ENTRE A DÚVIDA E A FÉ
Quando o coração não sabe em que acreditar
Por Liandra Langa
CAPÍTULO 21
O JOGO DOS DOIS AMIGOS
Havia amizades que resistiam ao tempo, às dificuldades e às mudanças da vida. Outras, porém, escondiam interesses que só se revelavam quando a confiança começava a ser colocada à prova.
Naquela manhã, Roberto chegou mais cedo à Montana. Tinha passado boa parte da noite a rever documentos antigos, autorizações administrativas e decisões financeiras que, durante anos, tinham sido tomadas sem que ele questionasse a participação de determinadas pessoas.
Algumas assinaturas chamaram-lhe a atenção.
Não eram documentos recentes. Alguns tinham sido preparados muito antes de Janaína entrar na empresa.
Roberto aproximou-se da secretária e voltou a observar uma autorização que permitia a consulta de informações estratégicas por um colaborador externo.
O nome de Marcelo aparecia associado ao processo.
— O que estavas a preparar, meu amigo? — murmurou.
Pouco depois, ligou para ele.
— Marcelo, preciso que venhas ao meu escritório hoje. Há alguns assuntos da empresa que precisamos de esclarecer.
Do outro lado, Marcelo manteve a voz tranquila.
— Claro, Roberto. Aconteceu alguma coisa?
— Prefiro conversar pessoalmente.
Houve uma breve pausa.
— Está bem. Passo por aí.
Marcelo desligou, mas o seu semblante mudou. Conhecia Roberto havia muitos anos e sabia reconhecer quando a voz do amigo escondia desconfiança.
Abriu uma gaveta, retirou uma pasta e ficou alguns segundos a olhar para ela.
— Afinal, começaste a procurar respostas — disse para si mesmo.
Na pasta estava guardado um documento que poderia mudar completamente o rumo daquela história.
Mas Marcelo ainda não sabia se deveria utilizá-lo.
Helena e Ricardo começam a agir
Enquanto Roberto procurava compreender o que se passava dentro da Montana, Helena também não estava parada.
Depois da conversa com Simone e das informações que começou a reunir, decidiu procurar Ricardo, uma pessoa que conhecia a história da empresa e compreendia a importância de preservar aquilo que tinha sido construído ao longo dos anos.
Os dois encontraram-se para conversar sobre a situação.
— Helena, a Montana precisa de mais do que uma mudança na liderança. Precisa de uma avaliação séria — afirmou Ricardo.
— É exactamente isso que me preocupa. O Roberto está a pensar na chegada do Marcos, mas não podemos permitir que ele entre numa estrutura que talvez ainda não esteja preparada para o receber.
Ricardo concordou.
— Marcos pode ser uma pessoa competente, mas não deve chegar ao Brasil para assumir responsabilidades sem conhecer a verdadeira situação da empresa.
Helena respirou fundo.
— Não quero que a minha filha e o meu genro sejam envolvidos em problemas que não criaram. Se o Marcos aceitar, precisa de encontrar uma empresa organizada, com responsabilidades definidas e contas transparentes.
— Então devemos começar por identificar o que precisa de ser revisto: a estrutura administrativa, as autorizações, os processos financeiros e as decisões que foram tomadas nos últimos tempos.
— E tudo deve ser feito correctamente. Não quero acusações sem provas, nem decisões precipitadas.
Ricardo abriu o bloco de notas e começou a registar os pontos que deveriam ser analisados.
Helena sabia que não podia simplesmente regressar ao passado e recuperar o lugar que um dia ocupou na Montana. Mas também não estava disposta a assistir, em silêncio, à possibilidade de tudo aquilo que ajudou a construir ser destruído.
A preocupação já não era apenas com Roberto. Era também com Matilde, Marcos e o futuro da família.
Uma conversa que muda o ritmo dos planos
Em Moçambique, Matilde e Marcos continuavam a conversar sobre a possibilidade de regressarem ao Brasil.
A proposta de Roberto representava uma oportunidade importante, sobretudo depois da perda do emprego de Marcos. No entanto, ambos tinham consciência de que uma mudança internacional exigia preparação.
Marcos estava a organizar alguns documentos quando o telefone tocou.
Era Roberto.
— Boa tarde, senhor Roberto — cumprimentou Marcos.
— Boa tarde, Marcos. Como estão vocês?
— Estamos bem. A Matilde está aqui comigo.
— Óptimo. Gostaria de falar com os dois.
Matilde aproximou-se e colocou a chamada em alta-voz.
— Pai, está tudo bem?
Roberto respirou fundo antes de responder.
— Está, minha filha. Liguei porque quero pedir-vos uma coisa: não precisam de se apressar para viajar para o Brasil.
Marcos e Matilde trocaram olhares.
— Aconteceu alguma coisa com a proposta? — perguntou Marcos.
— Não exactamente. Continuo interessado na possibilidade de trabalhares connosco. Mas percebi que preciso de organizar algumas coisas na empresa antes da tua chegada.
