quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O JOGO DOS DOIS AMIGOS

 



ENTRE A DÚVIDA E A FÉ

Quando o coração não sabe em que acreditar

Por Liandra Langa


CAPÍTULO 21


O JOGO DOS DOIS AMIGOS


Havia amizades que resistiam ao tempo, às dificuldades e às mudanças da vida. Outras, porém, escondiam interesses que só se revelavam quando a confiança começava a ser colocada à prova.

Naquela manhã, Roberto chegou mais cedo à Montana. Tinha passado boa parte da noite a rever documentos antigos, autorizações administrativas e decisões financeiras que, durante anos, tinham sido tomadas sem que ele questionasse a participação de determinadas pessoas.

Algumas assinaturas chamaram-lhe a atenção.

Não eram documentos recentes. Alguns tinham sido preparados muito antes de Janaína entrar na empresa.

Roberto aproximou-se da secretária e voltou a observar uma autorização que permitia a consulta de informações estratégicas por um colaborador externo.

O nome de Marcelo aparecia associado ao processo.

— O que estavas a preparar, meu amigo? — murmurou.

Pouco depois, ligou para ele.

— Marcelo, preciso que venhas ao meu escritório hoje. Há alguns assuntos da empresa que precisamos de esclarecer.

Do outro lado, Marcelo manteve a voz tranquila.

— Claro, Roberto. Aconteceu alguma coisa?

— Prefiro conversar pessoalmente.

Houve uma breve pausa.

— Está bem. Passo por aí.

Marcelo desligou, mas o seu semblante mudou. Conhecia Roberto havia muitos anos e sabia reconhecer quando a voz do amigo escondia desconfiança.

Abriu uma gaveta, retirou uma pasta e ficou alguns segundos a olhar para ela.

— Afinal, começaste a procurar respostas — disse para si mesmo.

Na pasta estava guardado um documento que poderia mudar completamente o rumo daquela história.

Mas Marcelo ainda não sabia se deveria utilizá-lo.


Helena e Ricardo começam a agir


Enquanto Roberto procurava compreender o que se passava dentro da Montana, Helena também não estava parada.

Depois da conversa com Simone e das informações que começou a reunir, decidiu procurar Ricardo, uma pessoa que conhecia a história da empresa e compreendia a importância de preservar aquilo que tinha sido construído ao longo dos anos.

Os dois encontraram-se para conversar sobre a situação.

— Helena, a Montana precisa de mais do que uma mudança na liderança. Precisa de uma avaliação séria — afirmou Ricardo.

— É exactamente isso que me preocupa. O Roberto está a pensar na chegada do Marcos, mas não podemos permitir que ele entre numa estrutura que talvez ainda não esteja preparada para o receber.

Ricardo concordou.

— Marcos pode ser uma pessoa competente, mas não deve chegar ao Brasil para assumir responsabilidades sem conhecer a verdadeira situação da empresa.

Helena respirou fundo.

— Não quero que a minha filha e o meu genro sejam envolvidos em problemas que não criaram. Se o Marcos aceitar, precisa de encontrar uma empresa organizada, com responsabilidades definidas e contas transparentes.

— Então devemos começar por identificar o que precisa de ser revisto: a estrutura administrativa, as autorizações, os processos financeiros e as decisões que foram tomadas nos últimos tempos.

— E tudo deve ser feito correctamente. Não quero acusações sem provas, nem decisões precipitadas.

Ricardo abriu o bloco de notas e começou a registar os pontos que deveriam ser analisados.

Helena sabia que não podia simplesmente regressar ao passado e recuperar o lugar que um dia ocupou na Montana. Mas também não estava disposta a assistir, em silêncio, à possibilidade de tudo aquilo que ajudou a construir ser destruído.

A preocupação já não era apenas com Roberto. Era também com Matilde, Marcos e o futuro da família.


Uma conversa que muda o ritmo dos planos


Em Moçambique, Matilde e Marcos continuavam a conversar sobre a possibilidade de regressarem ao Brasil.

A proposta de Roberto representava uma oportunidade importante, sobretudo depois da perda do emprego de Marcos. No entanto, ambos tinham consciência de que uma mudança internacional exigia preparação.

Marcos estava a organizar alguns documentos quando o telefone tocou.

Era Roberto.

— Boa tarde, senhor Roberto — cumprimentou Marcos.

— Boa tarde, Marcos. Como estão vocês?

— Estamos bem. A Matilde está aqui comigo.

— Óptimo. Gostaria de falar com os dois.

Matilde aproximou-se e colocou a chamada em alta-voz.

— Pai, está tudo bem?

Roberto respirou fundo antes de responder.

— Está, minha filha. Liguei porque quero pedir-vos uma coisa: não precisam de se apressar para viajar para o Brasil.

Marcos e Matilde trocaram olhares.

— Aconteceu alguma coisa com a proposta? — perguntou Marcos.

