



CAPÍTULO V

O PLANO

Eram cinco horas da manhã de uma segunda-feira quando Maria voltou à casa de Avó Guida.

Levava consigo aquilo que havia sido solicitado anteriormente.

Também levava o dinheiro.

Entrou em silêncio.

Avó Guida recebeu-a.

— Voltaste.

— Sim.

— Trouxeste tudo?

Maria confirmou.

Avó Guida preparou o que considerava necessário para o trabalho.

Maria observava em silêncio.

Não fazia perguntas.

Na sua mente, só existia uma coisa:


António tinha de voltar para ela.

Avó Guida entregou-lhe uma preparação e orientou-a sobre como utilizá-la.

Maria guardou tudo cuidadosamente.

Não queria falhar.

No caminho de volta para casa, começou a pensar nos filhos.

Por alguns minutos, perguntou a si mesma:

“Será que estou fazendo a coisa certa?”

Mas a raiva rapidamente silenciou a dúvida.

Quando chegou a casa, começou a preparar tudo.

O dia passou.

António ainda não tinha regressado de Gaza.

Maria esperava.

Finalmente, ao final do dia, ouviu a porta abrir.

Era António.

Parecia cansado.

Maria respirou fundo.

Decidiu recebê-lo como se nada tivesse acontecido.

— Chegaste.

— Sim. Estou muito cansado.

Ela preparou o jantar.

As crianças correram para abraçá-lo.

António sentou-se com os filhos.

Por alguns minutos, a casa parecia novamente uma família normal.

Maria observava.

Por dentro, porém, travava uma batalha.

Queria perguntar sobre a outra mulher.

Queria gritar.

Queria chorar.

Mas ficou calada.

Depois do jantar, António sentou-se no sofá.

Ligou a televisão.

As notícias começaram.

Pouco tempo depois, o cansaço venceu-o.

Adormeceu.

Maria ficou olhando para ele.

Era o homem com quem tinha construído uma família.

O mesmo homem que agora dividia o coração entre duas mulheres.

Maria levantou-se.

Foi até à cozinha.

Olhou para aquilo que havia preparado.

Seu coração acelerou.

Ela acreditava que aquele era o momento de recuperar o marido.

Voltou à sala.

António continuava dormindo.

Maria esperou.

Quando ele acordou, chamou os filhos.

— Quero comer mais um pouco.

Um dos filhos foi até à cozinha.

— Papá, queres aquele prato que a mamã preparou?

António respondeu:

— Não. Tira da panela.

Maria ficou imóvel.

O plano que ela havia preparado não aconteceria da maneira que imaginara.

Ela observou o filho voltar à cozinha.

Pela primeira vez, percebeu que talvez não tivesse controle sobre o que estava acontecendo.

António comeu da panela.

Maria ficou em silêncio.

Naquela noite, enquanto todos dormiam, ela permaneceu acordada.

O seu plano tinha falhado.

Mas a guerra dentro dela estava apenas começando.

E talvez a verdadeira sentença ainda não fosse para a outra mulher.

Talvez fosse para todos aqueles que, de alguma forma, haviam permitido que a dor, a mentira, a traição e a vingança entrassem naquela família.


CONTINUA...


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