— Organizar em que sentido? — perguntou Marcos.
Roberto hesitou por um instante.
— A Montana passou por algumas mudanças e existem assuntos administrativos que precisam de ser revistos. Quero garantir que, quando chegares, encontres uma estrutura mais clara, com funções e responsabilidades bem definidas. Não seria justo trazer-te para assumir uma posição sem preparar devidamente o terreno.
Matilde ficou pensativa.
— Pai, há algum problema que devamos conhecer?
Roberto olhou para os documentos espalhados sobre a sua secretária.
— Existem questões que estou a analisar. Ainda não tenho todas as respostas e não quero criar preocupações desnecessárias. Mas prefiro ser transparente convosco: preciso de algum tempo.
Marcos respondeu com serenidade:
— Agradeço por nos informar. Para nós, também é importante que tudo esteja organizado. Não queremos tomar uma decisão tão grande sem conhecer as condições reais.
— É precisamente isso que quero evitar — disse Roberto. — Continuem a organizar a vossa vida aí. Não tomem decisões precipitadas, não comprem passagens e não iniciem mudanças por causa desta proposta. Quando tudo estiver esclarecido, voltarei a falar convosco.
Matilde sentiu um misto de alívio e preocupação.
— Está bem, pai. Esperaremos por novas informações.
Antes de desligar, Roberto acrescentou:
— E Matilde, transmite à Helena que estou a tentar colocar as coisas em ordem.
A filha ficou surpreendida.
— A mãe está a acompanhar a situação?
— Sim. Temos conversado sobre alguns assuntos da empresa.
A chamada terminou.
Marcos olhou para Matilde.
— Esta atitude é diferente da pressa que o teu pai demonstrava antes.
— Também achei. Talvez tenha percebido que não pode simplesmente entregar-nos uma responsabilidade sem primeiro resolver os problemas que existem.
— Espero que esteja a fazer isso por honestidade e não porque descobriu algo que ainda não nos contou.
Matilde segurou-lhe a mão.
— Seja qual for a verdade, desta vez não vamos avançar às cegas.
O encontro dos dois amigos
Ao início da tarde, Marcelo entrou no escritório de Roberto.
— Então, meu velho amigo! O que é tão urgente que não podia esperar?
Roberto não se levantou imediatamente. Indicou-lhe uma cadeira e colocou sobre a mesa alguns documentos.
— Quero falar sobre a Montana.
Marcelo sentou-se.
— Aconteceu alguma coisa?
— Estou a rever alguns processos antigos e encontrei autorizações que não me recordo de ter aprovado desta forma.
Marcelo olhou para os papéis.
— A empresa cresceu muito. É natural que existam documentos que já não recordes.
— Concordo. Mas alguns deles dão acesso a informações que deveriam estar sob controlo da direcção.
— Estás a desconfiar de alguém?
Roberto sustentou-lhe o olhar.
— Ainda estou a tentar perceber.
Marcelo recostou-se na cadeira.
— Roberto, depois de tantos anos de amizade, espero que não estejas a colocar em causa a minha lealdade.
— A amizade não me impede de fazer perguntas sobre a minha própria empresa.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável.
Roberto retirou outro documento da pasta.
— Este processo foi iniciado antes de Janaína entrar na Montana. E o teu nome aparece aqui.
Marcelo manteve a expressão controlada, mas os seus dedos apertaram discretamente o braço da cadeira.
— Talvez eu tenha ajudado a tratar de alguma coisa na altura.
— É isso que quero esclarecer. Quem autorizou? Com que finalidade? E por que razão determinadas informações foram disponibilizadas a pessoas que não faziam parte da direcção?
Marcelo inclinou-se para a frente.
— Estás a insinuar que eu te roubei?
— Não estou a acusar-te. Estou a procurar factos.
Marcelo sorriu ligeiramente.
— Sempre foste desconfiado quando se trata de negócios.
— E talvez tenha sido por confiar demasiado nas pessoas que deixei algumas coisas sem fiscalização.
A frase atingiu Marcelo mais profundamente do que Roberto imaginava.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Marcelo percebeu que o amigo já não estava disposto a aceitar explicações vagas. Roberto, por sua vez, começou a compreender que a ameaça à Montana talvez fosse muito mais antiga do que a chegada de Janaína.
— Roberto, cuidado para não destruíres amizades por causa de documentos que podem ter uma explicação simples.
— E tu, Marcelo, cuidado para não confundires amizade com ausência de responsabilidade.
Marcelo levantou-se.
— Quando tiveres provas, voltamos a conversar.
— É exactamente isso que estou a procurar.
Marcelo saiu do escritório sem olhar para trás.
Roberto ficou sozinho, observando a porta.
Pela primeira vez, começou a questionar não apenas as intenções de Janaína, mas também a pessoa que durante tantos anos considerou um irmão.
Janaína começa a desconfiar
Ao saber que Marcelo tinha sido chamado ao escritório de Roberto, Janaína ficou inquieta.