— Não exactamente. Continuo interessado na possibilidade de trabalhares connosco. Mas percebi que preciso de organizar algumas coisas na empresa antes da tua chegada.

— Organizar em que sentido? — perguntou Marcos.

Roberto hesitou por um instante.

— A Montana passou por algumas mudanças e existem assuntos administrativos que precisam de ser revistos. Quero garantir que, quando chegares, encontres uma estrutura mais clara, com funções e responsabilidades bem definidas. Não seria justo trazer-te para assumir uma posição sem preparar devidamente o terreno.

Matilde ficou pensativa.

— Pai, há algum problema que devamos conhecer?

Roberto olhou para os documentos espalhados sobre a sua secretária.

— Existem questões que estou a analisar. Ainda não tenho todas as respostas e não quero criar preocupações desnecessárias. Mas prefiro ser transparente convosco: preciso de algum tempo.

Marcos respondeu com serenidade:

— Agradeço por nos informar. Para nós, também é importante que tudo esteja organizado. Não queremos tomar uma decisão tão grande sem conhecer as condições reais.

— É precisamente isso que quero evitar — disse Roberto. — Continuem a organizar a vossa vida aí. Não tomem decisões precipitadas, não comprem passagens e não iniciem mudanças por causa desta proposta. Quando tudo estiver esclarecido, voltarei a falar convosco.

Matilde sentiu um misto de alívio e preocupação.

— Está bem, pai. Esperaremos por novas informações.

Antes de desligar, Roberto acrescentou:

— E Matilde, transmite à Helena que estou a tentar colocar as coisas em ordem.

A filha ficou surpreendida.

— A mãe está a acompanhar a situação?

— Sim. Temos conversado sobre alguns assuntos da empresa.

A chamada terminou.

Marcos olhou para Matilde.

— Esta atitude é diferente da pressa que o teu pai demonstrava antes.

— Também achei. Talvez tenha percebido que não pode simplesmente entregar-nos uma responsabilidade sem primeiro resolver os problemas que existem.

— Espero que esteja a fazer isso por honestidade e não porque descobriu algo que ainda não nos contou.

Matilde segurou-lhe a mão.

— Seja qual for a verdade, desta vez não vamos avançar às cegas.


O encontro dos dois amigos


Ao início da tarde, Marcelo entrou no escritório de Roberto.

— Então, meu velho amigo! O que é tão urgente que não podia esperar?

Roberto não se levantou imediatamente. Indicou-lhe uma cadeira e colocou sobre a mesa alguns documentos.

— Quero falar sobre a Montana.

Marcelo sentou-se.

— Aconteceu alguma coisa?

— Estou a rever alguns processos antigos e encontrei autorizações que não me recordo de ter aprovado desta forma.

Marcelo olhou para os papéis.

— A empresa cresceu muito. É natural que existam documentos que já não recordes.

— Concordo. Mas alguns deles dão acesso a informações que deveriam estar sob controlo da direcção.

— Estás a desconfiar de alguém?

Roberto sustentou-lhe o olhar.

— Ainda estou a tentar perceber.

Marcelo recostou-se na cadeira.

— Roberto, depois de tantos anos de amizade, espero que não estejas a colocar em causa a minha lealdade.

— A amizade não me impede de fazer perguntas sobre a minha própria empresa.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

Roberto retirou outro documento da pasta.

— Este processo foi iniciado antes de Janaína entrar na Montana. E o teu nome aparece aqui.

Marcelo manteve a expressão controlada, mas os seus dedos apertaram discretamente o braço da cadeira.

— Talvez eu tenha ajudado a tratar de alguma coisa na altura.

— É isso que quero esclarecer. Quem autorizou? Com que finalidade? E por que razão determinadas informações foram disponibilizadas a pessoas que não faziam parte da direcção?

Marcelo inclinou-se para a frente.

— Estás a insinuar que eu te roubei?

— Não estou a acusar-te. Estou a procurar factos.

Marcelo sorriu ligeiramente.

— Sempre foste desconfiado quando se trata de negócios.

— E talvez tenha sido por confiar demasiado nas pessoas que deixei algumas coisas sem fiscalização.

A frase atingiu Marcelo mais profundamente do que Roberto imaginava.

Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Marcelo percebeu que o amigo já não estava disposto a aceitar explicações vagas. Roberto, por sua vez, começou a compreender que a ameaça à Montana talvez fosse muito mais antiga do que a chegada de Janaína.

— Roberto, cuidado para não destruíres amizades por causa de documentos que podem ter uma explicação simples.

— E tu, Marcelo, cuidado para não confundires amizade com ausência de responsabilidade.

Marcelo levantou-se.

— Quando tiveres provas, voltamos a conversar.

— É exactamente isso que estou a procurar.

Marcelo saiu do escritório sem olhar para trás.

Roberto ficou sozinho, observando a porta.

Pela primeira vez, começou a questionar não apenas as intenções de Janaína, mas também a pessoa que durante tantos anos considerou um irmão.