Telefonou-lhe assim que conseguiu.
— O que aconteceu na reunião?
— Nada que te diga respeito neste momento.
— Como assim? Foste tu que me disseste que tudo estava sob controlo.
— E continua a estar.
— Não parece. Roberto está a investigar a gravidez, está a rever documentos e agora chamou-te para uma conversa reservada.
Marcelo suspirou.
— Janaína, não te esqueças do teu papel.
A resposta irritou-a.
— O meu papel? Passei meses a fazer exactamente o que me pediste. Tornei-me indispensável, conquistei a confiança dele e agora falas comigo como se eu fosse apenas uma peça no teu jogo.
— Porque estás a começar a esquecer que existe um plano maior.
— E nesse plano, o que acontece comigo?
Marcelo ficou em silêncio.
Janaína percebeu que talvez tivesse feito a pergunta que ele menos desejava responder.
— Eu também tenho interesses, Marcelo. Não vou arriscar tudo para no fim ficares com o controlo da empresa e eu continuar sem nada.
— Ainda não é o momento de discutirmos isso.
— Para ti nunca é o momento!
Janaína desligou.
Pela primeira vez, começou a considerar que Marcelo poderia estar a usar as suas ambições para alcançar objectivos que nada tinham a ver com o futuro que lhe prometera.
E uma pessoa que começa a perceber que está a ser manipulada pode tornar-se tão perigosa quanto aquela que a manipulou.
Uma verdade ainda escondida
No final do dia, Helena recebeu uma mensagem de Ricardo.
Ele tinha encontrado uma referência a uma autorização antiga que poderia ajudar a esclarecer quem permitiu determinadas movimentações dentro da Montana.
Helena leu a mensagem duas vezes.
Depois telefonou-lhe.
— Ricardo, tens a certeza de que esse documento é anterior à entrada de Janaína?
— Tenho. E há mais uma coisa: a autorização parece estar ligada a uma decisão que foi tomada quando ainda trabalhavas na empresa.
Helena sentiu um arrepio.
— Isso significa que o problema pode ter começado muito antes de imaginávamos.
— É possível. Mas precisamos de confirmar tudo antes de tirar conclusões.
Helena olhou pela janela.
Pensou em Roberto, em Matilde, em Marcos e em tudo o que estava em risco.
A chegada de Marcos à Montana já não podia ser tratada como uma simples mudança de emprego. Antes disso, era necessário descobrir o que realmente se passava dentro daquela empresa.
E, enquanto todos procuravam respostas, Marcelo guardava um documento que ainda não tinha mostrado a ninguém.
Um documento que poderia explicar por que razão ele se aproximou tanto de Roberto ao longo dos anos.
Mas também poderia revelar que o plano para tomar a Montana começara muito antes de Janaína aparecer.
UMA PALAVRA PARA O CORAÇÃO
“Os planos fracassam por falta de conselho, mas são bem-sucedidos quando há muitos conselheiros.”
Nem toda oportunidade deve ser aceite com pressa. Existem momentos em que esperar, investigar e procurar orientação é uma demonstração de sabedoria.
Marcos e Matilde estão a aprender que uma oportunidade pode ser importante, mas precisa de condições claras. Helena e Ricardo compreendem que proteger uma empresa também significa proteger as pessoas que nela trabalham e as famílias que dependem dela.
Roberto, por sua vez, começa a descobrir que confiar não significa deixar de verificar.
Na vida, não precisamos de desconfiar de todos, mas também não devemos entregar decisões importantes sem procurar compreender os factos.
A sabedoria ensina-nos a agir com prudência, mesmo quando temos urgência em recomeçar.
REFLECTINDO SOBRE A HISTÓRIA
- Achas que Roberto tomou a decisão certa ao pedir a Marcos e Matilde que aguardassem antes de viajar para o Brasil?
- Por que razão é importante organizar uma empresa antes de entregar novas responsabilidades a alguém?
- Será que Marcelo conseguirá continuar a esconder as suas verdadeiras intenções?
- Janaína está finalmente a perceber que também pode estar a ser usada?
- Como podemos distinguir uma oportunidade verdadeira de uma situação que exige mais atenção e prudência?
PARA GUARDAR NO CORAÇÃO
Não tenhas medo de esperar quando a tua segurança e o teu futuro dependem de uma decisão bem pensada.
Nem toda porta que se abre deve ser atravessada imediatamente. Algumas precisam primeiro de luz, verdade e organização.
ORAÇÃO FINAL
Senhor, concede-nos sabedoria para tomar decisões, discernimento para reconhecer aquilo que não está claro e coragem para enfrentar a verdade.
Ajuda-nos a não agir por impulso, medo ou pressão. Protege as nossas famílias, os nossos projectos e o nosso trabalho.
Que nenhuma ambição seja maior do que a honestidade e que nenhuma amizade seja usada para esconder a injustiça.
Ámen.
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