Janaína começa a desconfiar


Ao saber que Marcelo tinha sido chamado ao escritório de Roberto, Janaína ficou inquieta.

Telefonou-lhe assim que conseguiu.

— O que aconteceu na reunião?

— Nada que te diga respeito neste momento.

— Como assim? Foste tu que me disseste que tudo estava sob controlo.

— E continua a estar.

— Não parece. Roberto está a investigar a gravidez, está a rever documentos e agora chamou-te para uma conversa reservada.

Marcelo suspirou.

— Janaína, não te esqueças do teu papel.

A resposta irritou-a.

— O meu papel? Passei meses a fazer exactamente o que me pediste. Tornei-me indispensável, conquistei a confiança dele e agora falas comigo como se eu fosse apenas uma peça no teu jogo.

— Porque estás a começar a esquecer que existe um plano maior.

— E nesse plano, o que acontece comigo?

Marcelo ficou em silêncio.

Janaína percebeu que talvez tivesse feito a pergunta que ele menos desejava responder.

— Eu também tenho interesses, Marcelo. Não vou arriscar tudo para no fim ficares com o controlo da empresa e eu continuar sem nada.

— Ainda não é o momento de discutirmos isso.

— Para ti nunca é o momento!

Janaína desligou.

Pela primeira vez, começou a considerar que Marcelo poderia estar a usar as suas ambições para alcançar objectivos que nada tinham a ver com o futuro que lhe prometera.

E uma pessoa que começa a perceber que está a ser manipulada pode tornar-se tão perigosa quanto aquela que a manipulou.


Uma verdade ainda escondida


No final do dia, Helena recebeu uma mensagem de Ricardo.

Ele tinha encontrado uma referência a uma autorização antiga que poderia ajudar a esclarecer quem permitiu determinadas movimentações dentro da Montana.

Helena leu a mensagem duas vezes.

Depois telefonou-lhe.

— Ricardo, tens a certeza de que esse documento é anterior à entrada de Janaína?

— Tenho. E há mais uma coisa: a autorização parece estar ligada a uma decisão que foi tomada quando ainda trabalhavas na empresa.

Helena sentiu um arrepio.

— Isso significa que o problema pode ter começado muito antes de imaginávamos.

— É possível. Mas precisamos de confirmar tudo antes de tirar conclusões.

Helena olhou pela janela.

Pensou em Roberto, em Matilde, em Marcos e em tudo o que estava em risco.

A chegada de Marcos à Montana já não podia ser tratada como uma simples mudança de emprego. Antes disso, era necessário descobrir o que realmente se passava dentro daquela empresa.

E, enquanto todos procuravam respostas, Marcelo guardava um documento que ainda não tinha mostrado a ninguém.

Um documento que poderia explicar por que razão ele se aproximou tanto de Roberto ao longo dos anos.

Mas também poderia revelar que o plano para tomar a Montana começara muito antes de Janaína aparecer.


UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO


Provérbios, 15:22

“Os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros.” 

 

Nem toda oportunidade deve ser aceite com pressa. Existem momentos em que esperar, investigar e procurar orientação é uma demonstração de sabedoria.

Marcos e Matilde estão a aprender que uma oportunidade pode ser importante, mas precisa de condições claras. Helena e Ricardo compreendem que proteger uma empresa também significa proteger as pessoas que nela trabalham e as famílias que dependem dela.

Roberto, por sua vez, começa a descobrir que confiar não significa deixar de verificar.

Na vida, não precisamos de desconfiar de todos, mas também não devemos entregar decisões importantes sem procurar compreender os factos.

A sabedoria ensina-nos a agir com prudência, mesmo quando temos urgência em recomeçar.


REFLECTINDO SOBRE A HISTÓRIA

  1. Achas que Roberto tomou a decisão certa ao pedir a Marcos e Matilde que aguardassem antes de viajar para o Brasil?
  2. Por que razão é importante organizar uma empresa antes de entregar novas responsabilidades a alguém?
  3. Será que Marcelo conseguirá continuar a esconder as suas verdadeiras intenções?
  4. Janaína está finalmente a perceber que também pode estar a ser usada?
  5. Como podemos distinguir uma oportunidade verdadeira de uma situação que exige mais atenção e prudência?


PARA GUARDAR NO CORAÇÃO


Não tenhas medo de esperar quando a tua segurança e o teu futuro dependem de uma decisão bem pensada.

Nem toda porta que se abre deve ser atravessada imediatamente. Algumas precisam primeiro de luz, verdade e organização.


ORAÇÃO FINAL


Senhor, concede-nos sabedoria para tomar decisões, discernimento para reconhecer aquilo que não está claro e coragem para enfrentar a verdade.

Ajuda-nos a não agir por impulso, medo ou pressão. Protege as nossas famílias, os nossos projectos e o nosso trabalho.

Que nenhuma ambição seja maior do que a honestidade e que nenhuma amizade seja usada para esconder a injustiça.

Ámen.



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